Oito em cada 10 diabéticos não faz rastreio à vista, alguns acabam cegos

Cerca de 80 por cento dos diabéticos não têm acesso ao rastreio anual à visão, acabando muitos deles com retinopatia que, em alguns casos, termina em cegueira, denunciou hoje o diretor do Programa Nacional para a Diabetes (PND).
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José Manuel Boavida falava à agência Lusa a propósito de um conjunto de recomendações da Assembleia da República com vista ao reforço das medidas de prevenção, controlo e tratamento da diabetes.

Uma das recomendações é “o reforço do rastreio sistemático da diabetes e, em especial, da retinopatia diabética, entre os grupos populacionais que apresentem risco acrescido de desenvolvimento dessa doença, junto dos cuidados primários ou de outras instituições de proximidade”.

Segundo José Manuel Boavida, apesar da importância dos rastreios para controlo da retinopatia diabética junto desta população doente, apenas 20 por cento (%) das pessoas com diabetes têm garantido o seu rastreio anual, segundo os últimos dados, que são de 2013.

O especialista lamenta esta fraca cobertura, justificando que “um rastreio é muito mais barato do que a observação médica”.

Este rastreio é feito com recurso a aparelhos colocados para o efeito nos centros de saúde e onde os utentes podem ir avaliando anualmente o estado da sua visão e eventuais complicações associadas à diabetes.

Para o diretor do PND, “há claramente aqui uma responsabilidade direta das Administrações Regionais de Saúde (ARS)”, que acusa de “inoperância”.

José Manuel Boavida garante que os ganhos são imensos, até porque dos 150 mil diabéticos rastreados só cerca de dez por cento precisa de ir a uma consulta de oftalmologia.

“Isto quer dizer que 90 por cento dos doentes ficaram descansados, pois o seu olho não precisava de consulta. E assim evitámos que a situação progredisse”, adiantou.

Para José Manuel Boavida, a recomendação do Parlamento é “um puxão de orelhas ao Ministério da Saúde, no sentido em que há um conjunto de medidas absolutamente básicas e necessárias”.

O médico recordou que “a retinopatia diabética só dá queixas quando a situação se torna praticamente irreversível. Se as situações forem detetadas precocemente nunca chegarão a existir. Deixará de haver cegueira por causa da diabetes e a diabetes é a principal causa de cegueira na população adulta”.

Para o presidente do PND, por causa da “inércia” de quem decide, “muitas pessoas têm perdido a visão”.

Além da cegueira, outra das consequências da retinopatia diabética é a subvisão, a qual impede que os doentes consigam “fazer a sua vida com autonomia”.

Devido à “falta de rastreio, não só os diabéticos perdem a visão, como têm de fazer mais tratamentos muito mais caros, injeções no olho, operações. Enfim, custos muito maiores do que o próprio rastreio. É tapar o sol com a peneira”.

artigo do parceiro: Nuno Noronha

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