Médicos emigram para França porque não se sentem reconhecidos em Portugal

Empresa francesa recrutou mais 12 médicos portugueses no final de 2012
22 de fevereiro de 2013 - 09h42




São o exemplo do psiquiatra Filipe Carvalho, de 31 anos, e o especialista em medicina do trabalho Victor Junqueira, de 45. Ambos vão trabalhar em França, sobretudo porque sentem que em Portugal “um médico não tem reconhecimento”.




Em declarações à agência Lusa, o psiquiatra, que, depois de ter terminado a especialidade no Hospital Júlio de Matos, em Lisboa, foi “praticamente obrigado a ir” para Beja, onde trabalha desde dezembro de 2012, afirmou que o que o leva a sair do país é “o grande desfasamento que existe entre a responsabilidade que o médico tem, o que lhe é reconhecido, e o que lhe é pago”.



“Sempre coloquei a hipótese de ir para fora. E esta é a principal razão. Sempre senti que em Portugal os médicos não são tratados como deviam”, disse Filipe Carvalho, acrescentando que, “com o agravamento da situação económica e financeira do país, a saída acabou por se tornar quase uma obrigação”.



Para o psiquiatra, a deslocação para Beja representava “custos enormes” porque “a vida pessoal e a casa” estavam em Lisboa: “Financeiramente era incomportável. Não conseguia poupar dinheiro, mesmo não fazendo grandes gastos. E em termos de relação era difícil de gerir”, afirmou.



“Eu não gosto da forma como, em Portugal, se empurra as pessoas para certas situações. A descentralização é feita sem qualquer incentivo para os médicos, sem qualquer ajuda de custo. Faz-se basicamente apostando no excesso de oferta para obrigar alguns a ir para fora porque não têm vagas na sua cidade”, acrescentou.



Filipe Carvalho sai, com a companheira, que é assistente social, “sem prazo de regresso”. Vão para Rodez, sul de França, onde o médico acredita que vão ter aquilo que consideram “básico”, como “poder viver em família, ter dinheiro para casa, carro e para fazer férias anuais. Uma vida normal”. Esta decisão ilustra “uma certa desilusão com o país”.



Também Victor Junqueira, especialista em medicina do trabalho, sai de Portugal “desiludido”. Com o país, com os políticos, e com a justiça: “A minha decisão de trabalhar em França ilustra sobretudo um país onde existe uma grande falta de reconhecimento da formação na qual as pessoas investem”, disse à Lusa.



Mas este médico, residente em Pombal, não vai mudar-se para Marselha: “Vou trabalhar quatro dias por semana, durante três semanas, e folgo uma semana. Posso vir a casa todos os fins de semana, e ainda uma semana por mês. Vou andar para trás e para a frente, mas ainda assim compensa”, explicou.



A situação que terá, como contratado de um estabelecimento de saúde privado, diz, é “em tudo” melhor do que a que tinha em Portugal, a trabalhar como médico independente. Na prática, diz, ganhará “o dobro”.



“Tenho 45 anos, estava a tentar reduzir o meu horário de trabalho, o que é natural à medida que a idade avança. Mas, devido aos sucessivos aumentos de impostos, dei por mim a ter que trabalhar cada vez mais horas para ganhar o mesmo”, explicou.



Victor Junqueira garante que pagar impostos não o desagrada, mas considera que, em Portugal, não só não tem “retorno nenhum”, como não vê “esse dinheiro ser distribuído” pela comunidade: “Aborreci-me e decidi procurar outros horizontes”, concluiu.



Filipe Carvalho e Victor Junqueira estão entre os 12 médicos portugueses cujo processo de recrutamento para trabalhar em França está a ser acompanhado pela Riviere Consulting, depois da ação de recrutamento que esta empresa francesa organizou em Lisboa no final de 2012.



Lusa
artigo do parceiro: Nuno Noronha

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