Médico e cientista Manuel Sobrinho Simões pede incentivos à investigação fundamental

"Investigação não pode ser medida apenas pela sua utilidade imediata", defende Sobrinho Simões

24 de junho de 2014 - 09h51

O médico e investigador Manuel Sobrinho Simões voltou hoje a pedir políticas de investimento público na ciência que incentivem a investigação fundamental e não acabem com os centros de investigação de qualidade.

Em declarações à Lusa, a propósito da sua participação, hoje, no parlamento, numa conferência sobre o futuro da ciência em Portugal, o diretor do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (Ipatimup) voltou a manifestar que o que mais o preocupa é "a destruição do tecido institucional", o não haver, por parte do Estado, "a preocupação de avaliar e ser preciso na recompensa e no reforço" financeiro dos centros de investigação de qualidade.

"Não há política científica que se aguente no futuro se não tivermos tido o cuidado de reforçar o tecido" institucional, sustentou Sobrinho Simões, que anteriormente já tinha acusado o Governo de destruir a ciência, criticando os cortes orçamentais impostos pela austeridade.

Sobrinho Simões apontou o caso do instituto que dirige que, disse, teve uma redução de 45 por cento no seu "financiamento de base", "sem nenhuma justificação e avaliação".

Falta de financiamento

O cientista adiantou que o Ipatimup se tem mantido à custa de contratos de investigação, incluindo internacionais, e da prestação de serviços, nomeadamente a hospitais como o São João do Porto, com o qual trabalha em parceria.

"Os pagamentos da FCT [Fundação para a Ciência e Tecnologia] são erráticos", assinalou.

Manuel Sobrinho Simões, Prémio Pessoa 2002, considera que os programas da Fundação para a Ciência e Tecnologia, entidade pública que subsidia a investigação científica, "são fragmentários".

"Não têm sido feitos com regularidade, não têm sido coerentes. Têm sido pouco transparentes, com alterações das classificações... tem havido sempre trapalhadas... têm feito com que as pessoas sintam uma progressiva desconfiança", defendeu, acrescentando que, a seu ver, a FCT "não consegue cumprir prazos, abrir os concursos, avaliar as instituições".

Para o médico, especialista em cancro da tiroide, "é assustador a incompetência e a displicência" da FCT, que "não respeita os cientistas".

As críticas - da comunidade científica - à Fundação para a Ciência e Tecnologia, que tem refutado qualquer irregularidade, subiram de tom este ano, após a diminuição das bolsas individuais de doutoramento e pós-doutoramento, que a instituição alega que foram compensadas por outros programas de apoio à investigação.

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