Dislexia deixou de ser mito mas continua sem resposta adequada nas escolas

UTAD é a única universidade portuguesa com uma Unidade de Dislexia
17 de janeiro de 2014 - 10h40



A investigadora Ana Paula Vale estuda há mais de 20 anos a dislexia, que começou por ser considerada "um mito” e é hoje uma perturbação de desenvolvimento reconhecida, embora ainda não tenha uma resposta adequada nas escolas.



“Felizmente, hoje já se percebeu que a dislexia não é uma invenção, é uma condição, uma perturbação de desenvolvimento que provoca essa dificuldade de aprendizagem específica da leitura”, afirmou à agência Lusa a professora da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).



Ana Paula Vale impulsionou a Unidade de Dislexia da UTAD, em Vila Real, e coordenou o primeiro estudo em Portugal sobre a prevalência desta perturbação em crianças, concluindo que 5,4% dos 1460 avaliados nos concelhos de Vila Real e Braga possuem dificuldades na área da leitura ou escrita.



“Este estudo indica que, numa turma com 25 crianças, existe uma probabilidade muito elevada de uma delas ter dislexia”, salientou.



Quando começou a trabalhar na área, a docente diz que “havia um elevado número de pessoas que até partilhavam a ideia de que a dislexia era um mito, uma coisa inventada”.



Em 20 anos, a mentalidade mudou e hoje, de acordo com a investigadora, já se percebeu que se trata de “um problema sério”.



“Apesar disso não existe no sistema educativo em Portugal uma resposta adequada a este problema. Está longe de ser adequado. As escolas não têm meios para responder a este problema”, frisou.



Na sua opinião, são “muito poucos” os professores que possuem uma formação específica atualizada e cientificamente sustentada, e, por isso, a maior parte dos docentes “não está em condições de fazer uma intervenção de qualidade, aquela que é exigida para as crianças que têm dislexia”.



Para a responsável, trata-se de uma questão “grave” e “até criminosa”, porque a grande maioria das crianças com esta síndrome possuem “uma inteligência típica e que poderiam ter um desempenho, um sucesso escolar normal e não têm por causa disto”.



“Porque a dislexia vai dificultar a sua vida, o seu desempenho e a suas aprendizagens escolares a todos os níveis”, explicou.



A UTAD é a única universidade portuguesa com uma Unidade de Dislexia, que recebe crianças provenientes de praticamente todo o país para fazer o diagnóstico e tratamento, o qual, segundo a responsável, quanto mais cedo começar melhor.



“Estamos a ter vários pedidos por semana para avaliação de diagnóstico”, frisou.



As crianças afetadas por esta perturbação possuem problemas relativos à velocidade de processamento e à memória verbal, de trabalho e de curto prazo. Esta síndrome afeta todos os extratos sociais.



Em 2011, Ana Paula Vale foi distinguida com o Prémio Seeds of Science, na categoria das Ciências Sociais e Humanas, atribuído pelo Jornal “Ciência Hoje” pelo primeiro estudo sobre a prevalência desta síndrome em crianças portuguesas.



A investigadora integra ainda a equipa que recebe hoje, em Braga, o prémio CEGOC 2013 atribuído ao projeto Bateria de Avaliação da Leitura (BAL) que avalia a leitura de palavras e a compreensão de textos pelas crianças do primeiro ciclo.



Lusa
artigo do parceiro: Nuno de Noronha

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