Profissão: "CEO Familiar, Diretora Executiva do Lar ou General Manager da casa"

São mulheres que, pela família, fizeram escolhas: optaram por ficar em casa com os filhos e ser donas de casa a tempo inteiro. Fique a conhecer algumas histórias.

Foi o nascimento do filho, em 2011, que levou Maria Luís, de 37 anos, autora do blog Hortelã Pimenta, a ficar em casa. “Na verdade, o destino encarregou-se disso, depois de um regresso atribulado ao trabalho, depois de um ano e picos de emigração, depois de um regresso difícil a Portugal. Eu regressei com o meu filho, o meu marido ainda ficou. O meu filho tinha ficado sem o pai e precisava muito da mãe. A vida encostou-me à parede e fez-me ver que o melhor seria ficar em casa”, explica.

Maria Luís, Hortelã Pimenta
créditos: Reprodução Hortelã Pimenta

O mesmo instinto guiou Vera Agostinho, autora do blog Eu, Ele, a Maria, o Miguel e a Ana. Aos 29 anos, Vera era mãe pela primeira vez e quando chegou a hora de regressar ao trabalho deparou-se com um problema. Na época era empregada de mesa, profissão com horários de trabalho pouco compatíveis com as rotinas de um bebé. “Quando a Maria nasceu fizemos as contas e financeiramente não compensava pagar a alguém para ficar com ela. Achámos que, em todos os sentidos, seria melhor ela ficar comigo”, explica.  Depois de Maria, hoje com cinco anos, Vera, atualmente com 34 anos, teve mais dois filhos: o Miguel, com quatro e a Ana com sete meses.

Sandra Francisco, 41 anos, mãe de cinco filhos, seguiu o exemplo de Vera: optou por ficar em casa “derivado a ter crianças pequenas e não haver horário de trabalho compatível com as creches ou escolas”.

Vírgina Cabral, de 52 anos, sempre desejou ter uma família numerosa e a escolha natural foi ficar em casa com as crianças. “Tendo consciência de que teríamos uma melhor qualidade de vida fora de Lisboa, eu e o meu marido decidimos ir viver para o Algarve. O meu primeiro filho, João Pedro nasceu ao fim de 10 meses de casada, dois anos e meio depois nasceu a Beatriz, um ano e meio depois o Bernardo, seguido da Maria, dois anos depois, e por fim a Francisca, quatro anos depois”.

Virgínia e família
Virgínia com os cinco filhos e o marido.

Mas como é o dia de uma dona de casa? “Lendo o termo "Dona de Casa" vejo-me algures nos anos 1950, com o cabelo cheio de laca, unhas impecavelmente arranjadas e sempre com um sorriso na cara enquanto manuseio agulhas de tricotar!”, brinca Maria Luís.

O dia a dia de Vera Agostinho foi-se alterando com o crescimento da família, mas as horas do seu tempo são divididas entre os mais pequenos e as lides domésticas. Uma rotina não muito diferente da de Sandra, que passa os dias a “arrumar as coisas das crianças para irem para escola e depois levá-las, fazer as compras, arrumar a casa (estender roupa, passar a ferro, cozinhar, limpar), ir buscar as crianças à escola, dar banho, vestir os pijamas, fazer o jantar, deitá-las”.

Sandra Francisco
Os filhos mais novos de Sandra.

Hoje com os filhos crescidos, sobra tempo e alguma calma aos dias de Virgínia. Quando as crianças eram mais pequenas “felizmente tinha uma empregada que tratava de grande parte das tarefas da casa, à exceção das refeições que maioritariamente eram confecionadas por mim, primeiro por opção minha e consequentemente por preferência dos meus filhos”, mas essencialmente o seu dia “era praticamente preenchido em tarefas e atividades com os meus filhos”.

Maria Luís resume o que implica esta profissão a tempo inteiro: “Ser dona de casa, hoje em dia, é ser CEO Familiar, Diretora Executiva do Lar ou, mais fino, General Manager da casa! É trabalhar com isenção de horário, tentar estar sempre no nosso melhor, nunca descurando as tarefas domésticas que se vão multiplicando ao longo do dia”.

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Os desafios de quem optou por ficar em casa

Os desafios são muitos. Para Vera Agostinho, o facto de dividirem um ordenado levou-a a fazer escolhas. “Cinema é em casa, refeições fora são muito poucas, não vamos de férias, a roupa da Maria é muitas vezes comprada na secção de rapaz para depois ficar para o Miguel”.

No caso de Maria Luís, “o desafio respeitante ao lado pessoal foi o mais difícil de ultrapassar. Deixar de trabalhar, deixar de ganhar o meu dinheiro, passar a depender de outra pessoa, ver os colegas a progredirem na carreira... não foi fácil”, assume. Apesar da ginástica orçamental que tem de fazer, “a parte social se for trabalhada não é abalada. Ficamos até mais disponíveis para os amigos. Aliás, é precisamente numa situação como esta que realmente vemos quem são os nossos amigos”.

Virgínia arranjou uma solução: “não havendo muito espaço para encontros com amigas fazia questão de agendar uma vez por semana um lanche ou um almoço”. Hoje com mais tempo para si, pode combinar estes encontros com mais regularidade mas coloca sempre a família em primeiro lugar, até porque “as idas à esteticista... essas continuam a ser com as minhas filhas”.

Vera confessa que, a nível pessoal, “é muito cansativo, não é seguramente para toda a gente. Passo muitas vezes um dia inteiro sem falar com uma pessoa adulta”, e Sandra assume que convive pouco e que lhe resta pouco tempo para ela e para o marido.

Voltar a trabalhar um dia

Vera Agostinho não põe de parte a hipótese de voltar a trabalhar, mas confessa que neste momento "penso mais no presente, isso depois logo se vê". Sandra Francisco gostava de voltar a trabalhar mas há coisas que a preocupam como "o horário de trabalho, saber se consigo chegar a horas para ir buscar os meus filhos a tempo, à escolinha, e que os meus filhos fiquem doentes e eu tenha que faltar".

No caso de Maria, ficar em casa nunca foi visto como uma decisão definitiva. Sentindo que a sua missão em casa foi cumprida, neste momento quer voltar ao mercado de trabalho. Mas a tarefa não tem sido facilitada.

“Ser mulher é difícil, ser mulher em Portugal é difícil e ser mãe e mulher em Portugal é ridiculamente mais difícil”, desabafa, acrescentando que “para os empregadores somos uma espécie de bicho raro que fez muito mal em decidir ficar em casa. As pessoas são demasiado transparente e deixam escapar o seu espanto de uma forma bastante desagradável. Ter 37 anos é a mesma coisa que estar derrotada e ter um filho em idade escolar é algo transcendente. Oiço coisas hilariantes e desculpas esfarrapadas, quando as dão. Há uma falta de cultura imensa no nosso país no que diz respeito às decisões que se tomam pela família, nomeadamente pelos filhos”. Mas para Maria Luís, desistir não está nos seus planos.

Da serenidade dos seus 52 anos, Virgínia Cabral assume que ser mãe a tempo inteiro foi a "profissão" que lhe permitiu ter a maior realização pessoal. "Talvez o facto de ter tido propostas de emprego me tenha dado a certeza de que ser mãe a tempo inteiro foi uma escolha minha", assegura, acrescentando que "a boa formação e educação dos meus filhos foi sempre uma prioridade, tendo a certeza que a melhor maneira de o conseguir era estar disponível e ser mãe a tempo inteiro".

Os dias não são todos iguais e há momentos melhores que outros. Mas Maria, Vera, Sandra e Virgínia têm a mesma certeza: não se arrependem da decisão que tomaram.

“Acho que o facto de ter ficado em casa me deu oportunidade de acompanhar e participar no crescimento dos meus filhos de uma maneira muito ativa, estando sempre presente tanto nos momentos rotineiros, como nos importantes”, confessa Virgínia. Maria acrescenta que “considero-me uma mulher de sorte por ter tido a oportunidade de ficar em casa. Cresci muito interiormente, pensei muito, refleti, li, aprendi a cozinhar na perfeição, passo ferro como ninguém e tenho regras de organização incríveis. Ainda tive tempo para desenvolver aptidões que julguei nem as ter”, conclui.

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