Espelho meu, espelho meu… Haverá melhor corretor do que o meu?

Porque as crianças não são sempre maravilhosas…

Desceu as escadas a um passo ritmado, revelando as biqueiras de uns sapatos eximiamente engraxados e, depois, umas calças que contornavam as suas curvas generosas mas perfeitas. Ajeitou a mala ao ombro, sacudiu os cabelos longos e abriu um sorriso imenso que se iluminava numa maquilhagem cuidada e delicada.

- Estás ótima, para quem teve quatro filhos!

Simulei um sorriso e, em silêncio, repeti aquelas palavras. Silabicamente, para as processar melhor. “Es-tás ó-ti-ma pa-ra quem te-ve qua-tro fi-lhos”. Ora bem, aquele desdobramento mental da mensagem fazia com que a comunicação me soasse mais a insulto que a elogio. Eu estava ótima para quem tinha tido filhos – logo quatro, por sinal. Mas se não os tivesse tido estaria péssima. Seria isso?

Foquei então discretamente cada detalhe do seu corpo, enquanto ignorava todo o discurso que ela proferia e que, confesso, me foi tão indiferente que jamais o conseguiria reproduzir. A sua camisa branca vincada por um ferro sem pressa em engomar, o verniz das unhas sem uma lasca evidente, o eyeliner que lhe delineava os olhos com uma precisão que só o (muito) tempo permitia alcançar. Eu também já tinha sido assim. Fresca, com uma pele perfeita e o rosto sem qualquer marca de noites mal dormidas. Perfecionista com os detalhes estéticos, exigente com a conjugação dos adereços, perita em exibir uma maquilhagem complexa e um cabelo meticulosamente alisado ao nascer da manhã. Pois, eu já tinha sido assim. Há mais precisamente 13 anos. Treze!

Quatro filhos depois, não saio à rua de fato de treino, não ando com as unhas por pintar e nem me arrisco a sair de casa sem esconder o peso do cansaço debaixo de um corretor de olheiras. A roupa de “antes” ainda me serve – mesmo que isso implique encolher o que antigamente não adornava as laterais do meu corpo – e mantenho praticamente o mesmo peso de sempre. Mas aparece então a conjugação mais grave de todas: idade + gravidade + maternidade. Pois é, esta “santíssima trindade” trouxe-me, apesar de tudo, alguns detalhes físicos que fazem com que eu pareça assim: ótima, mas para quem teve quatro filhos!...

Se isto me afeta? Seria protocolarmente correto dizer que não, certo? Mas incomoda, sim, por mais que eu saiba que não trocaria nunca um segundo da minha “nova” vida por menos quatro quilos e cinco centímetros de anca. Mas a verdade é que o meu espelho é de uma sinceridade atroz e todas as manhãs me atira um grito histérico, que ecoa estridentemente por todos os meus poros: “vai buscar a maquilhagem, mulher”! E lá vou eu, depois de uma curtíssima noite de sono, esconder, centímetro a centímetro, todos os sinais que se tatuaram na minha pele: o da preocupação nas doenças deles, o das noites em branco, o das birras geridas, o da educação imposta, o de todos os compromissos sociais que recusei para exercer o meu papel de mãe.

Até que ela, a minha amiga irritantemente fresca e socialmente ativa, interrompeu os meus pensamentos com uma mão pousada no meu ombro e comentou:

- Tens um ar tão feliz!...

E foi então que rasguei o mais sincero sorriso e recordei que o corretor de olheiras me disfarça tudo menos o mais importante: a sensação de felicidade absoluta.

Despedi-me com um beijo pousado naquela tez perfeita e cuidada, deixei-a fitar-me com aquele olhar cúmplice de quem se comove com a conquista alheia e, mesmo antes de a ver partir no embalo das suas ancas trabalhadas no ginásio mais in da cidade, segredei-lhe:

- Estou ótima! Mas precisamente porque tive quatro filhos!

Alda Benamor

 

Licenciada e consultora em Comunicação Empresarial, é mãe de quatro crianças. Os filhos dizem-lhe que é a melhor do mundo, mas que não conhecem mais nenhuma mãe que seja assim “tão extrovertida”. Ela reconhece o papel, assumindo que isso afasta, por enquanto, potenciais genros e noras que queiram aparecer para jantar.

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