Carta aberta às minhas filhas

Acontece que o amor é tão complexo, tão pessoal, tão único que, neste caso, nem sempre encontro “a” resposta certa – ou científica – para oferecer a estas meninas que já não se contentam com meias palavras.

Há dias, discutiam-se aqui por casa as questões do amor. As minhas filhas, a entrar naquela idade em que o corpo e o coração começam a despertar para temas que já em nada se relacionam com as bonecas anoréticas com que tanto brincaram, perguntaram-me como é que sabemos que encontrámos a “pessoa certa”. Como é que sabemos que a que temos ao lado num determinado momento é a que ali deve ficar.

Conversamos muito por estes lados. Não temos temas tabu, desde que enquadrados no contexto e na idade (e maturidade) deles, e nunca usei as tradicionais histórias da cegonha para justificar assuntos que, à lupa do preconceito, podem ser mais complexas de explicar. Acredito que as coisas “são como são” e que, desde que partilhadas de forma adequada, são sempre passíveis de ser abordadas sem os subterfúgios da fantasia.

Acontece que o amor é tão complexo, tão pessoal, tão único que, neste caso, nem sempre encontro “a” resposta certa – ou científica – para oferecer a estas meninas que já não se contentam com meias palavras. Por isso, e reforçando aquele típico desejo de que as minhas filhas se realizem um dia no tal amor perfeito, deixo-lhes aqui apenas alguns sinais que poderão, um dia, fazer-me acreditar que elas terão encontrado a estrada certa no meio da bifurcação da vida:

O homem certo vai amar-vos como vocês são. Trapalhona como a mais velha é, despistada como a mais nova não consegue deixar de ser. E não vos vai tentar mudar, nem rebaixar, nem diminuir pelas vossas fraquezas. Vai amar os vossos pequenos defeitos com a mesma força com que amará as grandes virtudes.

O homem certo vai aceitar as diferenças. Vai entender que não gostem do último álbum de heavy metal que ele tanto aprecia e, com alguma sorte, vai acompanhar-vos aos concertos cuja música ele dispensa. Vai aprender a aceitar, mesmo que com algum sacrifício inicial, os pratos vegetarianos que vocês adoram. Vai sorrir quando vos vir dançar no meio da chuva, mesmo preferindo estar em casa. Vai orgulhar-se quando ler os vossos textos criativos ou as músicas escritas em cima do joelho, mesmo sendo ele um homem dos números e do racional.

O homem certo vai querer que vocês sejam do mundo. Não vos vai querer fechar na sua própria redoma, reconhecendo que a família, os amigos e os colegas fazem parte da vossa essência. Vai gostar dos vossos amigos ou, no limite, vai gostar que vocês adorem os vossos amigos. Vai aceitar que o troquem por umas horas quando uma amiga vos telefonar de coração partido, a suplicar por aquele ombro que só vocês lhe vão conseguir dar.

O homem certo vai respeitar-vos. Vai entender que os choques são essenciais para qualquer relação e que deles nasce a aprendizagem mútua. Com cuidado, porque ele vai saber que vocês serão especiais demais para ferir com uma única palavra leviana.

O homem certo vai ser um grande amigo. Vai poder ser a vossa melhor companhia para viajar, para sair à noite, para conversar ou até para simplesmente se aninharem no sofá. Vai ser o vosso porto-de-abrigo para onde, depois de um cansativo dia de trabalho, vocês vão querer sempre voltar.

O homem certo vai criticar-vos. Sempre e de forma construtiva. Vai ajudar-vos a crescer e a melhorar aquelas pequenas coisas que a nossa miopia nem sempre nos deixa ver. Vai dar-vos ferramentas para que, ao lado dele, vocês se tornem pessoas melhores.

E, já agora, o ideal é que o homem certo vá gostar da vossa mãe. Sim, desta vossa mãe que tanto dança kizomba no meio da rua como diz o que entende sem pensar. E vai achar que ela (eu!) é sempre a melhor opção para ficar com os vossos filhos, para preparar os almoços semanais de Domingo e para vos acolher quando uma intempérie da vida vos assolar.

[A lista é infindável e está em permanente atualização. Os pontos são arbitrários ainda que, convenhamos, este meu coração de mãe acredite que o último seja tendencialmente muito, muito importante!]

Alda Benamor

artigo do parceiro: Susana Krauss

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