Virgílio Castelo

Confissões de Virgílio Castelo Em vésperas da estreia da peça "Um, Ninguém e Cem Mil", que estará em cena  no Teatro Tivoli, em Lisboa, nos dias 28, 29 e 30 de Janeiro, o actor Virgílio Castelo, de 57 anos, conversa com SapoFama sobre os palcos, a televisão, a família, a vida.

O que podemos esperar desta peça "Um, Ninguém e Cem Mil", que marca o seu regresso aos palcos de teatro um ano depois da última actuação?
A peça é sobretudo o exercício de um homem à procura da sua essência, na linha dos textos de Luigi Pirandello. Neste caso, o escritor foi certamente inspirado pelos deuses ao escolher um banqueiro - um homem que anda à procura da sua identidade e que, para a encontrar, tem que se despojar de tudo aquilo o que não é necessário. Neste monólogo, o seu personagem é Vitangelo Moscardo, que chega quase a um ponto de loucura para descobrir a sua identidade. Foi uma tarefa árdua construí-lo?
Talvez tenha sido umas das coisas mais difíceis que eu fiz até hoje. Havia uma saída imediata, que era ficarmos presos à intelectualidade do texto, mas nunca nos passou pela cabeça fazermos um espectáculo só para professores universitários. Foi difícil dar a complexidade de Luigi Pirandello de uma maneira acessível a toda a gente. Como consegue conciliar a sua paixão pelo teatro com as funções de consultor para a ficção nacional na SIC?
É fácil. Eu sou consultor, não sou funcionário, portanto trabalho quando me consultam. Estou praticamente todos os dias na SIC porque há imensas coisas para fazer, mas tenho liberdade de poder gerir a minha vida de modo a poder fazer teatro. Já quanto era director-geral da produtora NBP, e aí era complicado, continuava a fazer teatro. Uma coisa não interfere com a outra. As funções de consultor não colidem muito com a actividade de actor. Quanto à contratação de actores em regime de exclusividade por parte da SIC, dá o seu parecer ou a decisão não passa por si?
A contratação dos actores passa só em parte por mim e tem mais a ver com uma lógica de filosofia de estação do que propriamente com a ficção dentro da estação. Onde é que eu entro? Eu entro quando me perguntam o que eu acho de determinada opção para contratação, mas a opinião que eu dou é em função daquilo que nós vamos fazer, ou seja, eu dou a minha opinião sobre se uma pessoa é adequada para um papel específico. Eu não vou dizer se o actor é adequado à estação, posso é dizer se é ou não adequado a esta ou àquela personagem. A onda de novas contratações da SIC significa que o canal vai ter mais novelas em horário nobre?
No caso concreto da SIC e pela primeira vez nestes últimos anos, vamos poder fazer uma novela a seguir à outra. São precisos muitos actores porque, nas duas primeiras novelas que fizemos ("Podia Acabar o Mundo" e "Perfeito Coração), acabou uma e houve vários actores que passaram para a outra e, neste momento não podem. Portanto, temos que ir buscar actores novos ao mercado porque a lógica será irmos aumentando os horários de ficção. A SIC precisa claramente de mais actores do que aqueles que tem. A exclusividade é vantajosa para um actor?
A mim, como actor, não me interessa rigorosamente nada a exclusividade. Sou um pouco aventureiro, herdei isso da minha mãe, preciso de mudar e não aguento muito tempo a fazer a mesma coisa. A exclusividade deixar-me-ia sem capacidade de escolha. Por outro lado, é evidente que a exclusividade tem vantagens e a pessoa tem trabalho assegurado durante um período de tempo. Mas, enquanto tiver força anímica para arriscar e isso não puser em perigo a minha família, acho que não vou querer exclusividade nenhuma. Já foi escolhido o texto que vai ser adaptado para a nova novela produzida pela SIC e pela Globo?
O texto foi escolhido no passado dia 20 de Janeiro e o Nuno Santos (director de Programas da SIC) anunciá-lo-á quando entender. O primeiro passo entre SIC e Globo era escolher o texto e isso já está feito. A nossa ideia é que, num determinado momento, se faça aquilo a que se chama a "sanduíche", ou seja, queremos ter as duas novelas no ar ao mesmo tempo ("Laços de Sangue" e a nova produção), e por isso é que não queremos repetir actores. Com tanto trabalho em teatro e televisão, que tempo lhe fica para a família?
O tempo para a família está lá todo. Todos os dias, eu chego a casa a horas de ajudar nos banhos das duas filhas (Sancha, de dois anos, e Violeta, de seis) e tenho tempo de manhã para levar a Violeta à escola. Dá para gerir tudo. Eu tenho tempo para a família e para o trabalho, tenho conseguido e, quando não consigo, durmo menos. Teve uma neta, a Flor, o ano passado. É um avô babado?
Sou! (risos). Ter um neto é ter só o melhor dos filhos. As chatices têm-nas os pais, e nós temos só a parte boa. Sobretudo, há aqui uma situação muito ternurenta que é a proximidade de idades entre as minhas filhas mais novas e a minha neta. Aquilo é uma loucura! A Sancha adora a sobrinha, e no fundo, ela é um nenuco que a minha filha tem ali. Como é que é viver numa casa só com mulheres?
É óptimo! Eu gosto muito do universo feminino porque é completamente misterioso. Há muitos homens que não gostam desse lado porque dá muito trabalho lidar com essas mudanças permanentes, mas eu gosto disso... Depois, tem uma grande vantagem, como a Eunice Muñoz ainda há dias me lembrava. Dizia-me ela, com graça: ‘Ainda bem que tu só tens filhas porque quando fores velho vão tomar conta de ti, porque se fossem rapazes não tomavam'. Acho que isso é completamente verdade e posso ser velho à vontade. O que ainda lhe falta fazer na vida?
Imensa coisa! A minha mãe costuma dizer-me que hei-de estar no caixão e ainda me levantar e dizer ‘Mas isto não é bem assim, eu devia fazer outra coisa'. Tenho uma grande curiosidade e uma enorme vontade de mudança permanente. Sou um entusiasmado, muito apaixonado pelas coisas, e facilmente sou desviado. Não penso muito naquilo que vou fazer, as coisas vão acontecendo e eu deixo-me levar por elas. Quando era miúdo, com 19/20 anos, nessa altura ainda se andava muito à boleia pela Europa e eu fazia muito isso. Pedia boleia e chegado à entrada de uma cidade, mesmo que tivesse boleia para continuar, eu não ia. Atravessava a cidade a pé e só voltava a pedir boleia na outra ponta da cidade. Aquela ideia de conhecer o desconhecido é a forma superior de romantismo. Para mim, é romântico tudo o que não conheço. Portanto, o que me falta fazer? Tudo!

artigo do parceiro: Top Fama

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