Fernando Exposto em entrevista

Um cirurgião plástico que se orgulha do percurso percorrido e das conquistas alcançadas

Comunicativo e sem medo das palavras, Fernando Exposto ainda tem bem presente na memória porque quis ser
cirurgião.

«Aos 7 anos, tive, involuntariamente, de perceber o que era uma queimadura.
Vivia em Angola quando, um dia, uma garrafa de gás explodiu e atingiu
a senhora Conceição, que era quem tomava conta de nós. Lembro-me que foram
precisos meses para que a cicatriz dela sarasse», recorda.

«Fiquei com aquela imagem na minha
memória para o resto da vida. E quando surgiu a hora de escolher o que queria
ser, não tive dúvidas em escolher a Medicina e a Cirurgia Plástica reconstrutiva.
Nunca quis ser médico mas sim cirurgião», desabafa ainda este conhecido cirurgião nacional.

Aluno aplicado e homem empreendedor e ambicioso, em 1984, por iniciativa própria
e cansado de estar em Portugal, rumou até à África do Sul, onde esteve 10
anos e aprendeu, como diz, tudo o que sabe sobre a Medicina e a Cirurgia Plástica
reconstrutiva. «Mais tarde, estive em Kentucky, nos Estados Unidos da América, na capital da
cirurgia da mão, onde tive o prazer e a honra de trabalhar com Arnold Kleinert, pai
da cirurgia da mão», a sua grande paixão. Hoje, orgulha-se do percurso percorrido e das conquistas alcançadas.

«Julgo que
sou o único cirurgião que já operou nos cinco continentes e trabalhou com alguns
dos nomes mais importantes da cirurgia plástica», admite. Sentado em frente à sua secretária
é com um sorriso que revela que, quando está ali, muitas vezes, antes de ser
cirurgião plástico, é psicólogo, sociólogo, psiquiatra, homem e «só no fim desta
cadeia toda é que sou cirurgião plástico».

Reconhece que o cirurgião plástico é um
vendedor de sonhos mas ressalva que, às vezes, é preciso não
acalentá-los. «Todos
os doentes de Cirurgia Plástica são, de certa forma, doentes de psiquiatria e todos
os dias surgem aqui pessoas com as histórias mais inimagináveis que possa imaginar.
E aí, prevalece a experiência do cirurgião», afirma.

Percebe-se que não pactua com a obsessão que existe hoje com a imagem. «Banalizou-se a cirurgia plástica. Tenho aqui casos de cirurgias que correram mal noutros países
e que tenho de refazê-las aqui. Normalmente, peço ao doente que me diga porque
é que quer alterar isto ou aquilo e não costumo contentar-me só com uma explicação.
Preciso de mais», admite. É com a mesma humildade que admite que já teve
doentes que ficaram descontentes com o seu trabalho.

«Se houver algum cirurgião
que afirme que correu sempre tudo bem, ou é mentiroso ou não opera», assegura.
Quando isso acontece não consegue esconder a tristeza. «Fico interiormente
incomodado, é claro. Analiso com o doente o que está mal e tento explicar que há
a possibilidade de correcção. Mas tenho um caso que não consegui corrigir, o que
me deixou bastante triste», revela ainda.

O que mais gosta no teu trabalho?

A cirurgia da mão é a minha grande amada. Reconstrui-la implica devolver
vida a quem a tem amputada ou traumatizada. Mas isso só é possível
com um profissionalismo a tempo inteiro. Na África do Sul trabalhei
só e apenas em hospitais públicos.


Veja na página seguinte: O que mais o atrai no corpo humano

O que mais o atrai no corpo humano?

É a mão! John Fleming é o homem que depositou em mim toda a confiança.


E quando agora lhe digo que em vez de mão, faço 95% de estética,
ele não entende. Mas aqui o volume de trabalho é menor e não há
nenhum centro de mão de referência em Portugal.

Já se submeteu a alguma cirurgia plástica?

Não, mas no dia em que achar necessário, não tenho qualquer problema
em pedir a um colega que me opere.

Já operou alguém da sua família

Sim, mas não familiares directos.

Já algum paciente o comoveu de forma especial?

Todos os cirurgiões têm histórias mas, se calhar, por causa da minha
faceta de jornalista, guardo o quíntuplo das histórias e tenho-as com
quase todos os doentes. Tive pacientes que me beijaram as mãos, o que
acredito também já ter acontecido a outros colegas.

Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?

Deixe-me mencionar os momentos marcantes em vez de um momento
só. O primeiro foi trabalhar na África do Sul, país que me deu uma oportunidade
e onde, ainda hoje, tenho as portas abertas. O segundo foi ter exercido nos
Estados Unidos da América e ter trabalhado com os grandes nomes de
referência mundial da cirurgia plástica, David Knize, Harold Kleinert e
John Tebbets, na Duck University, a capital mundial da Medicina.

O terceiro momento mais marcante foi o reconhecimento dos meus pares cirurgiões plásticos brasileiros nos
congressos e o quarto foi ter tido a oportunidade operar em Israel, o país do meu
coração.

Quais os hábitos de vida que considera mais saudáveis?

Sobretudo, as refeições regradas. No meu caso, durmo pouco, mas
acho que se deve dormir bem. E o exercício físico, é claro!

O que faz nos tempos livres?

Fundamentalmente, leio jornais e tudo o que esteja ligado a Medicina.

O que seria se não fosse cirurgião plástico?

Jornalista. Porque foi uma área que também experimentei e, já no
meu quarto ano de Medicina, fui chamado para trabalhar em televisão
mas não aceitei porque ser cirurgião era aquilo que queria. Sou fundador
de dois jornais na África do Sul e, neste momento, estou a escrever
dois livros.

Qual o avanço científico por que mais anseia?

A cura do cancro, sem dúvida! Não tenho percentagens mas é das doenças
menos controláveis.

Percurso profissional

Licenciado em medicina e cirurgia pela Faculdade de Medicina de Lisboa, Fernando Exposto especializou-se em cirurgia plástica reconstrutiva e em cirurgia da mão, no Baragwanath Hospital em Joannesburg. Realizou uma
pós-graduação no Hospital de Louisville, nos Estados Unidos da América.

Texto: Ana Mendonça da Fonseca

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