E viveram felizes para sempre...

Porque será que nos sentimos atraídos por alguém em especial e escolhemos essa pessoa para ser nosso(a) parceiro(a)?

Era uma vez... E viveram felizes para sempre...

Quem já não ouviu estas premissas na sua vida? Quantos de nós não crescem com a idealização de que seremos salvos por um príncipe encantado, num cavalo branco, ou por uma princesa de cabelos longos e sedosos? Quantos de nós não conhecemos, de facto, esses príncipes e princesas e depois os transformamos em ogres ou bruxas más, por não sabermos lidar com as características reais que eles nos apresentam?

Mas nem sempre essas premissas dos contos de fadas referidas inicialmente, surgem associadas uma à outra... Porquê?

Com tantas pessoas que se vão conhecendo ao longo da vida, porque será que nos sentimos atraídos por alguém em especial e escolhemos essa pessoa para ser nosso(a) parceiro(a)?

As primeiras relações

O Homem é, por natureza, um ser social, sendo inerente à sua existência o desejo de companhia, a sensação de pertença. O bebé nasce e é com uma figura cuidadora (mãe, pai ou alguém substituto) que estabelece a primeira relação (não desvalorizando, claro, as experiências intra-uterinas, que hoje estão já amplamente estudadas) e, consequentemente, as primeiras referências relacionais.

Muitos psicoterapeutas têm defendido que, a partir destas primeiras relações, se desenvolvem as bases dos comportamentos humanos. Na medida em que há uma satisfação das necessidades de afeto do bebé e, posteriormente, da criança, este vai-se desenvolvendo enquanto ser confiante, amado e, como tal, disponível para trocas afetivas. Ao se sentir amada, a criança acredita que é merecedora de amor e, como tal, é esse tipo de relacionamentos que procurará ao longo do seu desenvolvimento.

Escolhas conscientes e inconscientes

Quando conhecemos alguém e nos encantamos, há uma série de motivações que desencadeiam essa atração, umas mais conscientes, outras mais inconscientes. Entre os motivos conscientes, mais fáceis de identificar por cada indivíduo, encontram-se a beleza física, o humor, a espontaneidade, a intelectualidade, a seriedade, o rigor, a estabilidade financeira, o estatuto social, enfim, um sem número de argumentos. Em função dos “atributos” individuais, é escolhido o príncipe ou princesa.

Então, inicia-se uma fase de enamoramento, em que o outro é “tudo aquilo com que sonhei”, “fomos feitos um para o outro” e “vamos ser felizes para sempre”. Mas, além destes, há outros motivos, por vezes menos conscientes, assim como determinadas dinâmicas relacionais interiorizadas, que têm um papel significativo não apenas na escolha, mas no desenrolar das relações.

Entramos, então, no campo dos motivos inconscientes que levam as pessoas a escolherem-se mutuamente e a ocupar determinada função na relação, entre os quais: a procura de alguém que seja pouco exigente, omisso e tolerante; de alguém a quem possa dominar e a quem possa dirigir os meus conflitos pessoais; de alguém desligado e independente; de alguém que me oriente e a quem possa seguir; de alguém que desempenhe um papel materno/ paterno e me confirme consecutivamente o seu amor; de alguém que confirme o meu valor; de alguém que seja igual a mim; de alguém que seja diferente de mim, mas com quem tenha coisas em comum e com quem possa partilhar os meus interesses; de alguém que preencha o vazio por medo de estar sozinho(a); enfim, alguém a quem me fundo, a quem domino, que me completa ou com quem mantenho afinidades? E muitas vezes são estes motivos, inconscientes, que não permitem o desenrolar dos contos de fadas que nos propomos iniciar.

Mas, se escolhemos o nosso príncipe ou princesa com base em determinadas características, como podemos depois criticá-lo(a) por as cumprir tão criteriosamente? Se o príncipe foi escolhido pela sua calma e passividade, não pode ser acusado de não ter constantes iniciativas! Se a princesa foi escolhida pela sua frieza relacional, não pode ser “castigada” quando se apresenta mais distante e prática!

Principais fatores que conduzem à rutura das relações

- Deceções decorrentes do cultivo de mitos de felicidade
- Obediência a mandatos familiares, contrários à conservação de vínculos
- Pouca tolerância a frustrações vs Incapacidade de lutar por objetivos relacionais
- Imaturidade emocional, egocentrismo, dificuldade em compartilhar a vida
- Alcoolismo, uso de drogas
- Agressividade desmedida, física ou moral
- Patologias narcísicas
- Alianças disfuncionais (Sensação de aprisionamento, real ou fantasiado; Incapacidade de assumir responsabilidades vinculares; Alianças demasiado estreitas, emaranhadas, sufocando a individualidade; Alianças demasiado ténues, dando pouco espaço para o “nós”)

- Poucos objetivos em comum
- Pouco investimento na aliança, pouco zelo pelo amor mútuo
- Dificuldade em lidar com triângulos, acentuada pelo nascimento de filhos
- Relações extraconjugais
- Existência de novo amor, nova paixão
- Descoberta de segredos que o casal, ou uma das partes, sente como intoleráveis
- Objetivos inconscientes do relacionamento já cumpridos

Base: Anton (1998). A escolha do cônjuge. Porto Alegre: Artmed

Algumas dicas para reflexão

- Escolha 5 palavras que descrevam o seu relacionamento
- Quais gostaria que se mantivessem? O que pode fazer para que isso aconteça?
- Quais gostaria que mudassem? O que pode fazer para que isso aconteça?
- Não se centre no que queria que ele(a) mudasse. Centre-se em si. O que poderá fazer para o bem-estar do(a) seu(sua) parceiro(a)?
- Converse com o(a) seu(sua) parceiro(a) acerca das suas reflexões.

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