A professora do Tiago achava que ele não devia andar na escola, porque tinha um “problema”. Mas os outros meninos, aqueles que falavam com a boca, conseguiam ouvir as palavras que este menino não dizia. E até brincavam, seguros de um mundo feliz, a um canto da sala. E no canto não se canta. Só se fala.

Um dia sentei-me num banquinho, triste com as coisas dos adultos, e tentei ouvir essas palavras que o menino que não sabia falar dizia, mas que eu não ouvia. O menino brincava com os berlindes no chão. Não eram berlindes: eram carrinhos, eram naves espaciais, eram foguetões que iam à Lua e voltavam, eram carrinhos que voavam e chocavam uns com os outros. Eu só via berlindes e mais triste fiquei.

De repente, o menino levantou-se, abriu a minha mala, tirou o pacote de lenços de papel que lá estava, e ele sabia que lá estava, e retirou apenas um lenço. Sem qualquer outro sinal, entregou-me o lenço nas mãos, e continuou a brincar. Afinal o menino falava. Mas falava com o coração. E com os olhos. E com as mãos.

O autismo é uma perturbação do neuro desenvolvimento que afeta a forma como as pessoas compreendem o mundo que as rodeia e como aprendem com as suas experiências

Esta é uma história real de um menino real, num mundo imaginário só dele. Podemos quase pensar que uma criança com perturbação do espectro do autismo está fechada num mundo só seu e do qual apenas conhecemos um bocadinho.

Conheça algumas brincadeiras de meninos como o "Tiago"

A série “The Good Doctor”, que vai estrear em Portugal no próximo dia 25 de outubro no AXN, às 23h10, retrata a vida de Shaun Murphy, um jovem médico-cirurgião pediátrico, que sofre de uma forma ligeira de Perturbação do Espectro do Autismo e da chamada Síndrome de Savant, ou Síndrome do Sábio. Personagens autistas têm sido protagonistas de vários filmes/séries ao longo do tempo.

O que é o autismo?

O autismo é uma perturbação do neuro desenvolvimento que afeta a forma como as pessoas compreendem o mundo que as rodeia e como aprendem com as suas experiências. Foi descrito pela primeira vez por Leo Kanner há mais de 70 anos, quase em simultâneo com Hans Asperger.

Porém o quadro de diagnóstico do Autismo tem vindo a sofrer inúmeras alterações desde a sua descrição inicial. A última revisão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Perturbações Mentais (DSM) faz desaparecer a Síndrome de Asperger e assume explicitamente apenas uma forma desta perturbação - a “Perturbação do Espectro do Autismo” (PEA) - num contínuo com vários níveis de severidade, definidos segundo o grau de suporte de que a pessoa necessita no dia-a-dia.

Atualmente, os critérios de diagnóstico internacionalmente aceites pressupõem a presença de dificuldades persistentes na comunicação e interação social, e um padrão restrito e repetitivo de comportamento, interesses ou atividades.

Uma criança com PEA ligeira pode ter um nível intelectual dentro ou até acima da média, boa comunicação verbal e não-verbal, e capacidade para ser autónoma e independente, tendo apenas alguma dificuldade em iniciar a interação social e mostrando respostas peculiares ou invulgares quando abordado pelos outros (não respeita as regras de cortesia, familiaridade e estatuto, podendo ser demasiado familiar com estranhos, por exemplo, ou demasiado formal com os amigos).

Pelo contrário, uma criança com PEA severa apresenta comprometimento grave na comunicação e funcionamento social, podendo mesmo apresentar uma ausência completa de oralidade ou intencionalidade comunicativa, e rituais, interesses e comportamentos tão marcados que interferem nas atividades quotidianas.

Exemplos disso são o interesse restrito por desenhar animais imaginários ou a obsessão por determinado tipo de alimentos (alimentos brancos, por exemplo) ou ainda a persistência quase inabalável em temas que lhe despertam interesse em detrimento de tudo o resto (dinossauros, bandeiras, etc.). Nos casos mais graves, estas crianças necessitam de um apoio muito substancial no dia-a-dia até para a realização das atividades de vida diária mais elementares, como despir e vestir um casaco, ir à casa de banho, fazer recados simples, assoar-se sozinho, entre outras.

Como percebem o mundo?

Apesar desta amplitude e variabilidade de sintomas, podemos encontrar também um padrão específico de fragilidades e pontos fortes associados a este tipo de perturbação. Nomeadamente, a capacidade para memorizar e recordar factos e informações concretas, a capacidade para seguir regras e procedimentos concretos e a capacidade para fazer uso de diferentes aprendizagens e informações visuais.

Crianças com PEA conseguem, por exemplo, memorizar extensas quantidades de informação (mapas, datas, números, bandeiras, etc.), mas não conseguem dar uma utilidade prática a essa informação ou generalizá-la para outros contextos.

Por outro lado, dificuldades em organizar e administrar o tempo, em trabalhar em grupo e/ou na presença da comunicação social são fragilidades comuns.

Não raras vezes as pessoas com PEA são demasiado literais, tendo dificuldades na compreensão do significado implícito de expressões idiomáticas. Imagine-se o que seria, literalmente ter "macacos no sótão", ou "agarrar com unhas e dentes" ou até "abrir o coração". Se a isto adicionarmos sérias dificuldades no que diz respeito às competências emocionais (conhecimento, regulação e expressão das emoções em situações sociais), conseguimos ter uma ideia do quão angustiante pode ser esta vivência por parte de uma criança com PEA.

É também comum encontrar oscilações na expressão de capacidades na mesma criança, como por exemplo na integração e interpretação da informação, podendo esta ter momentos em que consegue ter melhor desempenho, e outros momentos em que mostra claras dificuldades na capacidade para transferir e aplicar os conhecimentos adquiridos, parecendo quase que não fez essas aquisições. Um dos maiores desafios para estas crianças ao nível académico prende-se precisamente com a capacidade para generalizar aprendizagens para contextos e situações diferentes ou novas.

Síndrome de Savant, uma variante rara

Embora seja muito rara, a Síndrome de Savant reconhecida na personagem principal da série The Good Doctor, ou, as capacidades “savant” referem-se a habilidades especiais (ou geniais) e podem ocorrer, não apenas no caso das PEA, mas noutras perturbações do desenvolvimento. Mais comuns são os casos de crianças com PEA que apresentam uma amplitude significativa em capacidades específicas, como a habilidade artística, a habilidade no cálculo matemático ou as habilidades visuo-espaciais.

A PEA é uma das perturbações mais estudadas e, ao mesmo tempo, uma das que mais dúvidas suscita. A enorme diversidade de sintomas, a extensa amplitude de manifestações, a dificuldade em avaliar e perceber o que realmente compreende e sente uma criança com PEA,são desafios imporantes que se colocam a técnicos, famílias e investigadores.