A Leucemia Mielóide Crónica, ou LMC como habitualmente é chamada, é um tipo raro do cancro do sangue que surge em cerca de 1 a 2 pessoas em cada 100.000 todos os anos. Isto quer dizer que em Portugal são diagnosticados cerca de 100 novos doentes com LMC anualmente.
A LMC não é uma doença hereditária nem tem tendência para surgir nos familiares de doentes. 
Na maioria dos casos não se sabe porque surge mas sabemos que a doença se desenvolve no seguimento duma alteração genética nas células do sangue que faz com que estas de dividam mais do que as células normais. 
Surge com maior frequência nos homens do que nas mulheres e, apesar de poder surgir em qualquer idade adulta (é muito rara nas crianças), a maioria dos doentes têm entre 50 e 65 anos. A maior parte dos doentes com LMC descobrem a doença porque se detetam glóbulos brancos aumentados numa análise de sangue de rotina. Por vezes o baço pode estar aumentado, dando dores abdominais, enfartamento ou saciedade precoce, ou então os doentes queixam-se de cansaço, perda de apetite e emagrecimento.
Alteração genética
A alteração genética que caracteriza a LMC consta duma troca de material genético entre dois cromossomas que gera um cromossoma novo denominado Filadélfia por ter sido descrito pela primeira vez em Filadélfia em 1960. Este novo cromossoma produz uma proteína chamada BCR-ABL, que funciona como o motor para estimular a divisão das células na LMC. 
Esta descoberta foi muito importante, não só para compreendermos melhor a doença mas também para podermos descobrir tratamentos mais eficazes. 
Durante o século XX o único tratamento curativo para a LMC era o transplante de medula. No entanto, por vários motivos, só cerca de 15% dos doentes podiam fazer um transplante e quase um terço destes não conseguia sobreviver à cirrugia. Os outros doentes eram tratados com diversos agentes que reduziam os glóbulos brancos mas raramente sobreviviam mais do que 5 anos porque a doença se transformava em leucemia aguda.

Mortalidade baixa
A evolução das terapêuticas revolucionou o tratamento dos doentes com LMC de tal forma que hoje em dia menos de 3% dos doentes com LMC morrem devido à doença e prevemos que quase todos tenham uma esperança de vida normal. 
No entanto, há vários fatores que asseguram o sucesso deste tratamento. O primeiro é que os doentes tomem a medicação. É reconhecidamente difícil tomar medicação todos os dias e vários estudos já mostraram que alguns doentes com LMC não tomam a medicação ou porque se esquecem ou porque escolhem não o fazer para evitar desconfortos que a medicação possa provocar. 
Estes mesmos estudos mostraram que os doentes que têm melhores resultados são aqueles que apresentam uma taxa de esquecimento inferior a 1%. 
Existem outros doentes nos quais, apesar de tomarem a medicação sem falhas, a doença não desaparece como desejado. Isto pode ser por variações de absorção da medicação ou porque as células ficam resistentes. 
O mais importante nestes doentes é detetar a falta de resposta cedo para que se possa passar a uma medicação semelhante mas mais potente que reduza rapidamente o número de células leucémicas no corpo. Por isso é muito importante fazer análises regularmente para medir as células leucémicas e garantir os melhores resultados.
A LMC é um caso de grande sucesso no qual o estudo da doença levou ao desenvolvimento dum tratamento simples e muito eficaz. Esperamos que no futuro isto até permita levar à cura da LMC em certos doentes.
Por António Medina Almeida, Médico Hematologista no Instituto Português de Oncologia de Lisboa e Professor Universitáro na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa