A Joana publicou um livro alertando para uma mudança de atitude face à diabetes.  O primeiro capítulo de “Comer para controlar a diabetes” é um verdadeiro alerta para os riscos associadas a esta doença. Chama-lhe “epidemia silenciosa”. Quer explicar?

Este é um problema de saúde pública. Trata-se, de facto, de uma epidemia porque está a aumentar à escala global e muito rapidamente. É a própria Organização Mundial de Saúde que assim define a diabetes, como uma epidemia. Aquela organização diz mesmo que será a doença mais mortal no próximo quarto de século. Actualmente, os países que têm maior prevalência na diabetes são os dois estados mais populosos do globo, a Índia e a China. Na Índia ter diabetes é quase sinónimo de estatuto pois indica abundância. Ou seja, já não é só um problema dos países ocidentais. Em Portugal temos perto de um milhão de pessoas com diabetes, mais de 13% da população. E, dentro deste número, perto de 90% dos indivíduos apresenta diabetes tipo 2, associada ao sedentarismo, alimentação, tabagismo, urbanismo e envelhecimento. Uma diabetes que é possível prevenir.

Dá-nos um exemplo marcante no que toca ao número de diabéticos à escala mundial. Quer partilhar connosco?

Sim, são números de uma campanha muito interessante da Federação Internacional da Diabetes [International Diabetes Federation]. Ou seja, se juntássemos todas as pessoas com diabetes, teríamos o terceiro país mais populoso do mundo, a seguir à Índia e à China.

Porque razão dizemos tratar-se de um problema silencioso?

Repare, a diabetes tipo 1, que é menos prevalecente e que ainda não tem uma causa definida, é difícil prevenir ou curar. Já a diabetes tipo 2 tem um desenvolvimento muito gradual. Na diabetes tipo 1, causada por uma reação autoimune, temos sintomas. Na diabete tipo 2, quase metade das pessoas em Portugal que a tem desconhece o facto. Como os níveis de açúcar no sangue aumentam lentamente o organismo adapta-se e não há alerta. Dado prevalecer em indivíduos mais velhos, associamos os sintomas à própria idade, começamos a ir mais vezes à casa de banho, bebemos mais água, perdemos peso, apresentamos a visão turva. Muitas vezes o diagnóstico da diabetes tipo 2 surge após complicações associadas à doença. Por exemplo, a função renal alterada, uma ferida no pé difícil de sarar.

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créditos: Lifestyle

Ou seja, evitar a diabetes tipo 2 passa por mudar o estilo de vida?

Sim, e aqui a alimentação é determinante. Hoje em dia temos acesso fácil a alimentos extremamente industrializados, muito processados, refinados, com ingredientes que têm impacto no nosso organismo. Neste contexto temos a diabetes,a hipertensão, a hipercolesterolemia, a chamada síndrome metabólica que é quase como uma bomba relógio. Ou seja, a pessoa começa a ter peso a mais, valores de glicémia e tensão arterial alterados, colesterol e triglicéridos elevados. O risco de acidentes cardiovasculares aumenta.

Na diabete tipo 2, quase metade das pessoas em Portugal que a tem desconhece o facto. Como os níveis de açúcar no sangue aumentam lentamente o organismo adapta-se e não há alerta.

No fundo pagamos um preço pelo facilitismo e conforto da vida moderna. Será que é caso para dizer que não podemos alterar o contexto, apenas minimizar os efeitos?

Espero que não. Se não se fizer nada, há dois possíveis caminhos, a diabetes continuar a aumentar exponencialmente, ou vai continuar a aumentar ao mesmo nível. Contudo, e em sentido contrário, alguns estudos apontam para outro cenário: havendo intervenção, a longo prazo conseguimos, dentro de 10, 15 ou 20 anos, estabilizar e reduzir um pouco o número de diabéticos. Repare, estamos a falar de estabilizar nas perspetivas mais otimistas. Temos urgentemente de mudar atitudes, pois chegaremos a um ponto insustentável.

Diabetes: “Temos urgentemente de mudar atitudes, pois chegaremos a um ponto insustentável”
Joana Ramos Oliveira, autora do livro "Comer para Controlar a Diabetes". Dietista, entre outras atividades, integra presentemente a equipa do projeto “Não à Diabetes!” Um Desafio Gulbenkian, que pretende evitar 50 mil novos casos de diabetes nos próximos cinco anos.

Em seu entender há hoje em dia informação a mais, mas pouco esclarecimento?

Julgo que sim. Tanto quanto me é dado perceber no trabalho junto da comunidade é que a confusão é muita quando se fala da diabetes. Circula muita informação e por vezes oposta. No terreno, já me deparei com pessoas que têm a diabetes diagnosticada e não sabem que têm a doença. Ora, como pode o individuo controlar uma doença que desconhece? Por vezes até sabe que tem a diabetes, mas confunde-a, por exemplo, com o colesterol elevado.

E no que respeita a um público sempre importante, as crianças, é feita prevenção nas escolas, por exemplo?

A Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP), onde sou formadora, tem projetos de sensibilização nas escolas. Isto para que não haja por parte da comunidade escolar o estigma da criança que tem diabetes. Com estas acções acabamos por esclarecer e sensibilizar todas as crianças. Trata-se de um público fundamental.  Veja-se o que se passou com o alerta para a  reciclagem. As crianças assimilaram a importância de reciclar e tornaram-na prática em casa. Julgo que se pode fazer isso com a alimentação saudável. Alertar para os benefícios associados a um peso saudável será mais interessante do que falar de uma doença num futuro vago.

Na APDP já sentiram pressão por parte da indústria alimentar para ver o vosso nome associado ao produto A ou B?

Sim, mas declinámos sempre. A APDP só se associou a um produto, o “Pão São Diabetes“, do Museu do Pão, em Seia. Toda a elaboração do pão foi revista ao milímetro com a equipa da Associação. É preciso ter cuidado ao ligar o nome a um produto alimentar que pode não corresponder aos nossos critérios. Os convites foram sempre para produtos especiais para diabéticos e a Associação defende que a alimentação saudável, para a pessoa com diabetes, não exige estes produtos.

Afirma no prefácio ao seu livro que não se trata de uma obra com o rótulo “para diabéticos”. Podemos entender que se trata de um manual para evitar a diabetes?

Se pegarmos no livro pelo título, “Comer para Controlar a Diabetes”, este defende uma alimentação saudável e equilibrada. Neste sentido é uma obra para todos os públicos, das crianças aos idosos. Por outro lado, procuro desmistificar a ideia que os diabéticos têm de ter uma alimentação especial, restritiva, sem sabor. Temos um milhão de pessoas com diabetes e todas elas são diferentes, uma criança com diabetes tem necessidades diferentes de um idoso. As necessidades energéticas para o organismo funcionar bem não dependem da diabetes, mas sim da atividade física, altura, peso, história familiar.

No seu livro não deixa de incluir o açúcar. Ou seja,  não vale a pena escondê-lo.

[Risos] Não adianta proibir. Nas formações, procuro capacitar as pessoas para a necessidade de serem responsáveis pelo controlo da sua doença. Abro aqui um parêntesis para lhe contar uma história. Na Amadora participei numa ação com reformados. No início da conversa, uma senhora disse que tinha diabetes e acenou sempre afirmativamente com a cabeça. Quando saí da sala de formação e fui à cantina encontrei essa mesma senhora a comer uma fatia dourada. O que procuro demonstrar é que são escolhas de cada um, mesmo quando têm informação.

Entre outras atividades, integra presentemente a equipa do projeto “Não à Diabetes!” Um Desafio Gulbenkian, que pretende evitar 50 mil novos casos de diabetes nos próximos cinco anos.
Salada de vefetais assados com nozes e queijo fresco batido e ervas. Uma das receitas do livro de Joana Oliveira.

Pode dar-nos alguns exemplos de alimentos que excluímos da lista de “perigosos” e contudo são nocivos?

Os cereais de pequeno-almoço, alguns light, muitas vezes pecam por excesso de açúcar e gordura. Outro caso é a bebida de soja. A pessoa deixa de beber leite e substitui-o pelo “leite” de soja. Quando chega à consulta os valores estão alterados e, no imediato, não se percebe a razão. Isto porque é uma bebida muito adocicada. Outro caso marcante é o da bebida de amêndoa. A maior parte das bebidas de amêndoa no mercado têm, deste  fruto, 2% e incluem outros cereais, como o arroz e a aveia. Em vez de serem ricos em gordura e proteína como a amêndoa têm muitos hidratos de carbono. Quando se trata de produtos alimentares temos de olhar menos para a embalagem e mais para o rótulo.

Posso ainda dar-lhe outro exemplo, os sumos detox que, aliás, incluo no meu livro. Em muitos casos, a pessoa acaba por juntar mais fruta do que o desejável devido ao sabor dos vegetais. Isto porque não estamos habituados ao sabor da couve ou da alface cruas. Em consequência, no copo de sumo, temos duas, três peças de fruta, a quantidade para um dia.

A maior parte das bebidas de amêndoa no mercado têm, deste  fruto, 2% e incluem outros cereais, como o arroz e a aveia. Em vez de serem ricos em gordura e proteína como a amêndoa têm muitos hidratos de carbono.

Não acredita em alimentos proibidos. Mas afirma que existem alimentos a evitar. Qual é a diferença?

Sim. Não posso proibir ninguém, mas, claro, há alimentos que proibiria, como os “fofinhos” que se instalaram na alimentação das crianças, assim como muitos cereais para os mais pequenos. É claro que pontualmente podemos ingeri-los e até combiná-los com outros alimentos mais saudáveis.

Ao folhearmos o seu livro é clara a mensagem que deixa ao doente com diabetes. Não tem de ser escravo de uma dieta insípida. Pode dar-nos alguns exemplos de uma dieta variada?

Tento com o livro ser o mais prática possível, sem tentar impor uma dieta. Cada pessoa é um caso e tem de entender o que lhe faz bem ou mal. As receitas que apresento baseiam-se em alimentos-chave, batata-doce, pão, quinoa, castanhas, leguminosas, cenouras, bananas, açúcar. Depois, dentro deste quadro de alimentos, o leitor vai encontrar sopas, feijoadas, açorda, risotos, tortilhas, quiches, tartes, pudins, batidos, sumos, bolos, entre muitas outras propostas.

Entre outras atividades, integra presentemente a equipa do projeto “Não à Diabetes!” Um Desafio Gulbenkian, que pretende evitar 50 mil novos casos de diabetes nos próximos cinco anos.
Puré de grão com ovos escalfados e grelos salteados, receita do livro "Comer para Controlar a Diabetes"

Um livro não é dirigido e ninguém em específico. Cada situação é única. De que forma podemos usar esta obra como um manual de uso particular?

Dou-lhe um exemplo prático. Encontra uma receita com milho, mas não aprecia. Pode trocar o milho por outra fonte de hidratos de carbono. Terá é de substituir por outro alimento semelhante. Não pode substituir por atum, uma proteína e gordura.

O livro acaba por estar muito focado na gestão da quantidade de hidratos de carbono, aquilo que afeta os níveis de açúcar no sangue. À partida a pessoa deve saber quantas porções de hidratos de carbono tem de comer ao longo do dia. Cada receita tem a composição nutricional e a quantidade de hidratos de carbono expressa em porções [12 g por porção]. Imagine que em relação a um determinado alimento a pessoa precisa de três porções [36 g] e a receita tem duas [24 g]. Só terá de ajustar as porções. O livro inclui no último capítulo uma tabela de equivalências. Mas, atenção, a alimentação não tem de ser algo muito matemático. Temos de perceber os sinais. Se andamos sem energia ou a ganhar peso não andamos a comer de forma equilibrada.

Preparar e produzir este livro foi um processo moroso?

Foi, acima de tudo, um exercício de disciplina e contenção na escrita. Tive de selecionar a informação que devo passar. Foi importante dar os capítulos a ler a diferentes pessoas. Todas as receitas foram testadas. Acredito genuinamente no poder dos  alimentos e na cozinha.

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