Aos 25 anos recebi a notícia que dali em diante teria que lidar com uma doença crónica e degenerativa. Os primeiros anos foram de autêntica negação, onde simplesmente continuei a viver como se nada fosse, refugiando-me no imediato, desde saídas à noite desenfreadas a alimentação instantânea a todas as refeições. Este meu ciclo negativo teve o seu auge aos 28 anos, com o peso de 116 Kg, em que a simples tarefa de subir um lance de escadas era uma tarefa hercúlea devido à fadiga extrema.

O ano de 2013 fica para a história como o ano em que me “cansei de me cansar” e exigi mais de mim. Consultei o meu médico e tentámos perceber se a perda de peso e o abraçar de uma vida mais ativa/saudável era sinónimo de uma redução da fadiga. Nesta fase a minha motivação diária foram os exemplos positivos, pessoas com EM que não se resignaram ao diagnóstico e lutam por aquilo que acreditam.

Um desses exemplos, aquele que mais me tocou e lançou o mote para esta aventura, foi o caso de uma dinamarquesa que tinha corrido 366 maratonas em 365 dias e para mim fez todo o sentido: “se ela fez tantas não serei capaz de correr uma?” Foi com esta pergunta em mente que pesquisei sobre a maratona e todas as suas enormes especificidades e escolhi a cidade do Porto como o local onde iria correr a minha primeira. Esta conquista tem um significado muito importante na minha aceitação da EM, foi um ano que mudei de hábitos alimentares, comecei a fazer exercício físico, mas, acima de tudo, comecei a preocupar-me com o meu bem-estar. O passar a meta, após 42,195 KM duros, foi o fechar de um capítulo na minha vida, o de aceitação.

A partir deste ponto voltar atrás era impensável e este novo “estilo de vida” veio para ficar. Após a primeira maratona conquistada completei mais três e abracei o triatlo.

O mais engraçado é que não sabia nadar e tinha fobia à água. Encarei este facto como mais um obstáculo que teria de ultrapassar, mais uma luta por aquilo que quero e acredito. Com a utopia de um dia conseguir terminar um Ironman (triatlo de longa distância que consiste em nadar 3800m, pedalar 180km e correr 42km) aprendi a nadar e abracei este “projeto” com todas as minhas forças. Desde ataques de pânico na água a muitas lagrimas pelo caminho, em 2017 cortei a meta do Ironman Barcelona. Algo que eu sempre achei estar ao alcance de apenas uma elite de “super-humanos”. Se a maratona serviu para aceitar, o Ironman serviu para me mostrar que sou capaz de lutar por aquilo que acredito, pelos meus sonhos...

Mais importante que todas as medalhas é o caminho que percorri, não saltei etapas, não saltei a terapêutica, ouvi os conselhos médicos, do meu treinador e da minha nutricionista, segui-os como se de um guião se tratassem, subi um degrau de cada vez.

São já 5 anos de mudança, 5 anos de respeito pela EM, 5 anos que aprendi a viver lado a lado com a EM, 5 anos que exigi mais de mim... 5 anos que desafio a EM diariamente.

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