“Espelho meu, espelho meu, há alguma abóbora mais bela do que eu?”. Há décadas que a indústria alimentar vive obcecada com um objetivo: produzir a abóbora, maçã, pera, cenoura, nabo perfeitos. Uma meta que podemos estender a centenas de outros produtos agrícolas. “Feio” ou “imperfeito” não entra na categoria do comercialmente aceitável. São termos que não casam com a imagem limpa, pura e saudável que o consumidor quer no cabaz, no frigorífico e na fruteira.

Uma questão de imagem que todos os anos arrasta para as lixeiras um terço dos alimentos produzidos no mundo. Atenção, não são alimentos estragados, apenas não atingiram o calibre ou a forma aceite e determinada pelo mercado. Entre os alimentos mais desmerecidos estão as frutas e os vegetais.

Mesmo quando o produto chega aos lares uma parte considerável acaba no lixo. Estudos suportam que perto de 40% dos alimentos nos Estados Unidos não é consumido e acaba a apodrecer nas lixeiras. Detritos que são responsáveis por uma parte substancial das emissões de metano na América do Norte.

Contas feitas, o que acaba nos contentores de lixo orgânico do planeta é quantidade suficiente para alimentar perto de 800 milhões de pessoas em todo o mundo. Isto de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO).

Atenta a esta questão uma equipa de especialistas em alimentação e voluntários norte americanos lançou em janeiro de 2016 a campanha educacional “Ugly Produce is Beautiful” (“Produto Feio é Bonito”). Uma iniciativa liderada por Sarah Phillips que, desde há 30 anos, luta pela sustentabilidade alimentar. Sarah foi uma das vencedoras do prémio de fotografia promovido pela National Geographic, “Make Art, Not Food Waste” (“Faça Arte, Não Lixo Alimentar”).

Sarah cresceu nos anos de 1950 nos arredores de Chicago no seio de uma família que tirava da horta os seus próprios alimentos. A fotógrafa viu nascer e crescer à sua volta a sociedade dos produtos calibrados, alimentos processados, o surgimento da indústria alimentar e o declínio da produção de proximidade.

Agora lidera uma campanha com um objetivo bem determinado: mudar mentalidades. Um trabalho que está a ser feito a montante, junto da indústria alimentar e a jusante, próximo dos consumidores. No primeiro caso para que os produtores, distribuidores e agências alimentares alterem o paradigma no que respeita à escolha dos alimentos próprios para consumo. No caso dos consumidores, alertando para as vantagens (económicas, ambientais, sociais) na aquisição de produtos agrícolas “deformados”.

Pelo contrário, enriquecem a mesa e podem ser adquiridos com custo inferior aos congéneres bonitinhos. Há produção “feia” a ser colhida e doada a bancos de alimentos, a entrar nos mercados com descontos e a servir a dieta de muitos agricultores.

Razão para dizer que nascer torto não é defeito é feitio. Há, por exemplo, fatores ambientais que podem determinar a deformação de um fruto. Uma cenoura em crescimento que encontre uma pedra tenderá a bifurcar, formando diferentes pontas. Uma maçã sujeita a temperaturas muito elevadas pode ficar com a pele manchada. Mas, feitas as contas, o valor nutricional do alimento mantém-se inalterado.

Uma das formas de suporte à campanha “Ugly Produce is Beautiful” é a aquisição de reproduções das fotografias de Sarah Phillips. A especialista em alimentação tem mais de 47 mil seguidores no Instagram onde publica regularmente as suas fotos.

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