Um artigo publicado no Food Quality and Preference, e disponível para leitura online na sua versão integral, fornece um novo ponto de vista sobre a forma como os antecedentes culturais e a experiência individual influenciam a aceitação ou rejeição de insetos comestíveis.

Os resultados do estudo mostram que, para aceitar os insetos como alimento, é necessário ultrapassar a perceção negativa de quem não está familiarizado com a ideia.

Nesta pesquisa qualitativa intercultural, os investigadores da Universidade de Wageningen, na Holanda, e da Univesidade Kasetsart, na Tailândia, analisaram a perceção, expectativas e preferências dos participantes em relação a vários produtos alimentares baseados em insetos.

Para comparar a forma de como a exposição iria afetar os participantes, estes foram recrutados na Holanda, onde os insetos não fazem parte da dieta alimentar, e na Tailândia, onde eles são consumidos com frequência. Vinte e nove participantes da Holanda e 25 da Tailândia (54 no total), foram divididos em oito grupos: quatro de consumidores (dois holandeses e dois tailandeses) e quatro de não consumidores (dois holandeses e dois tailandeses).

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As entrevistas desenvolveram-se em quatro fases: discussão sobre a experiência e conhecimento individual; discussão das razões para comer ou não comer insetos, avaliação da imagem de espécies de insetos e produtos; e degustação opcional de produtos à base de insetos.

Os investigadores reportaram claras diferenças na motivação, dependente do país de origem dos participantes. Os consumidores tailandeses mencionaram razões baseadas nos seus antecedentes, como prévias experiências positivas ou o consumo regular de insetos pelas suas famílias. As principais razões alegadas pelos holandeses foram a curiosidade, vantagens nutricionais e preocupação com a sustentabilidade, por exemplo o alto nível de proteínas ou uma alternativa à carne.

Os cientistas também observaram a distinção entre os participantes que se classificaram como não consumidores de insetos. Enquanto os holandeses simplesmente nunca tinham experimentado comer insetos, os tailandeses tinham consumido anteriormente, mas decidido não comer mais por razões pessoais, como alergias ou porque não gostarem do sabor. Os tailandeses foram capazes de identificar uma variedade mais vasta de espécies comestíveis do que os holandeses, o que se deve à sua exposição cultural, mais do que à experiência pessoal.

Está tudo na apresentação

Os métodos de apresentação e aparência do produto final exercem uma forte influência nos gostos e vontade de experimentar dos participantes. Em geral, reduzir a visibilidade dos insetos, revestindo-os ou utilizando-os na base dos produtos, aumentava a vontade de provar dos não consumidores, tanto holandeses como tailandeses.

Seria capaz de comer insetos? Pode ser uma questão de apresentação
créditos: @Seasoned

Quando a apresentação do produto provocava associações visuais negativas, os participantes tinham menos vontade de experimentar. Por exemplo, os participantes comentavam que os muffins com larvas pareciam podres, reduzindo a pontuação desses produtos.

Durante as provas, os participantes tailandeses demonstravam menos expressões de repugnância e geralmente baseavam as suas decisões nos insetos que tinham apreciado no passado. Os participantes holandeses, por seu lado, viram o estudo como uma rara e interessante oportunidade de provar novos alimentos, enquanto simultaneamente mostravam sinais de hesitação e repugnância antes de os provar. Além disso, os não consumidores holandeses mostraram-se mais dispostos a provar um produto depois de ouvir a opinião dos participantes que já tinham provado.

Os autores concluíram que, para aumentar as hipóteses de consumo, o desenvolvimento de produtos alimentares à base de insetos deve ter em conta tanto as expetativas culturais como individuais, especialmente entre quem não tem experiência prévia no assunto.

A população europeia poderá estar interessada nas vantagens para a saúde e para o ambiente proporcionadas pelo consumo de insetos, mas isso talvez não seja suficiente para ultrapassar as barreiras culturais e individuais. As propriedades visuais e sensitivas deverão ser tidas em conta na aceitação de insetos como nova fonte alimentar.

Adaptado de EUFIC

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