Longe, à distância de mais de meio país, é no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, que me preparo para viajar à boleia das palavras, até Trás-os-Montes, ao distrito de Vila Real e à companhia de um dos nomes maiores das letras portuguesas do século XX, Prémio Camões em 1989.

Adolfo Correia da Rocha, é personalidade que ocupou muitos meses de investigação à historiadora Dina Ferreira de Sousa. Aproveito a presença desta autora na capital a propósito de um colóquio onde é oradora, para intrometer uma hora de prosa nas páginas do livro que acaba de publicar com a chancela da Colares Editora. Enquanto aguardo a chegada da minha interlocutora, olho em torno para o perfil majestático deste CCB a completar 25 anos.

Tudo é pedra nesta casa de cultura. E por tanta ser, a imaginação agarra esta rocha como mote, e acomoda-se à imagem do imenso mar granítico de um “Reino Maravilhoso”, vertido das palavras do homem que, agora, nesta Lisboa do século XXI, espreita a uma janela de um tempo pretérito. Na foto de Luís Carregã que faz capa do livro que tenho entre mãos, Adolfo Correia da Rocha assome à janela de sua casa, olha-nos firme, sem sorrir, mas também não propriamente sisudo. Veste fato e traz gravata intrometida em pullover.

“Sabores de Mesa na Obra de Miguel Torga”, o escritor que nos deu a "Criação do Mundo"
“Sabores de Mesa na Obra de Miguel Torga”, o escritor que nos deu a "Criação do Mundo"
Ver artigo

Adolfo Correia da Rocha é Miguel Torga, pseudónimo escolhido pelo próprio em homenagem a dois Miguéis maiores da cultura Ibérica, Cervantes e Unamuno e à planta bravia e forte que nasce nas montanhas, pátria de Torga.

“Sabores da Mesa na Obra de Miguel Torga”, são perto de 160 páginas de tomo de edição cuidada, assinado por Dina Ferreira de Sousa. Dina Ferreira de Sousa chega, entretanto. Comigo está uma autora, já distinguida em concurso internacional, o Gourmand World Cookbook, na categoria Best Culinary History Book, com o seu livro “Arte Doceira de Coimbra – Conventos e Tradições – Receituários (Séculos XVII-XX)”.

Miguel Torga e a sentida viagem alimentar ao homem no seu “Reino Maravilhoso”
Dina Ferreira de Sousa, Historiadora e Investigadora do DIAITA - Património Alimentar da Lusofonia, também autora deste "Sabores da Mesa na Obra de Miguel Torga".

Desta feita Dina de Sousa, retoma  a cultura alimentar e aborda-a através de um Torga pouco conhecido, num itinerário gastronómico que vai da infância transmontana do autor, nascido em 1907, ao Brasil onde vive, ainda na adolescência, e ao homem já adulto, médico que, depois das jornadas no consultório em Coimbra, se recolhia a sua casa, onde recebia com um Porto divino.

“Esta não é uma abordagem literária ao Torga, mas uma viagem aos patrimónios alimentares”, enquadra a autora coimbrã, ligada à Casa- Museu Miguel Torga.

Um livro que é, a dois tempos, a abordagem factual da autora, historiadora de formação académica e com um mestrado em Política Cultural Autárquica, mas também uma viagem sentimental de redescoberta, através dos comeres e da comensalidade, de um escritor que Dina Ferreira de Sousa respeita e admira. Não esquece, já a trabalhar na Casa-Museu, “a emoção de ter tocado na caneta e na boina do escritor. Torga tem um texto muito interessante onde faz o seu autorretrato: alto, nariz longo, perfil de contrabandista espanhol, por causa da boina basca que usava”, conta-me.

Miguel Torga e a sentida viagem alimentar ao homem no seu “Reino Maravilhoso”
"Viajar com Miguel Torga é, em primeiro lugar, aceitar o seu convite para uma viagem solitária pelos caminhos de Portugal, onde predomina a meditação mas também tem lugar o sonho, o êxtase e a imaginação", lemos na obra assinada por Dina Ferreira de Sousa. créditos: @Luís Carregã

Como também não esquece, como me confidencia, um primeiro contacto com o autor de “Contos da Montanha”. “Conheci Miguel Torga em Coimbra. Era eu uma jovem que ia acompanhada de meu pai. Vi Torga, como figura desconcertante, na forma de andar. Pensamos no Eça, no Garrett, e associamos a sua imagem a homens aprumados. Ali estava, passeando, um homem de aspeto simples, que me suscitou a curiosidade. No dia seguinte fui à biblioteca e pedi um livro de Torga. Deram-me a ler “Bichos” (1940). Anos mais tarde, em 1994, através de um amigo do escritor, o senhor João Fernandes, Delegado do INATEL de Coimbra, voltei a contactar com a figura, já então doente. Estávamos em finais de dezembro e Torga gostava que lhe cantassem as Janeiras. O meu colega convidou-me para ir a casa do autor. Ali estava o mesmo homem, que nos abre a porta, afável, embora já quebrado.

É, assim, com este Torga, que damos mote à conversa. Partamos até ao alvor do século XX.

Antes de abordarmos a matéria que dá mote ao seu mais recente livro, gostaria que, sucintamente, nos apresentasse Adolfo Correia da Rocha, o mesmo é dizer Miguel Torga.

É uma pena que atualmente Torga seja um escritor esquecido, nos próprios programas de ensino. Neste caso por não ser um autor obrigatório nos planos curriculares. E, com isto, perdemos o convívio com um autor que gostava do que era português, do que era autêntico. É um cultor da palavra. Todas elas são pesadas e ponderadas.

Acresce, que muitas vezes a abordagem à obra de Torga faz-se pela poesia, que é importantíssima, mas descura-se o contista e o diarista. Temos de Miguel Torga a imagem de um homem nem sempre muito aberto e simpático. Era, contudo, um homem que apreciava que as pessoas chegassem até ele através do que escrevia. Dizia, a este propósito algo como, “quem quiser chegar a mim leia-me”. Neste particular é interessante ver a relação que mantinha com os jornalistas. Quando lhe deixavam algumas perguntas, dizia, “isso era escusado, significa que não conhece a minha obra”.

Lendo “A Criação do Mundo” (1937-1939) e o “Diário” (1941-1994), conhecemos o homem e o escritor. Torga nasce em Trás-os-Montes, numa terra pequena, no seio de uma família humilde, faz o seu percurso como escritor o que denota um grande talento e força.

Miguel Torga e a sentida viagem alimentar ao homem no seu “Reino Maravilhoso”
"Desde a infância, selada de aromas e paladares, que a paisagem de Torga se centrou num Reino Maravilhoso em que as técnicas milenares do pão e do vinho saciavam as necessidades alimentares de quem trabalha num quotidiano áspero". "Sabores da Mesa na Obra de Miguel Torga". créditos: @Luís Carregã

Um percurso que inclui uma viagem e permanência no Brasil…

Sim. Miguel Torga vai para o Brasil, em 1920, aos 13 anos, numa altura em que as comunicações eram difíceis e numa perspetiva de melhoria de vida, pois o ensino não estava ao alcance de todos. Ainda menino, com dez anos, passa um período no Porto, em casa de pessoas que supostamente lhe proporcionariam conforto. Mais tarde, já com a escola primária cumprida, ingressa no seminário em Lamego. Digamos que a sua relação com a religião talvez ali se começasse a delinear [para Torga só a humanidade é digna de louvor] e, dai, a sua negação em continuar no seminário. Os pais demonstravam inquietação.

É uma pena que atualmente Torga seja um escritor esquecido, nos próprios programas de ensino. Neste caso por não ser um autor obrigatório nos planos curriculares.

É então que Torga vai para a casa do tio em Minas Gerais, no Brasil. É interessante verificar que, mais tarde, quando escreve “A Criação do Mundo”, vamos encontrar a referência alimentar à chegada ao Brasil. Para os tios, leva na bagagem os salpicões e seis garrafas de vinhos de Roncão. Torga descreve-nos o desanimo que sente face à indiferença dos tios às ofertas que leva. Há, no entanto, uma grande empatia com o tio, não com a tia. Para esta ele é visto como um intruso, concorrente à herança familiar dos filhos de um primeiro casamento da tia.

Já então temos um Torga que faz justiça à bagagem do português na época. Quer explicar-nos?

Um português embaixador da sua cultura, dos seus produtos, mas também um sofredor e suspirante pela sua terra. Nos seus diários, Torga escreve a certa altura que o francês poderia levar a França numa mala, com uma edição de Montaigne ou Molière. Já o português para sentir o berço próximo, mesmo à distância, teria de carregar um cabrito, um cobertor de papa, as próprias lajes da lareira.

Nos seus diários, Torga escreve a certa altura que o francês poderia levar a França numa mala, com uma edição de Montaigne ou Molière. Já o português para sentir o berço próximo, mesmo à distância, teria de carregar um cabrito, um cobertor de papa, as próprias lajes da lareira

Temos, aqui, o aspeto rural, telúrico de Torga, que deu voz ao povo transmontano. Ele próprio um homem rude, ou não?

Aquilo que constato de pessoas que contactaram de perto com Miguel Torga é a de um homem que suscitava nos outros sentimentos extremados. Ou o adoramos como homem e através do que escreveu, ou o detestamos. Talvez, aqui, por não conter o que tinha para dizer. Nunca silenciou o que sentia em relação, por exemplo, à política. Se lermos o que escreveu na década de 1980 em relação à política, revemo-nos nos dias de hoje. O nosso atual Presidente da República, o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, quando tomou posse citou Torga. É um autor com uma enorme atualidade; é um visionário. Veja-se esta passagem do seu Diário: “A política é para eles uma promoção e para mim uma aflição (…) ouvir um político é ouvir um papagaio insincero”.

Porque escolheu, em específico, a dimensão alimentar do escritor para este seu “Sabores da Mesa na Obra de Miguel Torga”?

A minha formação académica é em História. Completei, posteriormente, um Mestrado em Política Cultural Autárquica. Desenvolvi como temática o levantamento de produtos alimentares certificados. Havia já trabalhado na certificação do Arroz Carolino do Baixo Mondego e do maravilhoso Pastel de Tentúgal.

Ou seja, tudo isto concorre para que acabe por estar ligada à história da alimentação. Estou, ainda, ligada a um projeto da Universidade de Coimbra, sobre o estudo dos Patrimónios Alimentares, em particular, o Património Alimentar da Lusofonia.

Entretanto, vou trabalhar para a Casa-Museu Miguel Torga, desde a sua abertura, em 2007. Logo ai, um dos objetivos propostos, foi desmistificar a imagem rude de Torga, de um homem avesso ao convívio. Repare, ele gostava de receber, das tertúlias domésticas. Isto fez com que me começasse a interessar pela questão alimentar no contexto da obra do escritor transmontano. Não vamos, nos seus escritos, encontrar as descrições e a exuberância das mesas de Eça de Queirós, de Ramalho Ortigão ou de Júlio Diniz.

Mas faz muitas referências a produtos e alimentos portugueses. Na obra torguiana o alimento surge com a sua função primeira, saciar. O que não invalida que não encontremos um Torga atento aos dias festivos e descrições deliciosas.

Em tempos eu havia participado num projeto denominado “Rota dos Escritores” que incluía os jantares “À Mesa Com…”. Nesse âmbito fizemos uma ementa tendo por mote Miguel Torga. Achei-a um pouco pobre e questionei-me se não se faria uma mesa com mais substância. Tudo junto, encontra o meu interesse por esta temática. É claro que leva o seu tempo. Ler Torga é moroso.

Miguel Torga e a sentida viagem alimentar ao homem no seu “Reino Maravilhoso”
Encontramos o Torga na sua dimensão alimentar nas referências às celebrações agrícolas nas festas e romarias, no Natal, entre diferentes grupos sociais que se alimentam no quotidiano. créditos: @Luís Carregã

Quando começa a fazer a investigação abre-se um mundo?

Sim. Começo a perceber que não só nos 16 volumes dos diários, como nos contos, como em “A Criação do Mundo”, vamos encontrando sempre alusões a questões ligadas à alimentação. É, naturalmente, informação dispersa que precisou de ser arrumada e que abarca muitos contextos, como o da sociabilidade, os encontros com grandes nomes como o escritor Jorge Amado, o poeta e político Manuel Alegre. Lemos, por exemplo, em “A Criação do Mundo” e no “Diário” todo o ritual que envolve a matança do porco, ato que impressiona o escritor. E ali estão os enchidos, o sarrabulho, os torremos, os rojões, todo o fumeiro, as especiarias.

Na obra torguiana o alimento surge com a sua função primeira, saciar. O que não invalida que não encontremos um Torga atento aos dias festivos e descrições deliciosas.

Concorda que a aproximação torguiana aos comeres nos dá um levantamento etnográfico?

No fundo a dimensão alimentar em Torga é também informação de contexto social e cultural. A comida faz, na obra deste escritor, parte da construção de um imaginário literário, dos personagens, o que inequivocamente empurra a alimentação para as próprias histórias.

Por exemplo, é curioso ver referências ao arroz doce. Há, ainda, um episódio delicioso em “A Criação do Mundo”. Torga vive, então, numa terra pequena, ocupando o piso térreo de uma casa, sob a do Prior. E alguém traz um cabrito. Seria a carne para o padre ou para o médico? Questionam-se a irmã e a empregada. E o cabrito, um dos pratos preferidos de Torga, acaba por ser para a mesa do clérigo. Desmistifica-se a ideia de que os médicos são nas terras pequenas as figuras primeiras.

Miguel Torga e a sentida viagem alimentar ao homem no seu “Reino Maravilhoso”
Em Torga a refeição assume, em determinados momentos, tal importância que se aproxima de um ato sagrado. @Luís Carregã

Há, logo a abrir o seu livro, uma sugestiva frase de Torga: “O civilizado alimenta-se, o selvagem enfarta-se”. Escolheu-a por sintetizar esta dimensão alimentar do escritor?

É uma frase de uma beleza imensa. Uma frase que escolhi para fazer a abertura desta viagem pelos sabores de Torga. Isto porque nos traz a visão torguiana sobre o ato de comer, é Cultura. Temos, aqui, a elevação do aspeto alimentar.

Como médico, Torga nunca ganhou fortunas. É curioso verificar os processos da PIDE para ver que, inclusivamente, não cobrava por muitas consultas.

O que não invalida estarmos perante um homem contido. É assim?

Sim, Torga é um homem contido. Compreendemos essa contenção conhecendo a sua casa. Muito simples, mas com peças de valor do ponto de vista museológico. Há quem diga que era avesso a gastar dinheiro, até mesmo nos livros, preferido a leitura na biblioteca. O que há de especial nisto? Não é para esse fim que servem as bibliotecas?

Como médico, Torga nunca ganhou fortunas. É curioso verificar os processos da PIDE para ver que, inclusivamente, não cobrava por muitas consultas. Era editor dos seus próprios livros e acompanhava-os desde a criação literária até à distribuição.

Para Torga a cozinha não é só o ato de comer, tem também uma dimensão imaterial, quase de comunhão?

Tem uma sacralidade. O tempo de celebrar, de partilhar o pão, de provar o vinho. Torga tinha logo à entrada da sua casa uma garrafa de vinho fino, do Porto. Ficava particularmente aborrecido quando oferecia esse “sol engarrafado” a alguém que não o saboreava, bebendo-o de um trago. O vinho é dito por Torga como o néctar sagrado.

Miguel Torga e a sentida viagem alimentar ao homem no seu “Reino Maravilhoso”
Torga completa os estudos de medicina em Coimbra.

Há um outro episódio interessante, a certa altura Miguel Torga vai a Paris e…

…Fica muito desiludido. Encontra falta de sabor na comida e nos vinhos. Provavelmente preferia estar a comer um arroz de bacalhau, ou arroz de carqueja [risos].

Não podemos esquecer a sua ligação ao mundo rural. Por vezes há também a fome. Ele nunca se desenraíza desse aspeto que viveu e sentiu, o da escassez. Em “A Criação do Mundo” refere que o avô já doente não quis as migas, comendo-as ele. O que se comia era a batata, a castanha, as sopas, o pão.

Não podemos esquecer a sua ligação ao mundo rural. Por vezes há também a fome. Ele nunca se desenraíza desse aspeto que viveu e sentiu, o da escassez.

Este seu “Sabores da Mesa na Obra de Miguel Torga” fica completo com um bastante completo périplo por receitas transmontanas. Como fez este levantamento?

Nos meus trabalhos anteriores, vinculei-me a fontes manuscritas de carácter académico. O historiador tem de lidar com as fontes, não inventa. Isso proporcionou-me que, no que respeita à doçaria de Coimbra, se tivessem aberto algumas portas, com pessoas que detinham receituário de família. Não é que uma senhora transmontana, a certa altura, diz-me que tem um livro de receitas de família! Muitas das receitas que estavam nesse levantamento, vamos encontrá-las no presente título. Isto porque são comeres que refletem aquilo que Torga refere. Temos o caldo verde, o caldo de castanhas, o bacalhau no borralho, as trutas fritas, a galinha tostada com arroz de forno, a perdiz de escabeche, o pernil de porco albardado, o pão-de-ló, as rabanadas de Natal. Naturalmente também não faltam alguns dos pratos predilectos do escritor, como a posta mirandesa e o arroz de carqueja.

Newsletter

Receba o melhor do SAPO Lifestyle diariamente no seu email.

Notificações

Os temas mais inspiradores e atuais estão nas notificações do SAPO Lifestyle.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.