Tem o mundo dos vinhos destas coisas. Uma das castas mais plantadas à escala global, a Grenache, raramente figura nos contrarrótulos dos vinhos que levamos à mesa. Não obstante está lá, embora desconheçamos que já a provámos. Porquê esta timidez em se mostrar? Porque, quis a natureza dotar esta casta de uma resistência épica a condições difíceis de superar. Virtudes que, no caso da Grenache também a condenam, muitas vezes, a brilhar no anonimato, cooperando para produzir vinhos de diferentes estilos.

Antes de explicar o comportamento esquizofrénico da Grenache, sociável e simultaneamente arredio, tracemos-lhe a origem. Na realidade, a designação mais usual para esta casta não lhe sublinha fielmente a origem. Grenache não é uma casta francesa, antes nascida na Espanha mediterrânica, e chamando pelo nome de Garnacha. Um berço, contudo, contestado. A proveniência primeira da casta não gera consenso. Há quem lhe situe a origem na Sardenha, ilha italiana no Mediterrâneo, onde a casta é conhecida como Cannonau.

Em Itália vai o leitor encontrar a Grenache a responder por vários nomes: Alicante, Cannonao, Francese, Garnaccia e Tocai Rosso. Ainda em França, se ler Roussillon no Var, saiba que está perante a casta aqui tratada. Neste caso em alusão ao nome da região onde foi introduzida em território Gaulês.

Portugal também tem a sua Grenache. No Alentejo chamamos-lhe Abundante, embora raramente a vejamos nomeada nos contrarrótulos dos nossos vinhos.

Aqui chegados temos mote para explicar o porquê da ausência pública da Grenache. Esta é uma casta que resiste às dificuldades de longos períodos de seca, adaptando-se a climas quentes. Um vigor que empurra a produção desta casta antiga para latitudes como as da Austrália, África do Sul, Espanha, Sardenha, Sul de França, Córsega. É fácil de cultivar e conta com um ciclo de vida anual longo, desabrochando cedo e amadurecendo a uva tardiamente.

Grenache, uma casta rebelde que anda escondida nos rótulos de grandes vinhos
créditos: bruno preschesmisky

E, aqui, começam os problemas. A Grenache não é só resistente, toma o gosto à rebeldia. Logo, exige podas frequentes para lhe controlar a vontade de crescer e, desta forma, reduzir o rendimento em vinha - pode ser diminuto, não mais do que 6 hl por hectare. Descuidar na vinha pode constituir, mais tarde, o desastre na adega, por impossibilidade de ajustar o vinho.

Isolando-a, a Grenache produz vinhos com grande potencial alcoólico, pois com grande concentração de açúcar no bago – dado ser das últimas uvas a serem colhidas - e baixa acidez. Resulta, grosso modo, em vinhos apimentados, com aromas de frutas negras e taninos macios.

Na prática e sintetizando, são vinhos muito sensíveis à oxidação e com rápido envelhecimento, o que não invalida, como veremos abaixo a produção de grandes néctares assentes apenas na casta Grenache.

Château Rayas
Château Rayas, vinho tinto, 100% grenache.

Daí, a opção de utilizar esta casta em loteamento. Ou seja, misturada com outras castas, o que equivale a dizer, salvaguardando-lhe as qualidades e prestando-as a uma grande amplitude de perfis de vinhos, dos rosés, passando pelos tintos, até mesmo vinhos de sobremesa, mais ou menos jovens. Em rigor, dependendo do perfil e caráter do vinho traçado pelo produtor.

A Austrália é, inclusivamente, pátria de um lote famoso, o designado “GSM”, acrónimo que é assinatura para um trio de castas, Grenache, Syrah e Mourvèdre.

grenache
Vinho Álvaro Palácios, Dofí, 98% Grenache.

Entre os grandes Grenaches que podemos encontrar mundialmente, citem-se o Château Rayas, o Paul Jaboulet Aîné, o Mas Martinet, Álvaro Palácios, Rotllan Torra, Rosemount, Yalumba.

Em Portugal, a Cartuxa inclui a Grenache, a par das castas Touriga Nacional e Syrah no seu alentejano vinho Rosé E.A.

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