Sal, não há tempo ou lugar que não atribua a este alimento um papel de fundo na sobrevivência física e espiritual das sociedades. Ele é elemento de tempero, mas também fonte milenar de conservação dos alimentos, de trocas comerciais, assim como senhor de um papel simbólico em variadas culturas.

O Japão reserva ao sal protagonismo na sua herança cultural. O alimento tem uma forte presença nos rituais funerários e tido como símbolo de purificação e memória.  Muitos japoneses, pela manhã, lançam um punhado de sal frente à porta de casa como forma de afastar maus espíritos.

E é a este sal que o artista plástico Motoi Yamamoto, nascido em 1966 numa localidade nas cercanias de Hiroxima, recorre para criar instalações efémeras, com tanto de harmonioso como de perturbante.

A obra de Motoi, feita de labirintos, montanhas, espirais, assenta no princípio de homenagem que os nipónicos reservam ao sal. Neste caso, o artista a trabalhar a partir de Tóquio, capital japonesa, recorda em cada novo projeto a irmã mais nova, falecida.

Cada nova instalação de Yamamoto, seja esta edificada num castelo francês medieval, numa tradicional casa japonesa ou num museu, é um processo doloroso. O criador trabalha no chão, em jornadas de mais de 14 horas diárias, por vezes até duas semanas. Como matéria-prima, o sal. Dezenas de quilos de sal de diferente grão. As ferramentas, não mais do que uma garrafa que vai enchendo meticulosamente de sal e o labor das mãos.

Muito importante no trabalho de Motoi o facto de operar em locais fechados para evitar contratempos como o vento ou a chuva, inimigos naturais do sal.

Um trabalho épico que, no entanto, é efémero. Finda a obra e o período de exposição, o público é convidado a intervir e a desconstruir também com as mãos as laboriosas peças. Público que também está presente na execução das instalações, embora com o respeito por uma regra de ouro: silêncio absoluto.

Motoi Yamamoto constrói, ainda, as simbólicas escadas de sal nipónicas, neste caso designada pelo artista de Utsusemi. Com esta peça, o criador procura representar os efeitos devastadores dos sismos no Japão.

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