De todas estas características, as manchas e alterações de coloração da pele constituem sem dúvida um dos motivos que mais angustiam os doentes.

São várias as situações que levam ao aparecimento de manchas escuras: irritações da pele (eczemas), a inflamação da acne, cicatrizes, coceira crónica localizada, alterações hormonais (gravidez, doenças da tiroide ou outras glândulas, melasma), tumores, medicamentos, doenças fotosensibilizantes (tornam a pele mais vulnerável aos raios ultravioletas do sol), produtos fotosensibilizantes tópicos (perfumes, sumo de lima), exposição solar excessiva e tratamentos agressivos (LASERs e Peelings médios).

Como a capacidade de produzir pigmento (melanina) nas células da pele não é igual para todas as pessoas, as que têm tez mais escura (fototipo 3 a 5) têm mais tendência a reagir com sobreprodução de pigmento sempre que a pele é agredida e estão mais sugeitas a ter manchas escuras do que as pessoas de pele muito clara de origem.

O que fazer quando as situações se corrigem mas as manchas ficam? É aqui que se deve recorrer a uma avaliação médica precisa e estabelecer um protocolo terapêutico adaptado a cada condição causadora das manchas e em função de cada tipo de pele (fototipo). São vários os tratamentos empregues, desde peelings suaves, mesoterapia, luz intensa pulsada, LASER, crioterapia e microneedling mas, independentemente da sua maior ou menor eficácia, todos eles fazem parte de um protocolo terapêutico que inclui obrigatoriamente cremes protetores solares e cremes despigmentantes.

Os químicos dos cremes despigmentantes

Os cremes despigmentantes médicos têm como objetivo principal inibir a produção de pigmento (melanina) pelas células que produzem o pigmento (os melanocitos). Para isso têm na sua constituição substâncias mais ou menos potentes capazes de inibir enzimas importantes na cadeia de fabrico da melanina. Contêm vários químicos como a hidroquinona, o ácido azelaico, o ácido kójico, a arbutina e os retinoides. O mais potente e mais conhecido há mais de 50 anos é a hidroquinona. A sua eficácia é diretamente proporcional à sua concentração no creme e concentrações altas devem ser unicamente prescritas por dermatologista e usadas por curtos períodos de tempo.

Últimamente tem-se falado dos riscos do seu uso indiscriminado, visto em laboratório se ter constatado que a sua ingestão poderia provocar lesão hepática (fígado) e poderia ter potencial carcinogénico (promover cancro). No entanto, a aplicação direta na pele faz com que a substância seja primariamente  processada pelos vasos e eliminada pelos rins e até à data não foi demonstratada nenhuma associação entre a hidroquinona tópica e lesões destes orgãos. Portanto o seu potencial carcinogénico,  enquanto tratamento tópico, é puramente especulativo.

No entanto, o seu uso por longos períodos de tempo e muitas vezes em grandes superfícies de pele com o intuito de “branquear” as peles escuras e fazer desaparecer manchas resistentes pode levar a alterações paradoxais da cor da pele, com o aparecimento de outras manchas mais escuras e ainda mais resistentes (um fenómeno chamado ocronose) ou pelo contrário despigmentar a pele irregularmente (despigmentação em confeti). Quaisquer das situações não é agradável.

Todas estas substâncias despigmentantes, quando mal usadas e em pessoas de pele sensível, podem provocar irritações e alergias.  Umas estão contraindicadas em grávidas (retinoides e derivados) ou não são aconselhadas (caso da hidroquinona). Outras podem tornar a pele mais sensível ao sol e requerem cuidados redobrados se aplicadas em áreas de pele fina como por exemplo a pele da região malar e pálpebras.

Sempre que se fala de manchas e pele é necessário relembrar que o principal potenciador da pigmentação na pele é a radiação solar. Não é possível despigmentar manchas sem proteger a pele de forma eficaz e persistente da ação dos raios solares, quer pelo uso diário de cremes protetores solares com índices 50+, quer através do uso de roupa protetora. A proteção solar é indispensável.

Resumindo, os cremes despigmentantes são produtos importantes no combate às manchas, seguros se bem utilizados, e com eficácia demonstrada há mais de 50 anos. Devem fazer parte dos protocolos terapêuticos dermatológicos de combate às manchas, em conjugação com os filtros solares. Consulte o seu especialista em dermatologia estética.

Por Leonor Girão, Médica Dermatologista na Clínica Dermatologia do Areeiro, Lisboa