Contam os manuais de sexualidade que, por norma, é nesta sequência que se desenrola o «ciclo da resposta sexual humana». Mas, na prática, o sexo e o prazer, o seu ponto de partida e de chegada, o seu fio condutor, podem não cumpri-la à risca e conseguem ser tão simples quanto intrincados. Jorge Cardoso, psicólogo clínico e um dos oradores na reflexão sobre «Prazer feminino versus prazer masculino» que teve lugar no evento Inspire Saúde,  no Centro Cultural de Belém,  em maio de 2015, exemplifica.

«Embora, durante muito tempo, o desejo tenha marcado presença neste modelo de três fases, a prática mostra algo diferente. Muitas pessoas envolvem-se sexualmente sem grande ou nenhuma vontade e, com a tomada de iniciativa pelo parceiro, essa vontade e a excitação acabam por aparecer», refere.  Tantas vezes tido como sinónimo de orgasmo e pode não o ser, o prazer continua a ser tão competente em aproximar homens e mulheres como em separá-los. Mas porquê?

Conheça a sua anatomia

Há alguns anos, Ana Carvalheira, psicoterapeuta, perguntou a quatro mil portuguesas como se apercebiam que estavam excitadas. «As respostas foram incríveis. Menos de 20 por cento disseram que sentiam excitação por ter a vagina húmida ou por ter sensações genitais físicas. As mulheres estão desligadas do corpo. Somos cada vez mais cerebrais, analisamos tudo mas a análise espanta o desejo e  a excitação», defende.

O que sabemos sobre «o ator principal na cena do orgasmo feminino», como o caracteriza, é, talvez, o melhor exemplo desta premissa, como ilustrou a oradora convidada do evento Inspire Saúde. «A genitália feminina é complicada, está tudo escondido mas, ainda que o clitóris seja uma estrutura interna (com sete  a 10 centímetros), pode  ser estimulado por pressão», recorda.

«É, por isso, que algumas posturas são mais interessantes para a mulher do que outras [como a postura em que fica por cima]», afirma ainda a especialista.  O corpo também  muda e, na menopausa,  «é preciso um toque direto. O clitóris tem uma espécie de prepúcio que, nesta fase, tende a colar e, por isso, é fundamental acioná-la com um lubrificante vulvar», acrescenta Maria do Céu Santo, médica ginecologista.

Priorize e inove sem receios

Priorize e inove sem receios. «Para as mulheres, o prazer é algo que se conquista, descobre e persegue. Mas elas estão muito menos treinadas na perseguição do prazer sexual.  Têm de o querer, têm de o reclamar como algo importante na sua vida», defende  Ana Carvalheira. Segundo esta especialista, «as mulheres têm de aprender a descontrolar-se, a entregar-se, em deixar-se ir». Jorge Cardoso acrescenta pistas, válidas para os dois géneros.

«O sexo dá-se bem com duas coisas, novidade e transgressão, sendo que novidade não significa acasalar com um novo parceiro todos os dias e transgressão não é sinónimo de violência ou de crime sexual. Tudo o que tenha um sabor novo é sempre bem-vindo no sexo. Há quem tenha como fantasia concretizável ter sexo em locais semipúblicos (por exemplo, no elevador), o que mistura uma dimensão de privacidade com um risco calculado», refere.

«E é esse risco que também potencia o desejo e o nível de prazer associado», realça ainda. Ao poder da novidade, o terapeuta sexual acrescenta o da repetição. «É algo óbvio e que aprendemos desde sempre, mas tudo o que é gratificante é para repetir», recomenda Jorge Cardoso.

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Diga o que quer e como quer

Não tenha medo de se expressar. «Muitos dos problemas que as mulheres referem em consulta refletem falta de comunicação», conta Jorge Cardoso. Na realidade, revela o especialista, «muitos homens querem saber o que a elas lhes dá mais prazer e, muitas vezes, eles e elas fantasiam a mesma coisa, até estão em sintonia, mas quer um quer outro acha que não vai ter recetividade e não avança», acrescenta.

É comum as mulheres estarem demasiado centradas no seu problema, reforça Maria do Céu Santo. «Em consulta, dizem que a relação não está bem e não sentem desejo e eu pergunto-lhes se o seu marido está feliz, mas muitas não fazem ideia nenhuma do que ele gosta ou pensa», desabafa.

Em vez de «ficarem à espera que o outro adivinhe o que se quer, é urgente que ambos falem sobre erotismo, até porque os estímulos, os cliques são diferentes», acrescenta Ana Carvalheira. O tema deve ser abordado «como outro assunto qualquer», diz a investigadora. E, quando se passa à prática, há que perder a vergonha de dizer como se quer, aconselha Maria do Céu Santo. «Devemos ir orientando. Mais para a esquerda, mais para a direita...», sugere.

Aproxime-se e afaste-se

Numa relação a dois, geralmente, um gosta mais do que o outro. «Um ama e outro deixa-se amar, o que não quer dizer que isso não mude ao longo da vida», descreve Maria do Céu Santo. À medida que a relação avança no tempo, o sexo, ao contrário do que se pensa, até pode melhorar. «Quanto temos um companheiro novo os níveis de excitação estão em alta, mas o orgasmo é menos intenso, devido à insegurança e ao desconhecimento do outro», diz.

«A intensidade do orgasmo é muito melhor numa relação de longa duração», acrescenta ainda. Um casal feliz neste campo é aquele que tem a capacidade de encontrar pontos de convergência mas também de criar espaços individuais. «Não devem andar sempre colados senão o desejo não respira. Tem de haver oxigénio para a labareda», ilustra a médica ginecologista.

Jorge Cardoso concorda. «O mais importante é aprender a viver em liberdade na relação e isso é fundamental pois traz amor, traz desejo, embora seja muito difícil porque há questões ao nível do controlo», afiança. Esse é, de resto, um dos maiores desafios para as relações de hoje, sublinha Ana Carvalheira. «Há que dividir o poder, saber estar numa relação de igual para igual», diz.

Texto: Nazaré Tocha e Carlos Eugénio Augusto com Ana Carvalheira (psicóloga clínica e psicoterapeuta), Jorge Cardoso (psicólogo clínico e terapeuta sexual ) e Maria do Céu Santo (médica ginecologista, coordenadora do Núcleo de Medicina Sexual da Sociedade Portuguesa de Ginecologia)