Foi um homem chamado Leonardo Da Vinci que descreveu pela primeira vez o clitóris em termos anatómicos. Deu-se o nome cirurgia íntima a um procedimento cirúrgico que intervém na zona que começa ao nível das coxas e vai até à região púbica, zonas pouco faladas mas que fazem parte da nossa intimidade. Neste contexto, há que abordar a área estética e a área funcional.

«Há casos de pessoas que são elegantes, não são obesas, mas têm um volume desproporcionado no púbis, que lhes coloca problemas a nível estético e funcional, e pode recorrer-se à lipoaspiração», revela Biscaia Fraga, diretor do Serviço de Cirurgia Plástica e Maxilo-Facial do Hospital Egas Moniz e da Clínica Biscaia Fraga, em Lisboa.

Hoje em dia, não existem razões para ter medo, ficar presa a mitos sem fundamento ou sentir-se desconfortável durante o ato sexual. Procure a solução mais adequada para o seu problema. A sexualidade humana é para ser vivenciada e desfrutada em toda a sua plenitude, nem que para isso tenha que procurar ajuda especializada.

Problemas ao nível genital

Em termos dos genitais propriamente ditos, podemos referir a região vulvar e a vaginal. «A vulva é constituída pelos grandes lábios, pequenos lábios e clitóris. Há pessoas de todas as idades, mesmo na infância e na adolescência, que desenvolvem volumes e dimensões desmesurados, por razões genéticas, constitucionais e outras, pelo que têm pequenos e grandes lábios perfeitamente desproporcionados », refere Biscaia Fraga.

No pós-parto, existe uma justificação mecânica e funcional para as alterações nos pequenos lábios. A medicina não tem uma única explicação. «Existe a teoria que defende que é por tendência hormonal que os lábios se desenvolvem bastante.» mas há ainda quem defenda a causa traumática. «Temos casos de mulheres que percorrem diariamente muitos quilómetros de bicicleta e, por isso, interpretam que o desenvolvimento vulvar se deve aos microtraumatismos repetitivos do selim da bicicleta», salienta o especialista Biscaia Fraga.

Com frequência, a cirurgia do abdómen pode tornar a situação ainda mais exuberante e desconfortável, existindo também o fenómeno contrário. «Em vez do aumento exagerado do volume e da dimensão dos lábios, pode haver uma atrofia e é possível dar uma morfologia perfeita aos mesmos», indica Biscaia Fraga. Por vezes, a prega superior dos pequenos lábios é de tal forma exuberante que tapa completamente o clítoris e compromete a higiene local e o prazer, porque esta é uma das zonas mais erógenas da mulher.

Relativamente à vagina propriamente dita, a situação mais frequente é o grande relaxamento e enfraquecimento muscular. «No período pós gravidez existe uma flacidez da parede abdominal anterior devido ao grande volume (barriga). depois de dois, três partos, existe um grande relaxamento de toda a musculatura vaginal. A vagina é constituída por duas paredes (parede anterior e posterior) mas, ao nível do períneo, existem três camadas musculares que podem ficar completamente flácidas após o parto», foca o cirurgião plástico.

Segundo a experiência clínica de Biscaia Fraga, é frequente algumas mulheres relatarem que antes do parto tinham um relacionamento sexual perfeitamente normal com o companheiro e, depois do parto, sentirem-se diferentes. Muitas delas chegam mesmo a recusar-se a ter relações sexuais com os companheiros depois do nascimento dos filhos.

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Cirurgia ao clítoris

Existem três situações comuns que podem levar a que determinada paciente necessite de uma correção cirúrgica do clitóris. O clitóris está como que «enclausurado» na membrana que o envolve e faz-se uma cirurgia em que se liberta a parte da glande. É feita quando existe aumento dos pequenos lábios.

No caso de o clitóris ser de reduzidas dimensões, promove-se esse aumento através de fatores de crescimento e do próprio tecido adiposo da paciente ou ainda do avanço do mesmo. No caso de ser de tamanho exagerado, procede-se a uma redução para ficar o mais perfeito e harmonioso, em termos de volume e de forma.

Labioplastia ou vulvoplastia

Quando se pretende diminuir os pequenos lábios, pode recorrer-se à técnica standard através de uma incisão em V ou uma incisão elíptica que abrange toda a parte exagerada dos lábios. Em relação ao aumento, quando há caso de atrofia, a cirurgia pode realizar-se com tecido adiposo da própria pessoa. «É retirado tecido adiposo da parede abdominal ou do púbis e aplicado e modelado conforme o efeito que se pretenda quer em termos de forma, quer em termos de volume e colocado dentro do próprio lábio», explica o especialista.

«Resulta muitíssimo bem», assegura mesmo. É uma cirurgia que demora cerca de 40 minutos. Estão contraindicadas, para esta cirurgia, mulheres que tenham algum problema de natureza hemorrágica, que estejam a fazer profilaxia diária com ácido acetilsalicílico ou que tenham alguma infeção ginecológica. A anestesia é loco-regional e a cirurgia é realizada em regime de ambulatório e tem a duração de cerca de 40 minutos.

Quando a cirurgia é realizada para aumentar os lábios, não pode haver pressão mecânica na zona intervencionada, a paciente não pode usar roupas apertadas, fazer equitação nem desportos que pressionem a zona durante dois meses, como por exemplo, andar de bicicleta. «Todas as atividades que envolvam pressão na zona perineal são proibidas», explica Biscaia Fraga. Recomenda-se ainda a abstinência de relações sexuais num período mínimo de três semanas, por causa da cicatrização.

A paciente deve fazer a lavagem daquela zona sempre que vá à casa de banho e não pode usar lingerie apertada ou de material sintético. «Os pontos caem por si pois são realizados com material reabsorvível e maleável, para não haver incómodo», afirma o cirurgião plástico Biscaia Fraga. Até ao sexto mês, a paciente é acompanhada em consulta para vigilância.

Pode haver necessidade de fazer um pequeno aperfeiçoamento dois meses depois mas habitualmente consegue-se o resultado final de uma só vez. O maior incómodo nessa zona é o edema que pode surgir, fundamentalmente, na primeira semana após a cirurgia. «As pacientes não referem dor», indica o especialista. Saliente-se ainda que esta cirurgia tem um custo que se situa entre os 1.800 € e os 3.000 €.

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Vaginoplastia

É uma cirurgia mais demorada, realizada com luz fria interior. «É quase uma cirurgia endoscópica, realizada em toda a vagina (que tem entre 12 a 20 centímetros de comprimento), em regime ambulatório», destaca Biscaia Fraga. Esta cirurgia tem vindo a ser solicitada nos últimos 15 anos, em especial pela mulher jovem, após o primeiro ou segundo parto, «em que é evidente, através do seu relato clínico, que as relações sexuais se alteraram profundamente pela laxidão (relaxamento) dos tecidos».

Esta reconstrução do canal vaginal, ao ser elaborada criteriosamente, «é feita a nível dos músculos relaxados da bacia (músculos do pavimento do períneo) e realizada a modelação da mucosa vaginal, conferindo uma estrutura tridimensional, equilibrada e harmoniosa, com notória repercussão funcional e sexual», indica Biscaia Fraga. Esta cirurgia implica anestesia geral, ou local com sedação, ou ainda epidural, e tem a duração de cerca de hora e meia.

Determinadas atividades que impliquem traumatismo naquela zona são proibidas. «As pacientes devem tomar analgésicos e um relaxante muscular no pós-operatório, bem como promover a desinfeção diária com um desinfetante ginecológico», recomenda o cirurgião plástico. As pacientes devem ter uma vida calma, sem grandes excessos, durante três semanas. Posteriormente, avança Biscaia Fraga, «a principal fisioterapia é a atividade sexual!».

Quanto a riscos «há a hipótese de haver uma hemorragia, ainda que a cirurgia seja realizada com a coagulação meticulosa. Pode ainda correr-se o risco de infeção, razão pela qual as pacientes tomam medicação profilática. Pode haver algum incómodo, mesmo tomando-se analgésicos», indica o especialista. O preço desta cirurgia varia entre os 2.800 e 4.500 €.
O testemunho de uma mulher que já fez uma vaginoplastia

«Decidi recorrer a esta cirurgia porque não me sentia confortável depois de ter os meus seis filhos», revela Fátima de Sousa, 42 anos. Os problemas surgiram logo depois do nascimento do primeiro filho. «Desde o primeiro parto que notei logo diferenças no meu corpo mas não existia tanta informação nem soluções tão acessíveis há 22 anos… Decidi procurar um cirurgião plástico após ter lido um artigo numa revista em que havia informação sobre a vaginoplastia», desabafa.

A decisão de avançar foi tomada em casal. «Tive algum receio da cirurgia mas conversei com o meu marido, que apoiou a minha decisão. Saí da clínica no próprio dia em que a operação foi realizada e tive de estar entre 15 a 21 dias sem ter relações sexuais. Nos primeiros dias depois da cirurgia fiquei a recuperar mas, posteriormente, continuei a levar e ir buscar as crianças à escola, ia às compras e tinha uma vida praticamente normal», assegura.

«A cirurgia correu muito bem porque, ainda hoje, parece que nunca tive nenhum filho. Sinto-me bem comigo. Não sinto qualquer desconforto e o meu marido ficou muito satisfeito com esta decisão porque o nosso relacionamento sexual melhorou consideravelmente. Vale a pena realizar esta cirurgia porque a melhoria, ao nível sexual, é notória. Correu tudo muito bem e acho que as mulheres que, tal como eu me sentia, se sintam desconfortáveis, não devem ter receio nem vergonha e procurar esta solução», afirma ainda.

Texto: Cláudia Pinto com Biscaia Fraga (cirurgião plástico)