Rui Nunes: um craque é bola prá frente

Forçado a desistir do futebol, Rui agarrou outros sonhos.
créditos: Pedro Colaço

Rui Nunes é um campeão. Não desiste da vida. A mãe, Ana Novo Barros, não se cansa de dizer que o filho «nasceu com a bola nos pés». Até outubro de 2016 o Rui respirava futebol, jogava como extremo esquerdo do Abambres Sport Clube, e bem. No campo esquecia-se da vida cá fora e marcava muitos golos.

Todos dedicados à mãe. Fã número um do filho, não havia jogo em que Ana não o acompanhasse e com ele vivesse as vitórias. E nem sequer a rivalidade futebolística – mãe do Benfica, Rui do Porto – os impedia de vibrarem juntos.

As bolas eram as suas maiores aliadas. De tal maneira que Ana chegou a furar umas quantas porque lhe «partia tudo o que tinha em casa.» Persistente, «o Rui passou a amassar papéis, ou a usar caricas e tampas de garrafa para dar toques. Esta paixão nasceu mesmo com ele. O Rui assiste aos jogos de todas as ligas.»

Aos nove anos, Rui foi visto por um olheiro num torneio de rua e começou a jogar. Primeiro no Vila Real e depois no Abambres. Sempre jogou como atleta federado. Os momentos mais marcantes até podiam ter sido as convocatórias para a Selecção, no entanto, na perspectiva da mãe, «todos os jogos foram importantes, porque o Rui entrava em campo e aquele era o mundo dele. Só queria jogar e marcar golos, golos e golos. E viver aquilo com uma grande emoção.» Aprendeu princípios e valores para a vida.

A mãe e os irmãos na bancada eram uma claque de peso. «Davam-me conforto para jogar», diz o ex-jogador. Até outubro de 2016 a vida de Rui era o futebol, até que, através de um exame de rotina, lhe diagnosticaram e uma cardiopatia hipertrófica apical. Ninguém em casa conhecia a doença e ficaram a conhecê-la da pior forma. «É obrigatório os atletas federados fazerem electrocardiogramas anualmente. E daquela vez chamaram-me da clínica onde ele tinha feito o raio X, a dizer que algo não estava bem. Houve até um médico daqui que nos disse que o exame não era dele, porque aquele era um coração envelhecido», conta Ana. Um novo electrocardiograma e um ecocardiograma no Hospital da Luz Arrábida, no Porto, confirmaram o diagnóstico. Já a ressonância magnética nuclear mostrou tratar-se de um problema genético, que não apareceu devido ao excesso de esforço futebolístico.

«Ninguém nos conseguiu explicar porque é que nos exames anteriores não tinha sido detectado nada. Temos todo o historial de exames e não se percebe porque é que no electrocardiograma anterior o coração do Rui era perfeitamente normal», conta Ana, desconsolada. «Temos que lutar sempre até ao fim. Mesmo quando se pôs a hipótese de ele ser operado para pôr um desfibrilhador, era algo por que tínhamos que passar», assume a 'mãe coragem'. A operação foi posta de parte, mas o Rui não voltará a jogar. Pelo menos a nível profissional. No clube ninguém acreditava que o jovem atleta tinha a doença. E diziam nos balneários: «Ele vai voltar a jogar.» O embate maior foi quando veio a confirmação. Lá não cabia a palavra voltar.

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