Rocio

Deambulámos os quatro um pouco por todo o Rocio, cada um de nós entendendo à sua maneira o fenómeno que estavamos pela primeira vez a viver

- Tão estranho. Esperava ver muito mais movimento...- comentou o Ricardo distraidamente. Assim que acabou de o dizer, teve que travar quase a fundo devido à fila de carros à nossa frente. A seguinte dúzia e meia de quilómetros foram passados no pára-arranca, a olhar para as caravanas de carroças, charretes, cavaleiros, caminhantes e carrões decorados, puxados por tratores, cheios de devotos felizes. Vindas de longe e de perto, as colunas das "Hermandades" iam comendo o pó do caminho sem parecer importar-se com isso. Abri as janelas do carro para conseguir ouvir os cantares já cansados e as palmas conjugadas de uma maneira que só eles sabem. Nesse momento eu ainda não entendia nada.

Chamam-lhe a "romeria de las romerias". Passa-se aqui ao meu lado, alguns quilómetros depois de Huelva, no Rocio. Uma terra de terra. Uma terra de pó. Uma terra de intensidades e estranhas manifestações de fé. Mais de cem Hermandades de toda a Espanha, mas maioritariamente andaluzas, rumam ao Rocio por altura do Pentecostes para apresentarem os seus andores à "Paloma Blanca", a Nossa Senhora do Rocio, juntando-se normalmente mais de um milhão de pessoas, por estes dias, no pequeno "pueblo" em que todas as estradas e caminhos são de terra para que os cavalos circulem a gosto.

Agradeci as pesadas gotas de chuva quente que acalmaram o pó à nossa chegada.

- Dá-me a mão, João. Estes cavalos não respeitarão os limites de velocidade dentro das localidades? Que doidos!

Observei a contínua chegada dos "rocieros" trajados a rigor sobre as carripanas puxadas a cavalos, bois ou tratores. Ruidosos, enlevados, todos de copo na mão e gargalhada fácil na voz. Cantares distintos chegavam de todo o lado, sem se deter um segundo, como o pó que nem as gotas de chuva acalmaram por muito tempo.

De quando em vez, uma Hermandade inteira, chegando à sua guarida (cada Hermandade tem um edifício com pátios interiores, estábulos, salões, bares improvisados, alojamento e outras comodidades) fazia recuar a parelha de bois que trazia a carroça com o andor da sua Virgem ou Santo Patrono que, ao recolher a um espaço próprio, coberto mas aberto às ruas, fazia soar uma enorme salva de palmas, coroadas com mais cantares.

As andaluzas, de sevilhanas trajadas, desciam as escadas da  igreja matriz em bandos, caminhando com um passo tão firme e um olhar tão altaneiro que me faziam lembrar o avanço dos grupos de gansters no "Once upon a time in America".

Dentro da igreja, homens de voz muito rouca, dedicavam sentidos cantares à "Blanca Paloma", enquanto eu sentia a energia e pensava que nunca esperara ver uma igreja com tanta terra no chão.

Deambulámos os quatro um pouco por todo o Rocio, cada um de nós entendendo à sua maneira o fenómeno que estavamos pela primeira vez a viver. E no fim, ao regressarmos ao carro depois de visitar uma prima minha com casa alugada na calle Vetalengua, o João quis saber a razão de eu só ter primos estrangeiros com os quais raramente consegue comunicar em português.

Expliquei-lhe as razões mas guardei para nós a resposta mais bela: sou prima de holandesas, espanholas, brasileiras. Sou prima de mundos diferentes, culturas distintas e outros modos de vida. Porque a vida conspira no sentido de proporcionar mais experiências a quem gosta de as partilhar com os outros.

Ana Amorim Dias

artigo do parceiro: Ana Amorim Dias

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