Qual a maneira certa de sair do armário?

As figuras públicas que se assumem como homossexuais costumam preparar muito bem o momento da revelação.

A atriz canadiana Ellen Page, de 26 anos, protagonizou a mais recente assunção pública de homossexualidade. “Estou hoje aqui porque sou gay”, disse ela a meio de um discurso emocionado, durante uma conferência da associação Human Rights Campaign, que decorria em Los Angeles, EUA, na passada sexta-feira.

Opção diferente tinha sido tomada dias antes pelo jogador de futebol americano Michael Sam, de 24 anos. Dois importantes órgãos de comunicação social foram escolhidos para uma entrevista: o canal desportivo norte-americano ESPN e o jornal “The New York Times”. O jovem jogador foi questionado de frente: “É homossexual?” A resposta saiu de imediato: “Sou e tenho orgulho nisso.”

Ellen Page falava ao vivo, com um discurso lido a partir de teleponto e perante uma plateia LGBT (lésbica, gay, bissexual e trangénero). Michael Sam assumiu-se em duas entrevistas gravadas cujas perguntas e respostas aparentam ter sido combinadas.

Há uma diferença importante nas duas situações. Caso a revelação seja mal recebida pela comunicação social ou pelo grande público, Ellen Page sabe que terá o apoio de associações LGBT. Foi no evento de uma associação que ela se assumiu. Michael Sam, não. Preferiu um jornal de referência e um canal desportivo. Parece querer ser visto como um jogador que é homossexual e não como um homossexual que joga futebol americano.

Comum a estes e a muitos outros casos é a preparação. Independentemente do local ou do meio, a maior parte das figuras públicas organiza bem o momento da saída do armário.

Em Portugal, foi esse o caso do antigo diretor do Ballet Gulbenkian e da Companhia Nacional de Bailado. Em 2012, já reformado, Jorge Salavisa escolheu um livro para fazer revelações. “Só os rapazes me atraíam fisicamente. Na inocência dos meus cinco anos, essa descoberta em nada me perturbou”, escreveu na autobiografia “Dançar a Vida”.

Em 2009, ao discursar numa sessão pública em defesa do casamento homossexual, em Lisboa, a locutora e atriz Ana Zanatti disse “fazer parte da minoria”, assumindo assim ser lésbica.

Ainda em 2009, o ator Victor de Sousa revelou-se no livro “3º Sexo”, de Raquel Lito. Em 2008, a bailarina e coreógrafa Olga Roriz disse numa entrevista à “Time Out Lisboa”: “Sou bissexual. Sempre fui e hei-de ser, não tenho problema nenhum em dizê-lo.” No mesmo ano, o apresentador Manuel Luís Goucha, numa entrevista à “Lux”, declarou: “Gosto muito de ser solteiro com o Rui, tenho uma relação de grande amizade e cumplicidade.”

Como não se registam muitas assunções públicas de homossexualidade em Portugal, não existem profissionais de comunicação especializados no tema. Veja-se a forma como o ator Diogo Infante respondeu à notícia do “Correio da Manhã”, em outubro de 2013, segundo a qual se casou com outro homem. Apanhado pelos acontecimentos, Diogo Infante reagiu no Facebook de forma distante: “Sim, casei-me, mas tenho direito à minha privacidade.”

O ator poderia feito um anúncio prévio, esvaziando a notícia antes que ela chegasse a público. Foi o que fez Daniela Mercury em abril de 2013, ao publicar no Instagram fotografias do casamento com Malu Verçosa. Aconselhada por jornalistas amigos, a cantora brasileira preferiu antecipar-se a rumores que já circulavam na imprensa.

Nos EUA não costumam ser apenas os próprios a definir a maneira como se assumem. Os relações públicas têm voto na matéria e um dos mais conhecidos é Howard Bragman, responsável pela empresa Fifteen Minutes, de Los Angeles. Foi ele quem criou a estratégia para o jogador da NBA John Amaechi, o ator Isaiah Washington ou a atriz Meredith Baxter. As duas entrevistas do jogador Michael Sam foram também combinadas com ajuda daquele profissional.

Bruno Horta

artigo do parceiro: Bruno Horta

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