Parte II - Valentim de Barros, o bailarino a quem roubaram a vida

Viveu preso num hospital psiquiátrico entre 1949 e 1986. Todos o disseram louco mas a única “doença” que lhe apontaram foi ser homossexual. Leia a segunda parte de uma história inédita.

Reportagem de Bruno Horta

A paixão pela dança, a fuga para  Espanha e a aventura na Alemanha

DANÇA

Nas primeiras décadas do século XX, Lisboa é ponto de passagem das mais importantes companhias de dança. O Coliseu dos Recreios recebe os Ballets Russes de Diaghilev em 1917. A Companhia de Ana Pavlova apresenta-se em São Carlos em 1919. O teatro Éden acolhe a Troupe de Bailados Russos Eltzoff em 1925. E o célebre bailarino português Francis (Francisco Florêncio da Graça) estreia-se no Salão Tivoli em 1925 e mais tarde, em 1932, é aclamado no Politeama. Tê-lo-á Valentim visto dançar?

“Sempre teve tendências artísticas e principalmente para bailarino”, dirá Ana da Encarnação. Aos 16 anos, torna-se aluno de Ruth Aswin, professora alemã de dança clássica que vivia em Lisboa. As aulas decorrem no Teatro Nacional D. Maria II, mas a família do jovem não está ao corrente.

Ao descobrir, o pai pressiona-o para que largue a dança e outras práticas. Valentim não consente. Magica um lugar de liberdade. Um dia foge para Espanha, alegadamente contratado por uma companhia de dança. Tem 20 anos, corre o ano de 1936.

Em Madrid, dança em 'boîtes' sem nome, depois bate à porta do 'cabaret' Barcelona de Noche e do Teatro-Circo Barcelonês. Faz “danças de fantasia”.

A história, aqui, confunde-se, falhos os registos e incerto o curso dos acontecimentos à distância de oitenta anos. Muito mais tarde, a figura de Valentim vai fascinar dois jovens jornalistas que decidem entrevistá-lo: Luís d'Oliveira Nunes, do “Diário de Lisboa”, em 6 de abril de 1968; e Maria João Avillez, do “Expresso”, em 10 de maio de 1980. É com estes documentos que sabemos hoje mais pormenores da aventura do bailarino.

Estala a Guerra Civil de Espanha. “As embaixadas diziam para a gente largar aquele flagelo, só havia tiroteios, falta de alimentos, grupos de gente a zaragatearem-se por todos os lados”, recordará no “Expresso”. “Foi feito prisioneiro pelos republicanos. Conseguiu-se evadir deste cativeiro duma forma rocambolesca. Aproveitando a sua beleza e jeito para o travesti, refugiou-se num convento e conseguiu fugir, disfarçado de freira, conjuntamente com um grupo de membros da coletividade a que se recolhera”, relata o “Diário de Lisboa”. Génova e Marselha são as cidades que se seguem. Por fim, chega à Alemanha. No ano anterior, Hitler recusara cumprimentar o recordista negro Jesse Owens nos Jogos Olímpicos de Berlim.

Fichas do Teatro de Ópera de Estugarda com dados pessoais de Valentim de Barros

ALEMANHA

Berlim terá sido o primeiro destino alemão de Valentim de Barros. Estamos em 1937. “Fui ao Teatro da Ópera de Berlim e falei com a coreógrafa. Ela viu-me dançar, gostou da minha técnica e da minha expressão.” Ali fica por pouco tempo. “Não tinha a técnica dos outros”, justificará. Os arquivos da instituição foram destruídos em 1943 por bombardeamentos dos Aliados, pelo que a estância de Valentim permanece indocumentada.

Dirá ao “Expresso” que durante essa fase conheceu Marlene Dietrich. “Era uma mulher muito vaporosa, usava lenços transparentes nas mãos, bebia champanhe na Friedrichstrasse, uma rua muito animada, com 'cabarets', luzes, muita alegria.” São memórias feéricas que ele desfia com prazer. Diz também que chegou a dançar em castelos e palácios alemães. “As senhoras estavam todas num luxo. Era tudo aristocratas, gente muito fina e muitas entidades. Às vezes o Hitler também ia. Nos jardins havia sempre um lago e quando nós dançávamos em cima de estrados os bailados que fazíamos espelhavam-se em cima da água. Era tão lindo.”

Em fins de 1937, registará o médico do Miguel Bombarda, passa três meses preso em Berlim (data que não deve corresponder à verdade, pois existem documentos oficiais sobre a presença dele em Estugarda entre agosto de 1937 e maio de 1938).

“Um bailarino agrediu-me e fui fazer queixa dele à polícia, aí retiveram-me durante três meses, dizendo-me que era para averiguações, e roubaram-me todos os meus haveres.” Passa-se isto na prisão de Lichtenberg, na capital alemã. “Davam-me uma comida que nem para porcos servia. Quando de lá saí parecia um cadáver”, afirma Valentim, rematando com uma informação de monta: “Isso alterou muito a minha saúde e os meus nervos.”

Dirá ao médico que depois é enviado para uma outra cadeia, em Hamburgo, e daí deportado para Portugal. O fio dos acontecimentos não deve ter sido este.

Dirige-se, sim, para Estugarda e bate à porta do Teatro da Ópera. Torna-se ali bailarino do corpo de baile (não é solista) e sabe-se com segurança que chega a dançar “As Criaturas de Prometeu”, de Beethoven, e “Petrushka”, de Michel Fokine.

“Os homens do regime enchiam-lhe o camarim de flores e na sua mesa havia sempre champanhe”, detalha o “Diário de Lisboa”. “Data dessa altura a condecoração alemã que Göring, em nome de Hitler, lhe atribuiu.” “No ardor dos seus 18 belos anos” Valentim “haveria de ter” em Göring, fundador da Gestapo e ministro do regime nazi, “um ardoroso amigo”, sustenta aquele jornal.

artigo do parceiro: Bruno Horta

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