O divórcio de Clara Ferreira Alves e as criadas de Lídia Jorge

Doze histórias de ficção contadas por doze mulheres escritoras e jornalistas. “Do Branco ao Negro” é um livro feminista e acaba de ser publicado.

A editora Sextante informa que as cores e o seu significado dão o mote para os doze contos agora reunidos no livro “Do Branco ao Negro”. No entanto, a marca feminina, e provavelmente feminista, é o que mais se destaca em quase todas as histórias. São assinadas por algumas das mais conhecidas escritoras e intelectuais portuguesas da atualidade: Ana Luísa Amaral, Ana Zanatti, Clara Ferreira Alves, Elgga Moreira, Eugénia de Vasconcellos, Lídia Jorge, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Raquel Freire, São José Almeida e Yvette Centeno. As ilustrações, e um dos contos, pertencem a Rita Roquette de Vasconcellos.

Sublinhe-se a presença de Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta, duas das chamadas “Três Marias” (juntamente com Maria Velho da Costa), que em 1972 escreveram “Novas Cartas Portuguesas”, considerado um marco da literatura portuguesa e do movimento feminista em Portugal.

No conto “A Casa de Orange”, de Clara Ferreira Alves, conhecemos a história do divórcio entre uma portuguesa e um holandês que se conheceram na Turquia e acabam a viver no Uzbequistão. A cor laranja motiva a história, uma visão feminina dá-lhe corpo. “Perguntam por que me divorciei. Não consigo responder. Se respondesse, a resposta seria ridícula: divorciei-me porque achava o meu marido ridículo”, começa por escrever. “A voz de Ian parecia-me, nas nossas refeições partilhadas, a voz de um inimigo. Ele planeava, distraído de mim. Um dia, disse-lhe claramente que em aborrecia, que queria ir embora. Ficou admirado, não lhe passava pela cabeça.”

Verde-água é a cor que inspira o conto “O Tempo do Esplendor”, de Lídia Jorge. Uma mulher, Marina Pestana, vai dar à luz e recorda o passado ou imagina um passado que nunca existiu. É um fresco sobre uma época em que as mulheres eram criadas e tinham uma existência infeliz. “Era no tempo das longas noites com livros, no tempo das criadas sem horário, no tempo da água em jarras e potes, no tempo muito longínquo, em que umas quantas lâmpadas de luz elétrica balouçavam das paredes. No tempo dos ferros a vapor, no tempo dos grandes chapéus. No tempo em que a criada de dentro chorava porque não tinha colocado, como deveria, os lenços junto do fato, e ficava a lamentar-se com a criada de fora.”

O livro, que custa cerca de 17 euros e tem 202 páginas, foi apresentado há poucos dias durante o encontro literário Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim. De acordo com a editora, os direitos de autor revertem a favor da Associação Portuguesa de Familiares e Amigos dos Doentes de Alzheimer.

Bruno Horta

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