Estudo sobre violação desencadeia onda de revolta

A campanha "Eu não mereço ser violada" tomou conta das redes sociais. A jornalista que organizou o protesto contra a violência sexual já recebeu várias mensagens de apoio mas também ameaças de violação.

O instituto brasileiro IPEA (Instituto de Pesquisa Económica Aplicada) revelou que 65% dos 3810 entrevistados num estudo sobre violação concordam, total ou parcialmente, que o tipo de roupa de uma mulher indicia que ela quer ser violada. O estudo repercutiu-se de imediato numa onda de revolta e num protesto via facebook com o nome de "Eu não mereço ser violada".

A campanha, que começou com uma imagem da organizadora, a jornalista Nana Queiroz, pedia às mulheres que publicassem fotos onde aparecessem nuas da cintura para cima, tapadas com um cartaz a dizer "Eu não mereço ser violada". 

Rapidamente, milhares de pessoas - mulheres, homens, famílias inteiras - aderiram à iniciativa para acabar com a violência sexual. Ao mesmo tempo surgiram respostas menos positivas, ofensas e até ameaças à organizadora da campanha.

“Cinco minutos depois eu já tinha uma ameaça de violação, dez minutos depois eu já estava num site pornográfico a pedir para ser violada e a minha foto foi manipulada. Eu estava com os braços escritos – ‘não mereço ser violada’. Eles apagaram o ‘não’ e deixaram ‘mereço ser violada’", contou a jornalista ao Globo.

Muitas das mensagens foram escritas com um tom agressivo, defendendo até a prática do crime de violação. Num dos testemunhos, um indivíduo disse que já tinha cometido o crime e que o faria de novo. A jornalista apresentou queixa na Delegacia da Mulher, em Brasília, mas o perfil do homem já tinha sido apagado das redes sociais.

Há ainda quem diga que estas ameaças são falsas inventadas pelas ativistas, mas até prova em contrário, o assunto está a aquecer no Brasil, país que curiosamente é conhecido pelo seu calor, samba, praia e despreconceito em relação a corpos nus.

No entanto, a jornalista também tem recebido muitas mensagens de apoio. “Creio que esta campanha acabou por servir como uma armadilha para os machistas, uma vez que vamos levar à polícia estas mensagens”, afirmou a jornalista.

Os homens também aderiram ao protesto e publicaram, nas redes sociais, várias fotos de apoio à manifestação virtual. Na maioria dos casos, homens em tronco nú seguravam um cartaz com a mensagem "ninguém merece ser violado". Alguns pais aproveitaram a campanha e publicaram fotos de bebés com a mensagem "até eu sei disso".

Em declarações ao Globo, Daniel Cerqueira, coordenador da investigação, diz que a principal conclusão do estudo é que a sociedade brasileira está dominada pela cultura machista. "A primeira coisa que temos que fazer, acredito, é trazer à tona este problema que muitas vezes está escondido debaixo do tapete, está encerrado entre quatro paredes e falar para a mulher o seguinte: que ela não é culpada, ela é sempre a vítima. E porque é que isso é importante? Porque centenas de vítimas simplesmente não vão prestar queixa à polícia, porque vão achar que na verdade fizeram alguma coisa, que facilitaram e vão ser mal vistas na sociedade", disse o investigador.

Nana Queiroz deixou o apelo: "Mulher que foi ameaçada, vá à esquadra, faça a sua denúncia, ganhe proteção da polícia, dos seus amigos. Eu acho muito importante que isso aconteça para que ninguém tire vantagem desta campanha para se vingar da atitude feminina através da violação”. “Acorda, garota, o seu corpo é seu, pode fazer o que quiser com ele. Pode usar saia curta, pode usar burca, pode ser religiosa ou ateia, vestir-se conforme suas crenças. Ninguém tem o direito de te violentar por isso", defende a jornalista.

A investigação do IPEA também mostrou que 58,5% dos entrevistados concordam, total ou parcialmente, que "se as mulheres se soubessem comportar haveria menos violações". É revelante indicar também que, do total dos entrevistados, 66,5% são do sexo feminino.

Dados indicam que mais de 500 mil pessoas por ano são vítimas de violação no Brasil, muitas delas vítimas de violações coletivas, mas a polícia só toma conhecimento de 10% dos casos.

artigo do parceiro: Nilza Rodrigues

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