Esperar sentado

O António conheceu a Estefânia em casa dela. Foi lá entregar um sofá e ela pediu-lhe ajuda para mudar outros móveis. Ele ajudou, riram-se muito e ele ficou a pensar nela. Um mês depois decidiu fazer algo. Ligou para a rádio Cadena 100 e pediu ajuda pela rúbrica "quien te tienta a las nueve treinta", que tenta marcar um jantar romântico entre quem para lá liga e a pessoa que o/a tenta.

Eu andava a fazer zapping radiofónico enquanto guiava, e dei por mim a parar nesse canal e a ouvir com atenção, "torcendo" para que a Estefânia aceitasse. Percebi que um sorriso enorme se me colou à cara...

Dizia-me ontem uma amiga que gostaria que a sua vida fosse mais parecida à minha e que os seus dias fossem mais preenchidos pela labuta diária do que vividos entre quatro paredes, à espera que algo aconteça. Fiquei um bocado gaga. Como se muda o ponteiro da inércia para a ação? Não faço mesmo ideia porque acho que o meu encravou derradeiramente no "on". Como sempre diz um homem que vejo como um pai: "Tu não és de capinar sentada, minha filha!" Não sou mesmo, e muito menos sou de esperar sentada. Mas como posso "passar" este "estado" a quem o precisa de aprender?

"A vida acontece enquanto esperamos por mesa", disse-me uma vez o Pedro Abrunhosa. Reconheci de imediato o provérbio Nova-Iorquino. Discordei. Há muitas coisas que podem acontecer quando menos as esperamos, contudo é nosso dever colocarmo-nos a jeito. Quem não semeia dificilmente poderá colher. Quem não joga, seguramente não ganhará. E quem não faz por concretizar sonhos e projetos, depressa começa a acreditar que nem vale a pena sonhar ou projetar.

Hoje vou explicar à minha amiga que, sentados à espera dela, a vida raramente acontece. Temos que nos manter ativos, inventivos e alerta. Temos que utilizar todos os expedientes ao nosso dispor para a conquistar ao minuto. Temos que alimentar os dias com o oxigénio da nossa vontade e o rastilho de cada tentativa de conquistar o que queremos. Só assim a nossa existência deixa de ser a novela aborrecida a que assistimos de sofá e passa a ser o filme épico em que, como heróis principais, partimos em aventuras incríveis!

P.S.- A Estefânia aceitou ir jantar com o António.

Ana Amorim Dias

Biografia

artigo do parceiro: Ana Amorim Dias

Comentários