Dia da Mulher deveria ser todos os dias

O longo caminho que ainda há a percorrer

Quando for grande quero
ser astronauta. Era assim que
do alto dos meus cinco anos antevia
a minha futura profissão.

Uma ideia
interessante, pensava eu, que era alvo de
comentários como «Se tivesses nascido
na América...».

Estávamos ainda longe da
Europa comunitária e do mundo global
em que vivemos hoje. Astronauta era
uma profissão digna de personagem de
BD.

Felizmente, muita coisa mudou
entretanto. No meu caso específico, a
apetência natural para as letras decretou
rapidamente o fim deste projecto.
Mas o que importa é que, nas últimas
décadas, muitas portas se abriram, novas
áreas foram criadas e as oportunidades
multiplicaram-se, incluindo para o sexo
feminino.


Valerá então a pena celebrar o
dia 8 de Março? Sem dúvida! Em Portugal, segundo dados da Comissão
Nacional para a Igualdade no Trabalho
e no Emprego relativos a 2009, cerca
de 62 por cento das mulheres tem uma
profissão e a taxa de população feminina
no activo é uma das mais elevadas da
Europa (69 por cento) e representada
sobretudo por trabalho a tempo inteiro.


Por outro lado, são também elas quem
assegura grande parte do apoio familiar,
o que explica porque semanalmente o tempo dedicado a trabalho não pago
seja superior ao masculino em 16 horas.
Apesar das boas excepções que todas nós
conhecemos, este panorama revela que
vivemos num mundo de super-mulheres
em que o objectivo é ser irrepreensível.
Contudo, como bem sabemos, a perfeição
não existe.

A propósito da fasquia, por
vezes elevada, que nos é (auto)imposta
sou, por isso, defensora de uma maternidade sem culpas nem
comparações. Essa é, no entanto, apenas uma das batalhas que, nós que somos mães, travamos diariamente. Mas existem outras, porventura bem mais difíceis.

O livro «Metade do céu - Transformar a opressão em oportunidade para as mulheres de todo o mundo» (Bertrand) apresenta-nos um
retrato das dificuldades vividas por
mulheres nos vários pontos do globo,
algumas delas bem próximas da nossa
realidade. E que nos mostra que todos
nós, homens ou mulheres, podemos fazer
algo para melhorar o mundo em que
vivemos.


Igualdade de acesso à educação, formação,
ciência e tecnologia. Este é o tema do Dia
Internacional da Mulher 2011, que se celebra anualmente a
8 de Março. Uma causa defendida neste livro
escrito por dois jornalistas do New York
Times, galardoados com um Pulitzer, o prémio
jornalístico mais cobiçado do mundo.
Retomando no título o provérbio chinês
segundo o qual «as mulheres aguentam
metade do céu», esta é a história de mulheres
de todas as idades, lugares e contextos.


As que sofrem e as que ajudam, oriundas
do primeiro mundo ou do interior rural
africano, tenham 18 ou 70 anos. E para
que não sejam apenas um número vago
estas mulheres são descritas ao pormenor.
Sentimos que as conhecemos e quase vemos
o seu rosto, o seu olhar, a forma como
arranjam o cabelo, num mundo bem nosso.


Há também as que recuperam de maus tratos,
que quase lhes custaram a vida, para
lutar contra a violência de género. Foi o
caso de Mukhtar, condenada pelo conselho
da sua aldeia a ser violada em grupo enquanto
uma multidão ouvia os seus gritos
sem intervir. Acabou por receber uma
indemnização do Estado indiano equivalente
a mais de cinco mil euros, com os
quais abriu uma escola.

Tal como Sakena,
no Afeganistão, que teve de reordenar uma
sala de aula para que parecesse a divisão de
uma casa quando recebeu uma visita dos
talibãs. Para Sakena, «se queremos combater
o terrorismo e a violência, precisamos
de educação». E evitar que se considere uma
pessoa dispensável só por ser mulher.

«Seria
irresponsável condescender com a escravatura,
a tortura, as ligaduras nos pés, os assassínios
de honra ou a mutilação genital só
porque acreditamos que devemos respeitar
outras culturas», dizem os autores. Segundo
eles, todos podem ajudar.

Texto: Manuela Vasconcelos com Julie Oliveira

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