As mulheres de «Os miseráveis»

Anne Hathaway brilha no novo musical de Tom Hooper. Mas não é a única

Quando concorreu ao programa de televisão «Britain's Got Talent», Susan Boyle deu à canção «I dreamed a dream» uma exposição mediática que nunca tinha tido até aí, atingindo mais de 115 milhões de visualizações no YouTube.

No entanto, a cena do filme «Os miseráveis» onde a atriz retoma a canção do musical que serviu de inspiração à película de Tom Hooper promete suplantar a interpretação da cantora.

A carga dramática que a atriz imprime a Fantine, a ex-operária fabril que é obrigada a prostituir-se para poder continuar a enviar dinheiro para a filha que teve de deixar a cargo de um casal com poucos escrúpulos, já lhe valeu uma nomeação para um globo de ouro. O nome de Anna Hathaway também já é falado para a próxima edição dos óscares. Apesar de interpretar um papel secundário, ela é, juntamente com o ator Hugh Jackman, um dos motores da nova adaptação ao cinema do célebre musical baseado na obra homónima do escritor Victor Hugo, que foi o filme mais visto nos cinemas norte-americanos no Natal de 2012.

Fantine (Anne Hathaway)

Estreou-se como uma desastrada herdeira de um fictício trono europeu, neta da consagrada Julie Andrews, em «Os diários da princesa», em 2001. Nos 12 anos seguintes, com filmes como «O segredo de Brokeback Mountain», «Alice no país das maravilhas» ou «O casamento de Rachel», conseguiu descolar da imagem de adolescente mimada e seduzir Hollywood com desempenhos notáveis. Tem em «Os miseráveis» um dos seus maiores desafios.


Para além de cantar e de perder 12 quilos para interpretar a fase mais decadente da sua personagem, teve de rapar o cabelo para recriar a cena em que Fantine se vê obrigada a enveredar pela prostituição para poder continuar a alimentar a filha, marcando com esse gesto o início de uma nova vida nas ruas sujas de uma Paris em ebulição revolucionária. Uma experiência intensa que a marcou profundamente. «Em qualquer das cenas, alguma coisa de fantasmagórica, sinistra, maravilhosa, chocante e espantosamente capaz de mudar uma vida, aconteceu», afirmou já publicamente.

Cosette (Amanda Seyfried)

É outro exemplo de atriz que tem lutado para se livrar da eterna imagem de adolescente que exibiu no musical inspirado nas canções dos Abba, «Mamma mia». Este filme não lhe dará, contudo, uma grande ajuda nesse sentido. Amanda Seyfried interpreta Cosette, a filha de Fantine na idade adulta. O seu contributo para a história do filme é diminuto, limitando-se a conferir um maior romantismo à fase final do enredo, depois de dar um novo rumo à vida de Jean Valjean, o fugitivo regenerado brilhantemente protagonizado por Hugh Jackman.


«Cosette é a maior fonte de luz, de esperança e de amor, um amor verdadeiro nesta história», descreve a atriz. «O bispo [que ajuda Jean Valjean logo após a saída da prisão, onde passou 16 anos por ter roubado um pão para alimentar o sobrinho doente] tinha provocado o despertar da virtude no horizonte dele. Cosette trouxe-lhe o despertar do amor», justificou Victor Hugo. Na fase inicial do filme, a atriz Isabelle Allen interpreta Cosette em criança. A sua imagem tem mesmo sido uma das mais usadas para promover o musical.


Veja na página seguinte: A ladra sem escrúpulos e a donzela que se sacrifica por amor

Madame Thénardier (Helena Bonham Carter)

A atriz Helena Bonham Carter tem em «Os miseráveis» um dos mais divertidos papéis da sua carreira.

Madame Thénardier é a dona da estalagem a quem Fantine paga uma renda para lhe cuidarem da filha, a pequena Cosette.

Mulher sem escrúpulos, só pensa no dinheiro e não tem problemas em furtar os bens dos hóspedes que visitam o seu estabelecimento.

É apaixonada pelo marido, Monsieur Thénardier, interpretado por um genial Sacha Baron Cohen, que volta a dar vida a uma figura hilariante, na linha do ditador oriental de «O ditador», do homossexual Bruno, do rapper Ali G ou do repórter Borat. «Formam um casal tenebroso, numa união de astúcia e de fúria», descreveu Victor Hugo.


Mãe de Éponine, Helena Bonham Carter é responsável por algumas das cenas mais cómicas do filme, como a em que o casal tenta passar-se por figuras da corte francesa para assistir a uma luxuosa festa. O seu visual descuidado e extravagante acaba por fazer da eterna companheira do realizador Tim Burton uma das surpresas visuais do filme, contribuindo o boneco para o êxito desta personagem, uma ladra impediosa que a atriz adorou interpretar. «Adoro as canções do musical», admitiu mesmo em entrevista. «Foi muito libertador fazê-lo», confessa.

Éponine (Samantha Barks)

Depois de se ter estreado nos palcos londrinos no musical «Oliver!», a cantora e atriz Samantha Barks saltou da versão teatral cantada de «Os miseráveis» diretamente para o filme, para dar vida a Éponine, a filha do casal que criou Cosette e que, anos mais tarde, se apaixona por Marius, interpretado por Eddie Redmayne, o aristrocrata revolucionário que se perde de amores pela filha de Fantine à primeira vista. Vive, na tela, uma personagem sofrida, que não tem problemas em sacrificar os próprios sentimentos para ver feliz o homem que ama.


«A Éponine era um personagem que eu desejava ardemente interpretar», assume a atriz. «Por vezes, ouvimos uma música que evoca em nós uma reação. Foi o que Éponine causou em mim», acrescenta ainda Samantha Barks. A vantagem de ser cantora profissional acabou por facilitar-lhe a vida, valorizando a sua interpretação, o que lhe tem merecido grandes elogios. «Acabámos por conseguir um elenco de sonho», assume Eric Felner, um dos produtores do filme.

Texto: Luis Batista Gonçalves

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