Rita Mota Veiga Alves

A arquiteta que recupera peças emocionais
É arquiteta, tem 31 anos, e um bebé com dois anos e meio que faz as suas delícias de mãe.


Só depois do nascimento do filho é que encontrou a sua verdadeira vocação profissional: recuperar peças emocionais.

Rita Alves põe toda a sua criatividade artística ao serviço dos objetos que fazem parte da história de vida dos seus clientes e não pode estar mais feliz com o rumo que a sua vida levou.

Quando acabou o curso de arquitetura ainda trabalhou como arquiteta?

Sim. Durante o estágio conheci o meu marido que também é arquiteto e pouco depois começámos a trabalhar juntos, no nosso atelier de arquitectura, em Cascais.


Ainda estão juntos no mesmo local de trabalho?


Sim. E ainda trabalhamos em projetos de arquitetura. Só que, com o tempo, fui descobrindo a minha verdadeira vocação que é o trabalho manual e dediquei-me à reciclagem de peças emocionais.


O que são peças emocionais?


São objetos muito importantes e únicos. Objetos que fazem parte da nossa vida, móveis, cadeiras, candeeiros, joias, bibelots, quadros... comprados por nós, herança de família ou recordação de uma viagem, tudo o que está intimamente ligado com a história de uma pessoa.


Como é que descobriu esse seu gosto pelos trabalhos manuais?


Desde miúda que faço muita bijutaria para mim e para as minhas amigas, assim como faço questão de fazer os presentes de Natal e de aniversário de toda a gente. Quando tive o Lucas, o meu trabalho ficou completamente em segundo plano, mas ao fim de um ano, fiquei com muita vontade de voltar a trabalhar. Consegui pôr o meu filho numa escola na qual confio de olhos fechados e pus mãos ao trabalho a fazer o que mais gosto.


Como é que deu o salto entre a arquitetura e a reciclagem de peças emocionais?


Quando voltei ao trabalho fi-lo com mais garra e determinação de marcar uma diferença e com a ajuda do coaching com a minha amiga Mariana Monteiro. Aos poucos, fui percebendo o quanto era gratificante recuperar as peças de estimação das pessoas e decidi dedicar-me inteiramente a esse trabalho.


Como é que as pessoas vêm ter consigo?


Criei uma página de facebook onde faço publicidade aos materiais que trabalho e a partir daí as pessoas entram em contacto comigo e pedem-me para recuperar uma determinada peça. Tanto posso reciclar um armário para o quarto das crianças, como qualquer outra peça de mobiliário que veio de casa dos avós ou simplesmente um colar ou um objeto decorativo que se estragou.


Acha que hoje em dia as pessoas dão mais valor àquilo que têm?


Muito mais. Até porque as coisas antigas são incomparavelmente melhores do que as modernas que são quase todas descartáveis. Assim a reciclagem faz cada vez mais sentido. Na sua recuperação tanto posso usar tecidos para forrar as peças ou qualquer outro material para as alterar e adaptar, como as recuperar simplesmente na sua essência. Descobri também que gosto de fazer de“lixo um luxo”, combinar materiais simples com outros nobres e fazer peças decorativas muito interessantes e únicas.

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Também faz peças para si?


Faço. Há dias peguei em formas de queques muito antigas e forrei um candeeiro de papel de arroz do IKEA e ficou uma peça muito original que está no nosso atelier, na Avenida de Pádua, em Cascais, para vender.


Como são os preços?


Faço sempre um orçamento. Depois de ter a peça algum tempo a amadurecer entre a minha ideia e a conversa com o cliente, faço um estudo com vários testes de cor e de fundo, e mando para a pessoa ver. Umas vezes acerto logo à primeira, outras ajustamos alguns pormenores e só depois de aprovado pelo cliente, depois de muitas imagens para trás e para a frente, é que o projeto avança.


Qual é a sua maior preocupação?


Não estragar o original. E que o processo seja uma interligação perfeita entre mim e o cliente, resultando num produto que é a simbiose entre o original e o seu novo destino ou propósito. Por exemplo, nas madeiras posso recorrer a um especialista para as preservare encontramos uma maneira de satisfazer a vontade do cliente sem estragar a peça. Mais tarde, se a pessoa mudar de ideias, pode usar diluente ou uma substância tão simples como o álcool para recuperar o tom original da madeira.


É compulsiva quando está a trabalhar?


Sou. Só paro quando chega a hora de ir buscar o Lucas ao infantário. É por isso que esta atividade se adapta na perfeição às minhas necessidades, porque me permite conciliar a maternidade com esta paixão que me faz sair feliz de casa todas as manhãs.


Tem conseguido ter sempre trabalho?


Tenho. Porque apesar de não haver preço para estas peças que estou a recuperar, felizmente consigo encontrar sempre uma solução para qualquer valor. Ou seja, ajusto sempre o acabamento ao valor que a pessoa pode gastar, pelo que o preço nunca é um impedimento: eu e o cliente chegamos sempre a um acordo.


Continua a fazer bijutaria?


Continuo e tenho inúmeras peças em exposição na loja. Desde o tempo do colégio que a minha maior alegria era fazer as prendas para o dia da mãe e do pai e também para o Natal. Ainda hoje sinto o maior orgulho por essas prendas insignificantes estarem coladas no frigorífico da minha mãe.


O que a diverte?


O meu filho. Passeamos imenso e agora já começa a gostar de teatros, e adorou o circo no Natal. Como em Cascais e em Sintra há muitos museus, também faço questão de o levar àqueles que estão mais de acordo com a idade dele. E nem sequer é preciso pagar. Há muitas opções que não custam dinheiro, como ir à praia mesmo no Inverno...


O que a motiva?


Quanto mais concentrados estivermos para atingir um objetivo, mais depressa conseguimos concretizá-lo. Temos de ser snipers da vida para atingir a felicidade. É por isso que o meu maior objetivo é ver as pessoas à minha volta felizes e ver aquele sorriso honesto e grato na cara do meu filho, do meu marido, e de todos os que me rodeiam. Ver sorrisos na cara das pessoas que amo também é o seu maior sonho.


O que a comove?


A crueldade. Há coisas que a humanidade levou a cabo que me fazem sentir vergonha de fazer parte dela. O ser humano é capaz das atitudes mais maravilhosas mas também das mais atrozes!


O que lhe arranca uma gargalhada?


A gargalhada do meu filho.


Tem algum hobby?


Os trabalhos manuais. E pesquisa. Adoro ver os trabalhos de outros criativos.


Onde gostava de chegar?


Ao máximo de pessoas possível fazendo-as felizes ao olharem para uma peça emocional reciclada por mim!


Está bem com a vida?


Muito bem. Sou muito grata a tudo o que a vida já me deu.

Veja AQUI alguns dos trabalhos de Rita Mota Veiga Alves

 


Texto: Palmira Correia


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