“Os cães deram-me tudo na vida”

Carla Molinari é presidente do Clube Português de Canicultura e juiz de todas as raças a nível internacional

É criadora de cães há 50 anos e orgulha-se de ter dedicado a vida aos animais. É Presidente do Clube Português de Canicultura (CPC) há 25 anos e tesoureira da Federação Cinológica Internacional (FCI). O mundo inteiro conhece esta mulher que se apaixonou pelos animais ainda criança e dedicou grande parte da vida a criar cães e a apreciá-los nas exposições internacionais. Carla Molinari tem ascendência italiana mas nasceu em Portugal e fala cinco línguas.

Como começou a sua ligação aos cães?

Desde criança. Os meus pais não queriam, mas um dia o meu avô deu-me um Fox Terrier e começou aí a minha paixão pelos cães. Aos 10 anos encantei-me pelos pastores alemães e nunca mais parei.

A seguir apaixona-se pelas raças portuguesas....

Tenho 50 anos de criadora. Já passei por muitas fases, muitas raças e muitas paixões. As raças portuguesas vieram por acréscimo. Desde o início que tenho uma forte ligação ao Clube Português de Canicultura porque o meu veterinário era o antigo presidente, Dr. António Cabral, e foi ele que me trouxe para o clube nos anos 60.

A seguir aos pastores alemães que outras raças criou?

A seguir passei para os galgos, mas como o Dr. António Cabral era o homem das raças portuguesas, pedia-me ajuda, nomeadamente, com o Cão de Água.

A raça portuguesa que encantou a família Obama, deve-lhe a continuidade...

É verdade. Nos anos setenta a raça estava em vias de extinção e impedimos que a raça não desaparecesse. De facto, a partir dessa altura, dediquei-me muito ao cão de água e às outras raças portuguesas.  

Quantos cães tem agora?

É um segredo que não posso revelar, mas tenho, seguramente, mais do que devia ter...

Participa em todas as exposições de cães que se realizam em Portugal?

Não. Como presidente do Clube sou responsável pela organização de vários eventos ao longo do ano e responsável técnica dos outros que não organizamos,  visto sermos também responsáveis por todo o  calendário anual de exposições.

Esta exposição no Estoril que se realiza todos os anos em agosto nos jardins do Casino Estoril é da sua responsabilidade?

Esta exposição é organizada pela Cascais Dinâmica, empresa de turismo da Câmara Municipal de Cascais, mas nós  CPC damos todo o apoio técnico.

Este evento atrai muita gente ao Estoril?

Temos representantes de duas dezenas de países, vêm de todo o lado, e temos cerca de 900 cães por dia, ou seja passam pela exposição cerca de três mil cães nos três dias, o que dinamiza a economia da região. Para além dos expositores, passam por aqui milhares de visitantes, pois trata-se de um parque público com entrada livre num local privilegiado.

Este é o seu local preferido?

Como moro no Estoril, aqui sinto-me em casa.

Também tem um cão preferido?

Não. Depois de tantos anos a julgar cães e a criar cães, e já criei tantas raças, não tenho um cão preferido. Neste momento estou a criar podengos pequenos, uma raça muito interessante que comecei a criar há 30 anos. Claro que gosto muito dos meus cães, mas a paixão pelos cães começou em pequenina e o que eu gosto é de cães. Independentemente de terem ou não raça.

A crise está a fazer mal aos animais?

A toda a gente. Infelizmente o abandono sempre foi uma prática no país. Os cães apareciam abandonados e ninguém fazia nada. Atualmente as pessoas estão mais sensibilizadas e há um grande movimento contra o abandono. Só que quando a crise chega a determinada família, as pessoas são obrigadas a desistir de alguma coisa e normalmente desistem do cão. São situações muito difíceis de gerir.... Felizmente também há mais pessoas a adotar!

Já adotou algum cão?

Os cães que vivem connosco em casa são dois cães adotados que a minha filha encontrou na rua. E também tenho dois gatos abandonados que fomos buscar a uma instituição e que fazem parte da família!

A sua filha herdou da mãe o gosto pelos cães?

A minha filha também é juiz de cães. No entanto, tem um percurso na canicultura diferente do meu.

Não tem outra atividade?

Nem posso ter. Embora o clube não seja um emprego porque não é remunerado, ocupa-me mais de cinco horas por dia. Depois, como sou juiz de cães, passo a vida a viajar por todo o mundo e também faço parte de instituições internacionais: sou tesoureira e pertenço ao comité executivo da Federação Internacional de Canicultura que congrega 86 países. Faço também parte do Conselho de Administração da Fundação S. Francisco de Assis em Cascais.

Para passar a vida a viajar fala várias línguas...

Falo cinco línguas desde pequena.

Como ocupa os seus tempos livres?

Cada vez tenho menos tempo mas gosto de cavalos, aliás, tenho dois cavalos, e gosto de música clássica e de ópera.

Esta atividade só se pode fazer com paixão.

Paixão é a palavra certa! Este trabalho é muito abrangente: tem a vertente técnica, a vertente histórica, a parte competitiva e a cultural. Para ser juiz é necessário estudar muito a fundo as raças. Eu sou juiz de todas as raças e há cerca de 400 no mundo. Para chegar até aqui foram muitos anos de estudo e de pesquisa.

Gosta de estudar?

Adoro. Atualmente até já há cursos de canicultura e o CPC deu apoio à Universidade de Trás-os-Montes na elaboração dos currículos do curso de canicultura.

Qual vai ser a sua próxima exposição?

Para a semana vou para Genebra, a exposição Europeia com 11.000 cães, depois vou para a Coreia, a seguir para os Estados Unidos e depois para o Brasil e China...

Se pudesse voltar atrás fazia tudo igual?

Fazia. Os cães deram-me tudo na vida. Devo-lhes: sucesso, amigos e prazer de viver. Apesar de nada fazer prever que este seria o meu caminho porque tive uma educação muito clássica e conservadora, foi através dos cães que me realizei profissionalmente. Sou conhecida mundialmente e isso devo aos cães e à minha paixão por eles.

Deve ser muito gratificante...

Claro que é. Gosto muito do que faço.

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