Mimi Sousa Prates e o seu Mundo em Papel

Um negócio que começou por brincadeira

Sempre teve o fascínio pela encadernação, mas só adulta conseguiu realizar o enorme gosto de aprender a encadernar. Fê-lo com um dos maiores mestres de Lisboa e hoje dá asas à sua imaginação no Mundo em Papel, uma marca que criou a pensar sobretudo nos bebés. Com 36 anos e três filhos, Mimi Sousa Prates não pode estar mais feliz: tem a família com que sonhou e um trabalho que a enche de prazer.

Como é começou a sua marca Mundo em Papel?

Começou por brincadeira como a maioria destes negócios porque já há muito tempo que eu queria aprender a encadernar mas nunca dava porque o encadernador do meu pai estava em Almada e não era nada prático ir tão longe. Um dia estava na ópera com a minha sogra e confidenciei-lhe este gosto e em boa hora o fiz: no dia seguinte o encadernador já estava à minha espera para me começar a ensinar.

E começou logo a ter aulas?

Fui ter com o senhor José Domingues, por quem tenho a maior estima, a Campo de Ourique, e assim que ele viu o meu interesse, começámos a trabalhar. Pedi no emprego para faltar uma vez por semana, e, quando comecei, fiquei completamente apaixonada.

Muito mais do que imaginava?

Sim, porque tem tudo a ver com trabalhos de mãos que  é uma coisa que eu adoro. No início estive três meses a descoser livros, três meses a coser e finalmente aprendi a encadernar a sério.  Sei coser, encadernar, serrotar, ou seja, domino todas as partes do livro.

Qual foi a sua primeira encadernação?

Um álbum de fotografias para o meu filho que, entretanto, nasceu. A partir daí não parei. Ainda hoje o meu produto principal são os álbuns de fotografias. Com o tempo percebi que a encadernação não tem de ser uma coisa maçuda com telas pesadas e cores escuras, e comecei também a fazer livros de receitas e outros. bem cosidos para resistir ao tempo.

Ainda fez outras formações?

Na Fundação Ricardo Espírito Santo aprendi a outra parte, a da preservação do papel. O que sucede é que colocamos as fotografias nas bolsas dos álbuns e elas ficam lá coladas. Rapidamente percebi que não era esse tipo de álbum que eu queria mas sim um que preservasse as fotografias. Por isso os meus alguns têm todos papel acid free no meio, e são de colar como antigamente.  

Que outro tipo de peças faz?

Faço álbuns para casamentos, livros de honra, diários de viagens, cadernos de receitas, livros de vinhos, livros de festas, álbuns para despedidas de solteiras, muita coisa!

Qual é a sua atividade profissional?

Sou licenciada em comunicação social e cultural e sou responsável de comunicação numa empresa espanhola onde estou há nove anos.

Pelo meio teve filhos.

Tenho três bebés, o mais velho com três anos, a segunda com um ano e meio e a mais pequenina com dois meses. Têm todos um ano e meio de diferença.

Tem três bebés em casa, trabalha o dia todo e ainda arranja tempo para encadernar. Como é que consegue?

Não sei mas consigo. Quando se faz com alma, consegue-se. Claro que estou estafada, a casa está um caos, às vezes acordo de manhã, não há leite e tenho de ir a correr comprar, mas tudo se faz.

É uma pessoa muito descontraída?

Sou muito. E também sou caótica, não sou nada arrumada, a casa é atelier ao mesmo tempo - neste momento tenho uma grande encomenda de uma loja de Lisboa que está na mesa de jantar... os miúdos tropeçam em material, e estou todo o tempo a dizer-lhes: não corta, não mexe, porque há tesouras, fitas e velas por todo o lado.    

Este Mundo em Papel é um negócio interessante?

Muito interessante.

Se gosta tanto de trabalhos manuais, porque não escolheu um curso ligado às artes?

Porque gosto muito do contacto humano e a minha profissão tem tudo a ver comigo: pessoas, rua, contactos, comunicar, falar, eventos... A parte dos trabalhos manuais vem de família a começar pela minha mãe que sempre a vi com qualquer coisa nas mãos e o meu pai também. Talvez por isso todos nós, somos quatro irmãos, temos fortes ligações à arte.

O que faz o seu marido.

É de comunicação como eu, tão caótico como eu, por isso entendemo-nos às mil maravilhas. Casei-me com o homem certo!

Ele ajuda a tratar das crianças?

Ajuda. E tenho uma pessoa em casa que me dá apoio todas as tardes. O meu marido trabalha imenso e não chega cedo a casa, mas, de manhã, é ele que trata dos miúdos: veste, dá o pequeno almoço, e vai pôr à escola. É tudo muito partilhado. Ele assegura as manhãs, eu a tarde e a noite.

Como é que deu a conhecer a sua marca?

Começou pelos amigos e amigos dos amigos. O Mundo em Papel foi criado em 2009, nessa altura criei uma página no Facebook e os amigos começaram a encomendar-me os presentes de Natal, e até os nossos presentes de Natal foram todos feitos por mim: álbuns de fotografias, livros de receitas, cadernos e até livros de honra, outro dos meus produtos de grande sucesso. A partir daí foi passa-palavra.

Seguiram-se os produtos para batizado...

No início de 2010 encomendaram-me álbuns e livros de batizado, tudo ainda muito tímido, e depois comecei a ir a todo o tipo de feiras para dar a conhecer a marca. De repente, sem dar por isso, tenho 4 mil seguidores no Facebook...

Consegue cumprir todas as encomendas?

Consigo, embora as encomendas sem prazo estipulado tenham uma lista de espera de um mês. Claro que batizados, comunhões e casamentos não posso falhar. Para ter uma capacidade de resposta imediata de tudo o que me pedem, precisava que o dia tivesse 72 horas...

Os seus álbuns totalmente feitos à mão e personalizados são muito caros?

Não. Custam a partir de 17.5€, e são únicos. A mãe pode escolher o papel conjugado com a cor da tela que quer, assim como colocar o nome do bebé na capa e na lombada do álbum.

Tem stock em casa?

Não, só pequenos restos das coisas que faço para as feiras. Em casa prefiro que as pessoas escolham à sua vontade. Por exemplo, se me encomendarem um livro de receitas, podem escolher o papel das massas com a tela encarnada, outra pode preferir o mesmo papel interior mas com a tela azul. E vamos brincando. Há também quem me encomende livros de receitas para a Bimby, ou seja, é tudo muito personalizado, e são muito acessíveis, custam 12.5€

Encadernar é uma arte quase em desuso. Recuperá-la deve ser muito gratificante.

Está a dar-me muito prazer. Gosto de pensar que estou a refrescar a arte de encadernar. São lindos os livros de pele gravados a ouro, mas prefiro encadernar de um modo mais leve e actual. Por exemplo, porque não deixar um livro de receitas para os nossos filhos e netos, giro, com papel temático de massas, frutos silvestres, tomate ou utensílios de cozinha?

Onde encontra esses papéis?

Infelizmente tenho de importá-los. Só as telas de encadernação é que compro cá. A criatividade e mão de obra é toda nacional.

Tem outros hobbies?

Aventurei-me agora na costura. Na semana passada fui fazer um workshop de costura e gostei, e agora até estou aterrorizada com a ideia de me entusiasmar com a costura e, de repente, começar a fazer vestidinhos e touquinhas para as minhas filhas.

Que programas fazem em família?

De preferência programas de ar livre, só nós, núcleo familiar de cinco, ou alargado que somos 50, quando nos juntamos todos dos dois lados.

Onde gostava de chegar?

Gostava de ver a minha marca projetada e reconhecida a nível nacional. Tenho imenso orgulho no Mundo em Papel.

Está preocupada com a situação do país?

Estou preocupada mas acredito que vamos conseguir. Já provámos várias vezes que Portugal consegue dar a volta. E a prova disso é a quantidade de vários negócios que estão a surgir de novas ideias...

artigo do parceiro: Palmira Correia

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