Manuela Paçô, dermatologista por paixão

“Para se ser médico é preciso gostar de pessoas”

Esclarece com orgulho que o seu apelido é transmontano apesar de todos pensarem que é francês. Talvez por isso se confunda com uma nórdica, loura de olhos azuis, trato suave e sorriso doce. Mãe de dois filhos de 15 e 20 anos, Manuela Paçô é médica por vocação e dermatologista por paixão porque tudo o que é bonito a encanta. “Para ser dermatologista também é preciso um certo sentido estético, de equilíbrio e bom gosto”, diz ela nesta entrevista que decorreu na Clínica do Pé, que abriu com outros médicos há 16 anos no centro de Lisboa

Viveu sempre em Lisboa?

Sim. Os meus pais são transmontanos, estudaram no Porto e em Coimbra mas fixaram-se em Lisboa muito cedo. Eu e o meu irmão já nascemos cá.

Os seus pais também são médicos?

Não. Mas tenho tios médicos no Porto.

Da sua geração é a única médica?

Tenho um primo direito médico no Porto e o meu filho também está a estudar medicina.

A medicina foi sempre a sua vocação?

Não. Gosto muito de História, leio imenso e sempre tive muito jeito para escrever. Aliás, as minhas cadeiras fortes foram o português, a história e a filosofia. Por isso dizia que queria ir para Letras, até que no nono ano tive uma professora extraordinária de biologia que mudou definitivamente o rumo à minha vida.

Há professores assim, que nos marcam para sempre.

É verdade. No 9º ano ela deu-me a biologia humana e eu achei que aquilo era fascinante. E, apesar de gostar muito de letras, nesse ano decidi que ia para medicina.

As humanidades e a medicina têm pontos em comum.

Absolutamente. A medicina não é uma ciência meramente técnica, tem muito de humano, sobretudo porque para se ser médico é preciso gostar de pessoas. É preciso gostar de as ouvir e de estar com elas. A pessoa não é uma máquina que está à nossa frente cujo coração ou estômago funcionam desta ou daquela maneira: é uma pessoa!

O curso correspondeu às suas expetativas?

Nunca me arrependi. Se voltasse atrás fazia exatamente o que fiz. Gostei muito do curso, e, curiosamente, a dermatologia não me encheu logo as medidas. Nessa altura estava virada para a cirurgia e ainda hoje gosto muito de trabalhar com as mãos. Hoje em dia as especialidades esbatem-se um bocadinho porque as coisas vão sendo mais invasivas. Ainda assim o cirurgião é o médico que gosta de fazer coisas com as mãos e tem um perfil um bocadinho diferente. Não é melhor nem pior, é diferente.

Gosta de todo o tipo de trabalhos de mãos?

Gosto. É uma coisa que me relaxa muito, talvez por isso sempre gostei muito de operar. Tanto é que ainda estive três anos em cirurgia, o que me ajudou imenso para a dermatologia, que, entretanto, passou a ser uma especialidade médico-cirúrgica.  Atualmente, como dermatologista faço muito cirurgia dermatológica, e é o que mais gosto de fazer.

A dermatologia surge como?
A pele é o nosso maior órgão e o de mais fácil acesso para estudo. Para o perceber, os primeiros anos de laboratórios do curso de medicina são fundamentais porque é uma especialidade que tem uma componente muito importante na investigação.

É uma especialidade relativamente recente?

Surgiu no final do séc. XIX, e quando eu escolhi a especialidade havia um campo da medicina que estava a desenvolver-se imenso que era a imunologia. A pele é um órgão essencialmente imunológico e, portanto, a dermatologia como especialidade deu um salto enorme, relativamente à nossa compreensão das doenças e à forma como se desenvolvem, por isso era e é uma especialidade muito atrativa.

E tem uma forte ligação à beleza.

Eu aprecio a beleza e acho que para ser dermatologista também é preciso um certo sentido estético, de equilíbrio e bom gosto.

Quando acabou o curso ficou a trabalhar no Hospital de Santa Maria?

Não. Quis conhecer outro hospital e fui fazer o internato geral no Hospital de São Francisco Xavier, que na época era novo, e foi uma experiência muito gratificante. Ainda hoje tenho grandes amigos lá e sou dermatologista de uma grande parte desses colegas.

Porque foi tão especial essa experiência?

Porque era um hospital novo, pequeno, e as pessoas eram muito dedicadas porque estavam empenhadas em fazer arrancar aquele projeto. Estive lá cinco anos que foram inesquecíveis....

Depois fez a especialidade onde?

Voltei ao Hospital de Santa Maria. Fiz os cinco anos de especialidade e ainda fiquei mais dois, e depois fui convidada para ir trabalhar para o Hospital Cuf Descobertas que estava a nascer.

Ainda trabalha nesse hospital.

Já não. Estive lá oito anos e depois passei para a Cuf Alvalade. A dermatologia é essencialmente uma especialidade de ambulatório. O internamento, embora importante quando justificado pela patologia, é uma parte pouco significativa em termos percentuais, em dermatologia.

Agora estamos na Clínica do Pé. Há quantos anos abriu esta clínica?

Há 16 anos. Nasceu quando estava à espera da minha filha mais nova. Abri-a com um grupo de médicos e a ideia surgiu porque o pé é uma área anatómica que nós negligenciamos e maltratamos toda a vida. À medida que os anos vão passando as estruturas que compõem o pé mudam.

Mudam como?

Mudam por uma série de circunstâncias locais e gerais, nomeadamente, má circulação, alteração da estrutura óssea e muitos outros factores como doenças gerais (diabetes, cardiopatias, etc.).

Quantos médicos compõem o corpo clínico da Clínica do Pé?

Há dois ortopedistas, um endocrinologista, um cardiologista, um clínico geral, um hematologista, um gastroenterologista, uma imunoalergologista e um cirurgião plástico. Somos dez. Nenhum de nós trata só do pé e o corpo clínico foi-se alargando. De facto todos fazemos a nossa especialidade em geral , existindo uma motivação especial para essa área anatómica.

É a única clínica com esta designação em Portugal?

Clínica Médica é:  fomos pioneiros.  Hoje em dia há  outras orientadas por classes profissionais diferentes como os  podologistas.

Pelo meio casou-se com um médico?

Sim. Casei-me com um neurologista e tenho dois filhos, um rapaz com 20 anos que está a estudar medicina e uma rapariga com 15, que está no liceu.

Foi uma mãe presente?

Há dias recebi uma mensagem de um dos meus filhos a agradecer-me por eu o ter educado da forma como eduquei, e isso foi muito gratificante, porque sempre tive alguns problemas de consciência relativamente ao tempo que lhes dediquei. Para uma médica é muito difícil conciliar a carreira, a gravidez e os primeiros anos dos bebés porque é tudo ao mesmo tempo.

Teve filhos mais cedo do que a maioria dos médicos?

Fiz essa opção. Queria ser uma mãe nova e conhecer os meus netos por isso tive os meus filhos durante a especialidade, e era a única interna que tinha filhos. Tenho a noção exata da importância do papel dos avós na ajuda que me deram porque estivemos vezes sem conta os dois de banco simultaneamente.

Orgulha-se dos seus filhos?

Muito. Graças a Deus tenho dois filhos muito equilibrados e que lá vão seguindo a vida deles.

Tem algum hobby?

Canto no coro do colégio dos meus filhos há três anos, e este ano a minha filha também se juntou ao coro. Quando era miúda, fazia parte do coro da Juventude Musical Portuguesa. Já adulta canto nas festas dos amigos, canto sozinha, canto a conduzir. Gosto mesmo de cantar, dispõe-me bem. E até gosto de cantar fado...

Outros momentos de prazer?
Gosto de viajar, de ler, de andar a pé, e gosto imenso de praia o que não é muito normal para uma dermatologista. Chego à praia às 16h e fecho a praia. Das coisas que mais me relaxa é ouvir o mar.

Gosta de viver?

Gosto muito e embora já tenha tido bastantes dificuldades neste momento sinto-me perfeitamente bem com a vida! Como alguém disse um dia, não tenho uma boa vida mas tenho uma vida boa com muitos motivos de agradecimento. 

artigo do parceiro: Palmira Correia

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