Os segredos dos criativos

Acha que a imaginação não é o seu forte? Esse é, precisamente, o seu ponto fraco! Aprenda com quem sabe

Já todos nós tivemos uma caixa de lápis no
jardim-de-infância... com a qual descobrimos as cores do mundo e demos largas à nossa imaginação. É esta uma das máximas de Hugh MacLeod, publicitário e cartoonista americano, que no seu manifesto «Como ser criativo» revela 26 fórmulas para se ultrapassar alguns medos e dar voz à criatividade com que todos nós nascemos.

Leia com atenção as nossas dicas, os testemunhos de alguns cérebros criativos e arrisque mudar a sua vida!

Criar por si só

«Estou sempre a fazer algo que não consigo, com vista a aprender como fazê-lo». A frase é de Pablo Picasso e é, também, uma ideia partilhada por Manuel Domingos, neuropsicólogo. Segundo o especialista, a criatividade é inerente a qualquer ser humano
mas, no entanto, ela é mais ou menos visível consoante a atitude de cada pessoa.

Assim, na sua opinião, «vamos comparando aquilo que fazemos com o que os outros fazem, colhendo lições. Isso pode ajudar a que a nossa criatividade seja cada vez mais apurada, mas não nos podemos demitir daquilo que nós somos».

«Caso contrário, não seremos criativos mas meramente reprodutores», acrescenta ainda. É por isso fulcral que cada pessoa desenvolva a sua própria capacidade criativa.

Tal facto não depende somente das aprendizagens que vêm desde a infância, «mas de estruturas cerebrais que estão directamente implicadas na nossa criatividade», explica Manuel Domingos, adiantando ainda que «mesmo um analfabeto pode ser criativo e temos várias provas disso, como o caso de Mozart».

(In)definições

A ideia defendida pelo neuropsicólogo Manuel Domingos é a de que «todos somos
criativos à nossa maneira», pelo que a exploração das nossas capacidades torna-se, assim, essencial à evolução do nosso processo criativo.

Mas o que é, no fundo, a criatividade? Este especialista é peremptório: «Há coisas
que têm de ser aceites como eminentemente especulativas». Tal como defendeu um dos
grandes filósofos que reflectiu sobre esta matéria, Henri Bergson, «definir uma coisa é
acabar com ela».

Porém, já muitos tentaram colocar-lhe um rótulo, descrevê-la, torná-la real. Sabia que este foi já um tema discutido na Antiga Grécia? Nessa época remota, a inspiração
e originalidade seriam criadas pelos Deuses, aos quais se chamavam supervisores
da criatividade humana.

Também no tempo moderno, na fase romântica do século XIX, muitos se questionaram de onde viria a criatividade dos poetas, músicos e bailarinos. A criatividade era explicada, não através do lado racional, mas através das emoções, as quais possibilitavam inspiração e imaginação.

No entanto, existem, hoje em dia, muitas formas de explorá-la e de desenvolvê-la. Ponha em prática os seus conhecimentos e siga as dicas para aumentar o seu lado criativo.

Veja na página seguinte: O que deve fazer para estimular a criatividade

Humor criativo

No campo do humor existem também grandes criativos, aqueles que, com um olhar, um gesto ou uma subtil piada nos fazem dar uma boa gargalhada. Miguel Góis, um dos fundadores dos Gato Fedorento, é prova viva que o trabalho de humorista não é simples e imediato.

«Parece que um criativo nunca descansa. Estamos sempre a observar tudo o que
se passa à nossa volta e a apontar pequenas ideias», explica, adiantando ainda que «parece que nos períodos de descanso me surgem ainda mais ideias, porque é nessa altura que estou a ser mais estimulado».

Miguel Góis sentiu, ainda criança, que o seu futuro estaria ligado às letras, devorando muitos livros e filmes e, mais tarde, quando saiu da faculdade, realizou um curso
de escrita para cinema e televisão.

Porém, não esquece que outros factores são essenciais para estimular a sua criatividade: «Não tenho dúvidas de que aquilo que mais promove o nosso lado criativo é ver o resultado da criatividade dos outros: ler livros, ver filmes e televisão, ir ao teatro, exposições, e viajar», refere.

«Como não há cursos de humor, pelo menos no nosso país, só se aprende vendo
como os outros fazem», sublinha. Para o humorista, existem, porém, alguns factores que inibem a sua criatividade:

«Se não houvesse prazos de entrega, obrigações contratuais, seria um trabalho muito mais leve. Mas como há todas essas contingências, pode correr-s e o risco de haver uma sobrecarga criativa e aquilo que é um prazer transforma-se numa obrigação», conclui.

O bom, o mau e o vilão

Serão apenas estes os ingredientes necessários para agarrar o público a uma boa novela? Será assim tão simples criar uma história durante meses e meses? Rui Vilhena, guionista de telenovelas como «Tempo de Viver» e «Ninguém Como Tu», esclarece-nos:

«Uma novela é algo muito complicado de se fazer, pois temos calendário de entrega de episódios e temos de elaborar um por dia. Ficcionar a história exige uma capacidade criativa muito grande e há determinados momentos em que começamos a entrar em pânico, pois começa a haver um grande cansaço», sublinha.

Rui Vilhena afirma ser necessário «expandir horizontes, conhecer outros tipos de
cultura, outros sabores, outras cores, outras paisagens, pois só isso faz com que evolua o
nosso intelecto e o nosso processo criativo».

Na sua opinião, «toda a nossa energia criativa é fruto do que nos rodeia, nós sugamos, todos os dias, coisas do nosso quotidiano, por isso acho muito importante a leitura e as viagens, caso contrário, a criatividade fica restringida ao nosso reduzido
conhecimento», desabafa.

Veja na página seguinte: A importância de ser irreverente

Just do it

Este é um dos slogans publicitários mais famosos do mundo. Conciso, apelativo, persuasivo, moderno, irreverente.

São palavras que marcam o trabalho de um publicitário,
«uma actividade exigente, onde normalmente trabalhamos mais horas do que a maioria das outras pessoas», revela Sérgio Alves.

Director de arte numa agência de publicidade, Sérgio sabe que os seus ritmos são diferentes, até porque «não há uma fórmula para se ser criativo, existe apenas um
processo.

No caso dos publicitários, temos de conhecer bem o produto, ter um conhecimento geral muito bom e, depois, é só estabelecer relações entre esses factores distintos e tentar gerar uma ideia», explica.

Mas ter boas e novas ideias todos os dias é bem difícil, garante, até porque, «para
além d isso temos prazos para cumprir. Então, por vezes, estamos mais pressionados
e menos criativos. Já me aconteceu estar dois dias a pensar no problema e só nos últimos cinco minutos surgir algumacoisa».

Actualmente, o seu dia-a-dia é passado a persuadir e a conquistar, ou seja, a
trabalhar permanentemente com a criatividade... Como afirmou uma das grandes
lendas da publicidade, William Bernbach, «não é o que dizes que mexe com as pessoas,
mas a forma como o dizes».

Para Rui Vilhena, guionista, expandir horizontes, conhecer outras culturas e paisagens é importante. «Só isso faz com que o nosso intelecto e processo criativo evoluam».

Veja na página seguinte: Mitos (prejudicais) sobre a criatividade

Mitos (prejudicais) sobre a criatividade

Tudo o que não deve pensar e dizer:

«Eu não sou criativa»

Todos nós somos criativos, mas à medida que os anos vão passando, aprendemos a limitar a nossa criatividade, seja por questões profissionais, por questões de comportamento ou mesmo por assumirmos uma postura de ser adulto.

«É uma ideia estúpida»

Muitas vezes dizemos esta frase em frente à nossa família, amigos ou até a nós próprios. Este é o tipo de atitude que nos faz acreditar que não somos criativos. Para a próxima, em vez de achar a sua ideia estúpida, tente melhorá-la e desenvolvê-la.

«As pessoas criativas têm sempre boas ideias»

Isso não é verdade! Uma coisa é ter sempre ideias, outra, completamente diferente, é as ideias serem sempre boas...

«Criticar a ideia de alguém ajuda a melhorá-la»

Depende do tipo de crítica e do estado em que se encontra a ideia. Se ainda se encontrar em estado embrionário, o seu papel é ajudar a outra pessoa a consolidá-la, incentivando-a a explicar o seu objectivo ou como ultrapassar eventuais obstáculos.

«É uma óptima ideia, não vamos perder tempo a pensar mais»

Quando estamos a tentar encontrar novas ideias, temos tendência para agarrar a primeira
melhorzinha que nos surge. Por isso, não pense numa boa ideia como um fim,
mas como o princípio de uma segunda fase do processo criativo.

5 truques infalíveis

  • Desperte a imaginação adormecida. Se está preso a uma ideia, abra um dicionário e escolha uma palavra e tente formular ideias através dessa palavra. A verdade é que não
    há nada como a liberdade ilimitada para inibir a criatividade.

  • Defina o seu problema. Pegue numa folha de papel ou no seu computador e analise o seu problema. Provavelmente, irá descobrir muito mais facilmente novas ideias.

  • Se não está a conseguir pensar, saia para um passeio. Uma mudança de ambiente
    ajuda-a a descontrair e a refrescar as ideias.

  • Leia tudo o que conseguir sobre os mais variados temas. Isso dar-lhe-á mais inspiração e informação, permitindo-a ter um processo criativo bem mais fácil.

  • Ouça música, veja o pôr-do-sol, ande de bicicleta, relaxe no duche. É importante
    aproveitar o seu tempo livre e descontrair o seu cérebro.

    Texto: Raquel Pires com Manuel Domingos (neuropsicólogo), Miguel Góis (humorista), Rui Vilhena (guionista) e Sérgio Alves (director de Arte da agência de publicidade EURO RSCG)

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