O outro lado da crise

Estratégias para que o clima económico de austeridade não afete a nossa sanidade mental

Com a crise financeira as
nossas emoções também
são abaladas. O psicólogo
Vítor Rodrigues dá-lhe
pistas para gerir o stresse
e manter o equilíbrio.

A sociedade de consumo
levou-nos a acreditar
que precisamos de um monte
de objetos, condições de vida
e aparências para sermos
felizes. Contudo, há pessoas
muito pobres nisso tudo que
são intensamente felizes.


Porquê? São ricas naquilo que
agora vamos ser obrigados a
revalorizar, nomeadamente consciência, amor,
gratidão e/ou capacidade para apreciar
a beleza». Com uma visão
otimista, o psicólogo clínico
Vítor Rodrigues encara a crise
financeira como o momento para
nos reencontrarmos com as coisas
simples e fundamentais da vida. O reforço das relações pessoais
e do espírito de entreajuda são
alguns dos aspetos positivos que
podem agora surgir. Em discurso
direto, mostra como o regresso
ao essencial pode ser a chave para
ser feliz.

Qual a melhor atitude a tomar
para enfrentar os desafios que a
crise económica está a impor nas
nossas vidas?


Uma crise é também uma
oportunidade de mudança ao
mesmo tempo que costuma
torná-la obrigatória. Queiramos
ou não, chegou a altura de mudar.
Sem mudança, se tentarmos
desesperadamente conservar os
modos de funcionar, os apegos e
os hábitos de consumo anteriores,
estaremos no caminho do stresse,
da infelicidade e da má saúde.
Seremos roídos pela frustração.

O que devemos fazer?


Podemos escolher como reagir
em emoção e em ação. Ser frontal
poderá, afinal, ser mais relevante do
que ter um telemóvel novo. E saber
apreciar a natureza ou os amigos (grátis, mesmo sem promoção)
talvez dê mais felicidade do que a
avaliação do chefe. Uma crise como
a que estamos a viver pode levar-nos a deixar o coração ser a
medida do que importa, acima das
modas, dos impulsos consumistas
e dos medos de perdermos o que
talvez não seja essencial.

E como podemos contrariar a
ansiedade gerada pela incerteza?

A ansiedade ligada ao medo do
futuro e das perdas (de trabalho,
de bens, de rendimentos) implica
ocupar a mente com expetativas
negativas, que nos lançam no poço
do desespero e nos convidam a
sentirmo-nos vítimas. Vamos,
antes, viver um dia de cada
vez, valorizando o que temos e
reaprendendo a apreciar as coisas
simples e essenciais como a família,
os amigos e a natureza.

Como nos podemos fortalecer
para fazermos o luto da vida que
tínhamos até aqui?


Um luto bem feito em relação
a perdas diversas implica aceitar
os sentimentos, sem os bloquear,
e depois seguir em frente. Implica
saber que ninguém nos tira o que
já vivemos e o que já aprendemos
e que a maior perda seria privarmo-nos da nossa humanidade
profunda que, felizmente,
está fora do alcance dos impostos
e da austeridade.

Que hábitos podem ser úteis
para evitar ou aliviar o stresse, da
incerteza face ao futuro?


Devemos pensar num monstro de
cada vez. Talvez eu não consiga
lidar com dez dificuldades em simultâneo mas, se dedicar um dia
a cada uma, pode ser que chegue
lá. Há que dosear os esforços e não
deixar que as nossas preocupações
nos invadam. Podemos combater o
stresse fazendo exercício, comendo
racionalmente, dormindo bem,
praticando técnicas respiratórias,
relaxando, praticando meditação,
tai-chi, chi-kung e/ou dança e
aprendendo a reencontrarmo-nos
connosco mesmos.


Veja na página seguinte: Aprender a lidar (bem) com o desemprego

Sendo o trabalho um pilar
importante na vida de qualquer
pessoa, qual a melhor forma de
enfrentar o desemprego?


Não ficar parado a lamentar ou
em revolta mas procurar usar
ativamente o tempo para procurar
emprego, ler, estudar, dedicar-se a atividades culturais, fazer
trabalho voluntário, divertir-se,
praticar passatempos interessantes,
conviver com amigos, namorar, ouvir música, aprender a cozinhar...


Sejam proativos em lugar de
ficarem na posição de vítimas
passivas do fado ou de revoltosos
mais ou menos caóticos.

E o que fazer para que o pilar
das relações não fique abalado?


Bem sei que «em casa onde não
há pão, todos ralham e ninguém
tem razão» mas, em contrapartida,
as dificuldades convidam-nos a
encontrar e apreciar o que temos
de melhor em nós e nos outros
e acentuar a entreajuda. Sei, por
amigos militares, que algumas das
mais fundas e duradouras amizades
se constroem debaixo de fogo, no
espírito de entreajuda em situações
extremas. E é essencial escutar
o outro e apoiá-lo. Aos casais
aconselho partilharem atividades,
por exemplo ajudarem-se na
cozinha, para depois terem mais
tempo de lazer juntos.

O que fazer para preservar a sua saúde mental:

- Aceite a mudança

- Não se vitimize

- Desvalorize o supérfluo

- Combata o stresse

- Seja proativa

- Dedique-se mais aos outros

- Acentue a entreajuda

- invista na relação a dois

O que não fazer para preservar a sua saúde mental:

- Tentar conservar os hábitos
de consumo anteriores

- Lamentar-se e ficar parada
na posição de vítima

- Pensar que nada pode fazer

Texto: Vanda Oliveira com Vítor Rodrigues (psicólogo clínico e psicoterapeuta)

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