O instinto da sobrevivência

Desperdiçamos demasiado tempo agarrados ao medo e à dor

O princípio da natureza humana reside na sobrevivência e os seres humanos estabelecem domínios a fim de a garantir: a família, a nação, a raça e a espécie. Talvez por querer assegurar a sobrevivência, sejamos excessivamente curiosos e fascinados pelos relatos de calamidade.

Há uns anos atrás, fazia imensas viagens de carro nas auto-estradas do país, e curiosamente quando havia um acidente na estrada havia formação de filas intermináveis de trânsito. Não era preciso haver vítimas, bastava haver chapa batida e vidros espalhados no chão da estrada, para o trânsito andar a passo de caracol. Abrandamos a marcha, observamos as eventuais causas do acidente, avalia-se as circunstâncias, adquire-se conhecimento e competências, a fim de evitarmos cometer os mesmos erros ou deslizes durante a viagem de regresso a casa.

Da mesma forma, despendemos demasiada atenção e preocupação aos desastres e dramas, assim como há antecipação de cenários catastróficos, em vez de usufruir da felicidade e da gratidão. A desgraça manifesta-se omnipresente no nosso imaginário e no dia-a-dia, basta ligar a televisão, ouvir notícias e ler os jornais.

Na minha opinião, desperdiçamos demasiado tempo das nossas vidas concentrados e agarrados ao medo e à dor. Estes mecanismos de defesa convertem-se em ferramentas de tortura e pânico, em sentimentos de culpa e vergonha. Como bem sabemos, o medo e o sofrimento contribuem significativamente para a perda de qualidade de vida, misturamos o sofrimento com a motivação para vencer; uma coisa é sofrer, impotente, e a outra é expor-se e opor-se ao sofrimento, apelando a todos os recursos e competências.

Uma equipa de cientistas, nos EUA, desde os anos 90, estuda o processo de transformação no qual os indivíduos não só superam o trauma, como ainda conseguem sair da experiência renovados do ponto de vista psicológico, a que designaram de crescimento pós-traumático.

No crescimento pós-traumático, as pessoas recuperam da adversidade, apesar do sofrimento e não por causa dele. A distinção não reside no sofrimento em si, mas da árdua motivação para o compreender e aceitar. As pessoas que já experimentaram o crescimento pós-traumático costumam definir a experiência não tanto pela natureza do acontecimento em si, mas pela profunda perturbação e confusão emocional à qual estiveram sujeitas.

As experiências adversas que mais probabilidades têm de se converter numa oportunidade para descobrir algo de benéfico e melhorar o individuo são aquelas que fortemente nos comovem, que abanam a nossa integridade, que colocam em causa as capacidades mentais, emocionais e espirituais e marcam um antes e um depois nas nossas vidas. O crescimento pós-traumático não é um evento em si, é o resultado de um processo intrínseco de narração (contar a mesma história, varias vezes, utilizando versões diferentes), discernimento e interpretação da adversidade. Os intervenientes saem renovados das experiências negativas por conseguirem adaptar-se a um processo de transformação; assimilamos a desgraça e contextualiza-la, num vasto domínio na história da nossa vida. Esta experiência profunda visa reforçar a valorização que fazemos de nós próprios, reforçar a qualidade dos relacionamentos com as outras pessoas e a visão do sentido do rumo da vida - propósito.

continua na página seguinte: Monitorize o seu crescimento pós traumático.

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