Solidariedade em tempos de crise

Os novos paradigmas que condicionam o apoio e a cooperação com os novos pobres

A pobreza não deixa ninguém indiferente. Principalmente quando começa a materializar-se à nossa frente, vinda dos cantos mais inesperados.

Pode ser a vizinha do lado. Um colega. Um familiar. São os novos pobres, como já se lhes chama.

Face a esta realidade e, mais do que nunca, solidariedade é a palavra de ordem.

Até porque as necessidades sociais são muitas. E também já são muitos os que se empenham em ajudar quem precisa. Como? Essa é a parte mais fácil. Junte-se a este movimento. O peditório
repete-se duas vezes por ano.

Doutores devidamente trajados e caloiros apalhaçados enchem as ruas da baixa do Porto com um objetivo bem diferente das tradicionais praxes estudantis, reunir donativos para instituições de solidariedade. O último dia da beneficência, realizado em meados de outubro de 2011 não foi exceção. Mas teve uma particularidade curiosa que não deixou ninguém indiferente.

Os fundos recebidos ultrapassaram os 3.600 euros, o valor mais alto dos últimos oito anos, um montante que surpreendeu até as expetativas mais exigentes dos que se envolveram nesta iniciativa de solidariedade. O momento de crise económica atual não terá sido alheio ao facto. «Houve mais de 400 estudantes envolvidos na iniciativa, um número substancialmente superior ao de anos anteriores», explica Luís Rebelo, presidente da Federação Académica do Porto.

Além disso, também a reação de quem foi abordado se revelou muito positiva. «As pessoas
mostram-se, de facto, preocupadas com a situação e, se calhar, quem pode dar também se sente mais compelido a fazê-lo», arrisca. «Percebem que, nesta altura difícil, vão aliviar um pouco associações como a Ajudaris, uma das beneficiárias do peditório», sublinha ainda Luís Rebelo.

Fragilidade social

os números divulgados pelo presidente da cáritas, eugénio fonseca, não deixam margem para dúvidas. «No primeiro semestre de 2012, em todas as cáritas diocesanas espalhadas pelo país, registou-se o atendimento a mais de 30 mil famílias. Se olharmos ao atendimento a pessoas singulares, o número ultrapassa os 88 mil, o que representa um aumento de 64% relativamente ao mesmo período do ano anterior». Isto sem contar com os atendimentos das 4350 paróquias portuguesas.

Em entrevista à Saber Viver, o secretário de estado da solidariedade e da segurança social, Marco António Costa, identificou os grupos de risco. «Os desempregados, os jovens à procura de um primeiro emprego, os deficientes e os idosos são os grupos sociais que merecem uma atenção mais cuidada. Além disso, não apenas em portugal mas um pouco por toda a europa, assiste-se ao emergir de um conjunto de fenómenos de fragilidade social em pessoas que, ao serem vítimas do desemprego, veem o seu plano de vida ser desestruturado», sublinha.

O programa de emergência social (PES) teve, por isso, um reforço de 251 milhões de euros em 2012. Ainda assim, Eugénio Fonseca está longe de se mostrar otimista, prevendo que o cenário deva agravar-se em 2013, «devido aos cortes anunciados, como o subsídio de desemprego e o rendimento social de inserção». Além disso, há condicionantes que já se fazem sentir, como a diminuição do valor dos mecenatos.

«Algumas empresas têm diminuído os apoios financeiros e, por isso, temos de arranjar alternativas», assinala, por seu lado, isabel megre, presidente da Associação Novo Futuro, que acolhe crianças e jovens em risco.

Solidariedade a crescer

«É uma evidência que as pessoas estão cada vez mais conscientes para a noção de partilha e de solidariedade. Isto acontece porque as dificuldades entraram na esfera íntima de muitas famílias que, até agora, estariam a salvo. E o desemprego, mais uma vez, tem a sua responsabilidade», explica Eugénio Fonseca. Os dados do Banco Alimentar Contra a Fome são espelho disso mesmo. Apesar da conjuntura e da perda de poder económico dos portugueses, as dádivas mantêm-se a cada nova campanha.

Durante a recolha que decorreu a 1 e 2 de dezembro de 2012, a associação reuniu 2.914 toneladas de alimentos, um número ligeiramente inferior ao conseguido no natal do ano anterior (2.950 toneladas) mas claramente superior ao recolhido em maio. Na campanha de verão, foram angariadas 2.644 toneladas de comida, acrescidas de 72.513 toneladas recolhidas na campanha simultânea pela internet.

«Portugal é muito solidário e temos tido imensos exemplos extraordinários ao longo dos tempos. As pessoas vão-se ajudando umas às outras», refere Isabel Megre. «E, embora com mais dificuldades, vão dando menos mas não deixam de dar», sublinha ainda Isabel Megre.

Essa constatação é também verdade no que diz respeito ao voluntariado. No peditório de dezembro de 2012, o Banco Alimentar contra a Fome reuniu o maior número de pessoas de sempre, com 38.500 voluntários espalhados por 1.663 superfícies comerciais.

O Ano Europeu do Voluntariado, em 2011, deu um empurrão a vários projetos de empresa que permitem que os seus funcionários dediquem algumas horas a atividades de voluntariado. É o caso de Elsa Cruz, que beneficia de uma manhã por mês. Mas a maioria dos voluntários continua a roubar algumas horas aos tempos livres para esse efeito.

Ser voluntário é um compromisso

A contribuição dos voluntários é muito variada e todas as associações reconhecem ser essencial à sua sobrevivência. «O voluntariado sempre foi muito importante para a novo futuro. A direção é toda voluntária mas temos também muitas pessoas que apoiam as crianças, dando explicações,
levando-as aos dentistas, médicos ou ao cinema, por exemplo. E no escritório também temos alguns voluntários assíduos», explica Isabel Megre.

O propósito da Associação Novo Futuro é acolher, em lares familiares, crianças abandonadas, maltratadas ou órfãs e prepará-las para a vida adulta. Vivem em casas da associação (sete em Lisboa e uma em Vila Nova de Gaia), em família, na maioria das vezes também com os próprios irmãos. Fazem uma vida normal e saem quando está garantida a sua autonomia. 

Além dos voluntários diretamente envolvidos no dia a dia das casas, a Novo Futuro conta com pessoas que, durante todo o ano, trabalham na preparação de uma venda anual para recolha de fundos. «Ser voluntário é um compromisso. Cada um disponibiliza o tempo que pode mas, quando se atribui uma tarefa a um voluntário, ela deve ser cumprida», lembra Isabel Megre.

O sentido de responsabilidade social deve ser a motivação maior para o voluntariado, defende também Eugénio Fonseca. Foi o que aconteceu com Maria Portugal. Às sextas-feiras à noite, percorre as ruas da capital com o objetivo de estabelecer contacto com os sem-abrigo e ajudá-los a encontrar alternativas para os seus problemas e a sair da rua. E essa experiência fê-la ter vontade de ir mais longe.

O dinheiro não é tudo

Percebendo que não havia qualquer resposta para famílias que se viam sem teto, pelo menos nenhuma que lhes permitisse manterem-se unidas, criou o projeto hotel social, que foi selecionado pela Câmara Municipal de Lisboa para ser sujeito a votação, no âmbito do orçamento participativo. Contudo, não foi o projeto selecionado.

Ajudar uma associação pode passar por fazer um donativo, contribuir com um projeto gratuito ou dar umas horas de tempo semanal ao voluntariado, muitas vezes concentrado em ações de recolha de fundos. Tudo isso é importante para que o trabalho das instituições possa avançar.

O dinheiro, embora essencial, não é efetivamente tudo. Todas as associações contam com a dedicação e o tempo de voluntários e algumas até fazem disso o seu único propósito, como é o caso da Coração Amarelo.

A associação, com pólos espalhados por várias cidades do país, tem por missão combater a solidão dos idosos. Sempre que se depara com problemas de índole financeira ou outros, reencaminha os casos para outras instituições.

«Aquilo que nós oferecemos é companhia, afeto e amizade», explica Marisa Galante, assistente social ligada à Associação Coração Amarelo, em Lisboa. E fá-lo com critério. Sempre que recebe um pedido de ajuda, cruza os interesses da pessoa com os dos voluntários para facilitar a empatia.

A associação faz corresponder os interesses entre voluntários e beneficiários para cimentar as amizades. Rita Braz de Oliveira confessa que gostar de bichos ajudou a quebrar o gelo. O sorriso que recebe a cada despedida é um motivo de orgulho.

Lojas solidárias

Reúna a roupa que já não usa e os brinquedos que já foram postos de lado e dirija-se a estas lojas onde nada tem preço. Calçado, vestuário, livros, brinquedos e material de puericultura e géneros alimentares enchem as prateleiras da Loja Solidária de Camarate. São bens novos ou usados, doados por particulares e empresas, muitos angariados através de campanhas de solidariedade.

E nada ali tem preço. Por uma razão. Os clientes são só pessoas ou famílias sinalizadas pela ação social da câmara municipal, com graves carências económicas. O projeto abriu portas em fevereiro de 2011 e é já o terceiro do género, só no concelho de Loures, que inaugurou a primeira loja em 2010, em Sacavém.

À semelhança do que tem acontecido um pouco por todo o país, uma vez que Vila Nova de Gaia inaugurou recentemente também mais um espaço, «trata-se de uma resposta social que já está na primeira linha do apoio que prestamos às famílias em situação de carência financeira», explicou Sónia Paixão, vereadora com o pelouro da Ação Social.

Ser voluntário

Quatro passos essenciais para quem quer realmente ajudar os outros:

1. Tomar a decisão Querer ajudar não chega, é preciso ter presente que se trata de um compromisso e que é para ser cumprido. Faça um cálculo realista de quanto tempo livre tem e informe, com honestidade, a associação que pretende ajudar.

2. Quem ajudar e como? Procure conciliar a sua vocação com o propósito da associação. Informe-se sobre as associações e o tipo de ações que realizam. Consulte o site Bolsadovoluntariado.pt para conhecer as diferentes associações e ficar a par das necessidades de cada uma.

3. Organizar o seu tempoUma ação de voluntariado deve ter, na sua agenda, a mesma importância que uma reunião de trabalho. Seja realista e cumpra os objetivos a que se propõe.

4. Gerir expetativas O retorno é muito gratificante mas nem sempre é imediato ou corresponde às expetativas de quem inicia um trabalho voluntário. Não se deixe desmoralizar e seja persistente.

Texto: Helena Viegas com Eugénio Fonseca (presidente da Cáritas), Isabel Megre (presidente da Associação Novo Futuro), Luís Rebelo (presidente da Federação Académica do Porto) e Marco António Costa (secretário de Estado da Solidariedade e da Segurança Social)

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