Porque discutimos no Facebook?

Muitas pessoas escondem-se por detrás do ecrã do computador ou do smartphone para dizer aquilo que nem sempre tem coragem de dizer frente a frente.

Há quem, no Facebook, goste de lançar temas polémicos. Entre um like e/ou uma opinião mais controlada no mural de um amigo, do que gostam realmente é de criar grupos de discussão que, por vezes, chegam a níveis de agressão verbal e insultos pessoais. Mas, afinal, quem se esconde por detrás destas personalidades bélicas? Não precisamos de muito tempo nem de uma pesquisa muito aprofundada para perceber que o Facebook é um local de eleição para comentários polémicos e discussões acesas online.

Palavras e trocas de mensagens que, muitas vezes, servem apenas para satisfazer necessidades inconscientes de pessoas que, no fundo, «procuram gerir sentimentos de raiva, desgosto, inveja ou ressentimento, desta forma», analisa Cristina Freire, psicóloga clínica e de saúde. Por vezes, basta um clique para atualizar o nosso feed de notícias do Facebook e nos depararmos com um post mais polémico que em poucos minutos, gerou mais de uma centena de comentários.

Ainda há pouco tempo, um comentário lançado por um colega jornalista no seu mural, que declarava a sua oposição à ideia de que «os filhos devem ser educados a chamar os pais de mamã e papá, pela carga afetiva que estes diminutivos acarretam, segundo alguns especialistas», alimentou uma discussão durante um dia inteiro, gerando 260 comentários, alguns deles, com ofensas diretas ao jornalista que defendia que «educar uma criança, a dizer papá e mamã, não é transmitir-lhe valores de afetividade mas, sim, de pieguice e mau gosto».

Há pessoas que gostam de ter uma voz ativa em determinados assuntos, mais ou menos polémicos, e de expressar a sua opinião vincadamente, mas há outras que o fazem de uma forma desmedida e, em alguns casos, apenas para «irritar ou mesmo criar conflito», sublinha ainda. Mas o mais preocupante é que por detrás destes comentários ofensivos podem esconder-se «personalidades sádicas, narcísicas e maquiavélicas», alerta a psicóloga Cristina Freire.

O terreno preferido para o conflito

Quando questionada sobre o que leva as pessoas a fazer comentários negativos e, sobretudo, agressivos, Cristina Freire afirma que o belicismo no Facebook é um fenómeno que está a aumentar e que aumenta sempre em momentos de maiores crises financeiras, de valores, de afetos e de falta de esperança.

«Estes são alicerces fundamentais para a saúde mental de qualquer sociedade e que, faltando, provocam grande desamparo, deixando uns fragilizados e prontos a aceitar os maus tratos alheios e os que já não tinham boa estrutura e caráter a serem mais mal tratadores, agora numa versão virtual e, por vezes, escondidos no anonimato», explica a especialista.

Se, por um lado, são as circunstâncias sociais que aumentam a propensão para o belicismo online, o Facebook também reúne as condições ideais que dão asas aos comentários bélicos. Afinal, estamos protegidos pela distância física (e não só) que qualquer rede social permite. Inês Pereira, socióloga, especialista em redes sociais, refere que o quanto deixamos transparecer os sentimentos agressivos também varia, de acordo com a situação social específica.

«Se estiver a falar com o meu chefe, evito a agressividade por receio de represálias. Se estiver a falar com o meu maior amigo, também tento controlar o belicismo, em nome de tudo o que já passamos juntos», refere. «Um meio como o Facebook junta frequentemente pessoas que se conhecem apenas superficialmente ou que nunca se viram pessoalmente, com as quais comunicamos à distância, sem sinais não verbais», sublinha.

«A impunidade é maior, os laços emocionais menores e a distância social e geográfica muito maior», acrescenta ainda a especialista. De acordo com os especialistas, esta guerra online, a que tantas vezes assistimos, remonta a um comportamento antigo offline, o bullying.

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