Deslizo

Deslizar não se explica, não se descreve, não se ensina

Não sinto frio nem calor. Esse conceito físico desvanece-se ante a felicidade febril de estar de novo nas ondas. Vem outra. Apanho-a no momento certo. Deslizo depressa, envolta em espuma, embrulhada na energia pura do mar que generosamente se funde na minha. Deixo a imensidão do momento cavalgar-me no peito enquanto desejo fundear em mim todo o poder deste mar.

Cinco da manhã e não conseguia dormir. Demasiado cansada, talvez. Demasiado excitada com todos os planos de um futuro tão próximo quanto repleto de desafios que me apaixonam. Ocorreu-me, mesmo antes da entrega aos sonhos adormecidos, que o entusiasmo está para a alma como a tesão para o corpo. E, cinco horas mais tarde, desperto refeita e pronta para a promessa do bem amado Levante.

Olho as pessoas ao meu redor. Alguns, de prancha como eu, trocam comigo os olhares cúmplices de quem entende aquilo de que a vida deve ser feita. Outros, meio adormecidos ainda, falham tal entendimento. Deslizar não se explica, não se descreve, não se ensina. Deslizar vem de dentro, nasce com o mesmo prazer de quem desce a montanha de skis, ou faz as curvas de mota. Deslizar não é só paixão, adrenalina ou pura emoção: é saber existir em pleno.

Apanho só mais uma. E depois só mais outra. E outra, e outra. Até que me lembro que tenho dois filhos e uma sobrinha, em casa, à espera que o almoço seja posto na mesa. Beijo o mar em nova onda... e deslizo para casa.

Ana Amorim Dias 

artigo do parceiro: Ana Amorim Dias

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