Não fazer controlos oftalmológicos regulares, recorrer à farmácia perante inflamações ou infeções, exagerar no tempo de utilização das lentes de contacto e comprar óculos de sol em locais não certificados.

A maioria de nós comete, pelo menos, um destes pecados capital quanto à saúde dos olhos, aponta o oftalmologista Luís Gouveia Andrade, com base nas suas observações em consulta. Porque muitos erros têm na base ideias falsas, pedimos-lhe para esclarecer algumas crenças comuns:

Comer cenoura ajuda a ver melhor?

É efetivamente um facto. Uma dieta equilibrada é fundamental para o organismo, incluindo para os olhos. As cenouras são uma importante fonte de vitamina A, essencial na função da retina e na formação das imagens.

Ler com pouca luz ou à luz de velas é prejudicial?

Estamos aqui perante um mito. Estas atividades podem causar cansaço ou dores de cabeça, mas não prejudicam a função dos olhos.

Olhar diretamente para o sol danifica os olhos?

É verdade. A retina, a camada mais sensível dos olhos, pode ficar permanentemente danificada pela exposição direta ao sol, o que é válido também para os eclipses.

Ler em transportes pode causar descolamento da retina?

Estamos aqui perante outro mito. Ler em andamento causa cansaço porque obriga a um constante reajustamento do ponto de focagem e a movimentos oculares de compensação, mas não provoca descolamento da retina. Este
associa-se a traumas diretos do globo ocular ou a esforços físicos muito intensos.

As lentes de contacto coloridas são prejudiciais?

Mais um mito. Este tipo de lentes de contacto difere das outras apenas na cor. Todas elas, se usadas com as devidas normas de higiene e com uma gestão sensata de tempo, podem ser bem toleradas, desde que não existam contraindicações indicadas pelo médico. Para diminuir o risco de desenvolver intolerância às lentes de contacto, secura ocular ou alergia, respeite o tempo de vida estipulado: diário, quinzenal ou mensal.

Olhar de perto durante muito tempo seguido faz mal ao longe?

Faz. É um facto! A visão de perto implica a contração, dentro dos olhos, de
um conjunto de músculos que demoram a relaxar quando desviamos o olhar
para longe. Assim, olhar para o perto faz com que a visão para o longe
não fique imediatamente disponível. O tempo de recuperação é tanto maior
quanto mais velhos somos.

Os exercícios oculares ajudam a melhorar a vista cansada?

Esta questão é um mito. A chamada vista cansada, muito comum a partir dos 40 anos, resulta
do enfraquecimento progressivo dos músculos que comandam a lente situada
dentro dos olhos.

É um sinal de envelhecimento progressivo e
inevitável, embora surja em idade variável; não está demonstrado que
exercitar os olhos o possa impedir ou retardar.

Só os óculos de sol vendidos em oculistas garantem proteção?

É verdade. As lentes comercializadas nas lojas de ótica cumprem todos os
requisitos de qualidade e proteção que os olhos merecem. Esta garantia é
essencial, pois lentes de má qualidade podem facilitar, em vez de
evitar, a entrada de radiações ultravioleta, acelerando inúmeras doenças
oculares. A proteção anti-UV das lentes deve ser próxima dos 100 por
cento e se os óculos tiverem uma armação generosa protegem ainda melhor.

A gravidez e a menopausa aumentam o risco de doenças visuais?

Trata-se de mais um mito. Uma gravidez acompanhada de diabetes ou de hipertensão poderá ter
implicações visuais, tal como uma menopausa não devidamente compensada
pode causar queixas de secura ocular e de outras mucosas. Mas uma
gravidez normal e uma
menopausa bem acompanhadas não têm impacto na visão.

Fumar e/ou ter diabetes piora a visão?

É verdade. A diabetes é uma das principais causas de cegueira. O
acompanhamento oftalmológico regular e o controlo adequado dos níveis de
açúcar são absolutamente indispensáveis para que a diabetes ocular seja
precocemente detetada e tratada. O tabaco, ao causar ou acelerar
alterações vasculares e alterar as características do próprio sangue
(tornando-o menos capaz de transportar oxigénio), compromete a nutrição
das diversas camadas que compõem os olhos, contribuindo para uma pior
saúde visual.

As crianças só devem ir ao oftalmologista quando vão para a escola?

Não, não devem. É mais um mito. Numa consulta realizada entre os três e os quatro anos há maiores probabilidades de detetar e tratar com sucesso eventuais problemas
visuais que, numa idade mais tardia, podem resultar no olho
preguiçoso, com consequências irreversíveis na função visual.

A tensão ocular depende da tensão arterial?

Não. Estes parâmetros são independentes um do outro.

A tensão ocular é
um dado importante obtido durante a consulta de oftalmologia, sobretudo
depois dos 40 anos, sendo útil para o diagnóstico do glaucoma.

Só a miopia pode ser tratada com laser?

Outro mito! As tecnologias laser atuais corrigem com sucesso a miopia, a hipermetropia e o astigmatismo, mesmo nas formas mistas, nomeadamente de miopia ou hipermetropia com astigmatismo.

 Campeão dos mitos

«Vejo bem, não preciso de ir ao médico» é uma afirmação muito comum. Como explica Luís Gouveia
Andrade, «as doenças que despertam mais queixas em oftalmologia são as
mais simples, como conjutivites ou alergias, as mais graves não têm
sintomas ou sinais relevantes». Por exemplo, no glaucoma, a perda de
visão só surge «quando os danos já são irreparáveis», sublinha o especialista.

Sintomas como
visão turva, dor ocular e olho vermelho merecem investigação, mas, mesmo
sem queixas, deve consultar o oftalmologista anualmente. Sabia que não existe qualquer relação entre a cor dos olhos e o risco de
doença? «Mesmo a teoria de que as pessoas de olhos claro são mais
sensíveis à luz (fotofobia) não tem base científica», afirma o
oftalmologista.

Texto: Rita Miguel com Luís Gouveia Andrade (médico oftalmologista)