Saúde cardiovascular feminina

As mulheres constituem um dos principais grupos em risco. Saiba porquê e proteja-se desde já

Em 2010, morreram em Portugal 35 mil pessoas devido a doenças cardiovasculares, um valor que corresponde a um terço de todas as mortes verificadas.

Destas, cerca de 19 mil eram mulheres, o que significa que este tipo de problemas mata nove vezes mais mulheres do que o cancro da mama. A par desta realidade, uma outra contribui para a agravar.

«As mulheres estão bem sensibilizadas para fazer prevenção das doenças do foro ginecológico, mas não das doenças cardiovasculares, devido à ideia errada de que estas doenças atingem sobretudo os homens», denuncia Manuel Carrageta, presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia. Para pôr um ponto final nos mitos que alimentam as estatísticas, partimos em busca das especificidades da saúde cardiovascular feminina.

Coração sob suspeita

Hipertensão arterial, colesterol, diabetes, tabagismo, inactividade física, obesidade, síndrome metabólica e stress são os principais factores de risco cardiovascular em ambos os sexos, mas envolvem especificidades femininas. Por exemplo, enquanto nos homens a diabetes aumenta o risco de ataque cardíaco duas a três vezes, nas mulheres este aumenta três a sete vezes.

Por outro lado, algumas etapas da vida da mulher envolvem riscos acrescidos. «A partir da menopausa, o risco de enfarte do miocárdio (ataque cardíaco) aumenta muito, o que está relacionado com a descida dos estrogénios, a hormona feminina que tem um efeito protector», explica Manuel Carrageta.

Segundo a American Heart Association, em idades avançadas o sexo feminino tem maior prevalência de acidente vascular cerebral (AVC), e a terapêutica de substituição hormonal e a gravidez contam também para este problema. As linhas de orientação desta associação passaram recentemente a incluir as mulheres com complicações na gravidez, nomeadamente diabetes gestacional e hipertensão induzida pela gravidez no grupo de risco.

Sintomas e diagnóstico

Ao risco de desenvolver doenças, somam-se dificuldades em detectá-las. «Existem problemas de diagnóstico por os sintomas na mulher serem mais difíceis de valorizar, nomeadamente por terem sintomas menos orientadores para o diagnóstico de cardiopatia isquémica», explica Manuel Carrageta. O caso do enfarte do miocárdio é paradigmático.

Enquanto nos homens o sintoma mais comum é a dor ou pressão no centro do peito, nas mulheres é frequente ela ser substituída sintomas como desconforto na parte superior do corpo (por exemplo,braços, pescoço ou estômago), falta de fôlego, náuseas, vómitos, suores frios, dor nas costas ou na mandíbula.

Algumas técnicas de diagnóstico também são menos eficazes nas mulheres. «Por exemplo, a coronariografia (introdução de um cateter e injecção de contraste para visualizar as artérias coronárias e detectar alguma obstrução) é muitas vezes menos concludente na mulher devido a particularidades das lesões das artérias coronárias que as tornam menos visíveis».

Mudar para melhor

Melhor que esperar que a ciência desenvolva métodos e técnicas de diagnóstico e tratamento mais adaptados à saúde feminina, é empenhar-se activamente na prevenção. O plano passa por minimizar os factores de risco, adaptando o seu estilo de vida através de medidas que vão desde a alimentação, à actividade física, controlo de peso, fumo e stress.

Ao afastar o colesterol, tabaco, diabetes, obesidade, hipertensão, stress e sedentarismo, estará a evitar a aterosclerose. Esta doença, que consiste na acumulação de depósitos de colesterol no interior das artérias, como dificulta a circulação aumenta o risco de obstrução, o que está na origem da maior parte dos enfartes do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais.

Vigiar a saúde

A segunda vertente deste plano de acção consiste em vigiar a sua saúde. Além de fazer análises ao sangue anualmente, com a avaliação médica sobre os níveis de colesterol e triglicéridos, é essencial que meça a sua tensão arterial pelo menos uma vez por ano ou mais frequentemente se for fumador ou tiver antecedentes familiares de doença cardiovascular.

Na verdade, esta é a única forma de diagnosticar a hipertensão, um problema que inicialmente é assintomático. Este problema implica, contudo, um elevado risco de doença cardiovascular, especialmente de AVC. Medir a tensão irá afastá-la da lista de 50 por cento de casos não diagnosticados no nosso país e consultar o seu médico regularmente afastá-la-á dos 11 por cento de casos não controlados.

Plano de ação

Medidas para uma saúde cardiovascular ideal:

Alimentação

- Tome um pequeno-almoço rico em cereais ou pão integrais, fruta e lacticínios magros.
- Consuma cinco a seis porções de fruta e vegetais por dia.
- Ingira alimentos ricos em fibra vegetal.
- Coma peixe, especialmente gordo, duas ou mais vezes por semana.
- Privilegie o azeite face a outras gorduras.
- Beba moderadamente vinho às refeições (um copo de 2,5dl por dia).
- Limite a ingestão de bebidas alcoólicas, sal, açúcar e gorduras trans e saturadas.

Atividade física

- Pratique 150 minutos de actividade física moderada ou 75 minutos de actividade física vigorosa por semana.

Stress

- Aprenda a relaxar e a desligar dos problemas. Se necessário, faça ioga ou meditação.

Fumo

- Deixe de fumar. Nas mulheres, este hábito é responsável pela perda de cerca de 15 anos de vida.

Vigie a sua saúde

- Mantenha a tensão arterial inferior a 120/80 mm Hg sem recorrer a medicação.
- Mantenha os níveis de colesterol inferiores a 200 mg/dl sem recorrer a medicação.
- Mantenha os níveis de glicémia de jejum inferiores a 100 mg/dl sem recorrer a medicação.
- Mantenha o seu Índice de Massa Corporal (IMC) inferior a 25 kg/m2.

Texto: Rita Miguel com Manuel Carrageta (cardiologista e presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia)

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