Quem tem medo dos antidepressivos?

Há cada vez mais mulheres dependentes deste tipo de farmacos

Chegam tristes às consultas. Queixam-se de stress e de ansiedade. Por estas razões, há cada vez mais mulheres a serem medicadas com antidepressivos. O importante é diminuir-lhes o sofrimento, dizem os médicos. Mas muitas ainda receiam admiti-lo. «Há dois anos fui vítima de uma tentativa de homicídio e entrei em depressão profunda, pelo que o neurologista que me acompanhava receitou-me antidepressivos», recorda Joana Pires (nome fictício), 32 anos.

«Nunca mais os deixei, até hoje», desabafa, enquanto explica que não lhe foram dadas alternativas ao medicamento nem indicados tratamentos complementares concretos. O médico disse-lhe, «muito por alto», que talvez fosse importante ter o acompanhamento de um psicólogo. Mas ela não tinha «posses financeiras para o fazer», queixa-se. Por isso, continuou a vida, apenas com o seu comprimido.

O mais importante, diz, «era acalmar a tristeza, a ansiedade e o pânico, aquela sensação de perigo à minha espera». Conta que quando os sintomas ainda estavam ativos passava o tempo a pensar que «não servia para nada», teve tendências suicidas. De acordo com documentação científica, os pensamentos negativos estão muito «presentes no juízo que a pessoa deprimida» faz de si própria e do futuro.

A depressão é uma doença mental caraterizada por «tristeza profunda ou prolongada que arrasta consigo uma perda de interesse geral e de energia», sendo mais comum nas mulheres. Um estudo de 2000 realizado pela Organização Mundial de Saúde mostrou, por exemplo, que a prevalência de episódios de depressão unipolar é de 3,2% nas mulheres e de 1,9% nos homens. Paula Medroa (nome ficticio), 40 anos, é mais uma mulher que não resistiu a uma sequência de acontecimentos negativos na sua vida.

No seu caso, associados a doenças graves na família, alterações no emprego e salários em atraso. Depois de um episódio de ansiedade e stresse que a levou às urgências do hospital, o médico de família receitou-lhe antidepressivos. Tomou-os, mas sempre com a ideia de que «não queria depender de químicos, acreditava que havia outra solução», observa. Encontrou-a quando decidiu pedir acompanhamento psicológico e começou a terapia.

«Foi só a partir daí que passei a sentir melhoras. Os meus problemas não se resolveram com a medicação, que apenas adormecia as verdadeiras causas», refere. Abandonou os antidepressivos por sua conta e risco no final do ano passado, três meses depois de ter começado a medicação. Diz que agora está «a aprender a gerir os problemas». Sente-me mais forte e segura.

Tomar antidepressivos é sinal de fraqueza?

Hoje, diz-se com naturalidade «estou deprimida» ou «vou ao psicólogo», mas a depressão continua a ser estigmatizada. Por isso, há quem esconda que toma antidepressivos até da própria família. Joana Pires contou a algumas colegas de trabalho que estava a ser medicada para a depressão e arrependeu-se.

«Fui julgada e criticada, ao ponto de sentir vergonha de mim», diz. Fala do desejo de deixar os antidepressivos, mas não há previsão médica nesse sentido. Terá de voltar ao centro de saúde no próximo mês para levantar mais uma receita.

O estigma em torno das doenças mentais tem vários aspetos, segundo o psiquiatra Pedro Varandas, secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental. «Relativamente aos antidepressivos, a ideia principal é considerar a necessidade da sua toma como uma fraqueza individual», diz.

Mas a verdade é que eles não são apenas «uma das armas terapêuticas para o tratamento da depressão, também são eficazes, baratos e acessíveis, o que é uma vantagem». De qualquer forma, «só devem ser utilizados nas indicações corretas, e sempre que possível complementados com outra forma de tratamento não farmacológico», recomenda o psiquiatra.

A tristeza leva cada vez mais pessoas à consulta, garante o médico de família Rui Nogueira,
vice-presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, explicando que, nestes casos, a utilização de fármacos antidepressivos é frequentemente indispensável. «Há necessidade de abordarmos estas situações clínicas de forma a diminuir o sofrimento das pessoas», salienta. Não acredita que haja abusos na prescrição de antidepressivos. «O que há é mais desemprego e instabilidade social», diz.

«As famílias vivem com mais problemas e têm cada vez menos capacidade para resolvê-los. Por outro lado, há um trágico envelhecimento da população», constata. Se este quadro social está a contribuir para aumentar o número de vítimas de depressão não se sabe. Mas dados fornecidos pela consultora IMS Health indicam um aumento na venda de antidepressivos/ estabilizadores do humor.

Em 2012, foram vendidas 7.501.514 embalagens (mais 12% que em 2009) e, em 2013, só até agosto, já tinham sido vendidas 5.145.927. Quanto à segmentação das vendas por sexo neste período, a relação é de 75% mulheres para 24,6% homens. Foram as mulheres com mais de 65 anos que compraram mais antidepressivos (38,3%), seguidas das mulheres dos 40 aos 54 anos (26,6%) e dos 55 aos 64 anos (18,7%).

Encontrar as causas da depressão

Rui Nogueira confirma que os seus pacientes com sinais de depressão ou que já foram diagnosticados com a doença são maioritariamente mulheres. «Cerca do dobro», aponta. Também comprova que algumas sugerem-lhe a prescrição de antidepressivos. «É frequente. E pode ser relevante apesar de não ser determinante», afirma. Neste contexto ou não, sempre que os receita esclarece sobre a necessidade da sua utilização e da ação esperada.

«A informação faz parte da prescrição de qualquer medicamento. E, neste caso, até da necessidade de continuidade de acompanhamento clínico», diz, concluindo que o período de tempo limite para tomar antidepressivos encontra-se definido pela comunidade científica. «Há definições de padrões, cabe ao médico adaptá-los a cada caso clínico», defende. Os antidepressivos não resolvem o problema, ajudam a reduzir os sintomas causados por ele.

Por isso, muitos médicos aconselham os seus doentes a procurar a ajuda de um psicólogo. Entre as mulheres (e homens) que chegam medicadas ao consultório da psicóloga clínica Filomena Piriquito, algumas inserem-se neste grupo. «Foram aconselhadas pelos seus médicos, e aceitaram procurar ajuda de um psicólogo para lidar com as situações que deram origem aos sintomas», diz a psicóloga. Mas também há as que chegam por iniciativa própria, «por sentirem que a melhoria do seu estado é apenas aparente, e que a medicação não resolve o problema de base».

Nas sessões, procura-se «chegar às causas da depressão, à origem do problema, para depois encontrar estratégias para lidar com ele», explica Filomena Piriquito, esclarecendo que estas «nem sempre são percebidas». Enquanto não consegue «desenvolver as competências para lidar com a origem do problema», por vezes, a mulher «sente medo de deixar a medicação», sublinha.

Mas à medida que se fazem progressos, tudo isso vai deixando de fazer sentido. Recupera-se a energia e o gosto pela vida. A maioria recupera da depressão, defende mesmo a generalidade dos especialistas. «Passei por momentos terríveis mas depois, com medicação e ajuda, consegui dar a volta por cima», comprova Sónia Alves, vítima de depressão durante 17 meses.

Texto: Júlia Serrão com Pedro Varandas (psiquiatra, secretário-geral da sociedade portuguesa de psiquiatria e saúde mental), Rui nogueira (vice-presidente da Associação portuguesa de medicina geral e Familiar) Filomena Piriquito (psicóloga clínica)

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