Por que é que os neurónios dos doentes de Parkinson morrem?

Investigadora portuguesa identifica novo alvo de tratamento para esta doença

Sandra Morais Cardoso, investigadora no Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra, venceu a segunda edição do Prémio Janssen Neurociências, no valor de 50 mil euros, que distingue a produção nacional de conhecimento científico na área.

Em causa está o trabalho que permitiu identificar um novo alvo terapêutico na doença de Parkinson.

«Tentámos perceber por que é que os neurónios dos doentes de Parkinson morrem. Identificámos, dentro das células, um alvo que nos parece importante. Se desenharmos moléculas que atuem nele, conseguimos, pelo menos, retardar a progressão da doença», explica a especialista que, em entrevista à Prevenir, revela como a nova descoberta pode ajudar a combater uma doença que afeta cerca de quatro milhões de pessoas em todo o mundo, um número que pode duplicar até 2040.

O que descobriram na investigação que levaram a cabo?

Descobrimos que a alteração das mitocôndrias observada nas células dos doentes de Parkinson induz a ativação de uma enzima-chave (Sirtuína 2). Esta enzima é responsável pela modificação da tubulina, uma peça fundamental dos microtúbulos do neurónio que ligam os componentes dos neurónios e permitem o transporte no seu interior.

Quais as consequências desse processo?

Como essas vias estão interrompidas, o transporte é pouco eficiente. Isso compromete os mecanismos de controlo da célula (como a autofagia), fazendo com que vários componentes celulares se acumulem, bem como o funcionamento dos neurónios.

Que solução identificaram para o combate à doença?

Ao utilizarmos uma molécula (NAP) que atua ao nível dos microtúbulos, verificámos melhorias no tráfego celular e um decréscimo na acumulação de componentes lesivos, como proteínas e mitocôndrias disfuncionais. Concluímos que o processo de transporte dependente de tubulina nos neurónios é um alvo terapêutico para a doença de Parkinson.

O que se segue agora?

Estamos [em 2014] a aplicar a molécula em modelos celulares. Achamos que poderá ser administrada por via intranasal, como spray. A etapa seguinte é fazer ensaios pré-clínicos em animais. Vai demorar, pelo menos, dez anos, se tudo correr bem, até podermos fazer ensaios em humanos.

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