Os conselhos de Valentín Fuster para um coração em forma

Entrevista exclusiva com o emblemático presidente da Federação Mundial do Coração

Vive nos Estados Unidos da América, mas vê o seu trabalho reconhecido por todo o mundo. Valentín Fuster é considerado atualmente um dos mais prestigiados cardiologistas do planeta.

Já realizou inúmeros estudos sobre as doenças cardiovasculares e editou outros tantos livros científicos sobre saúde. Mas não é esse o tema central da animada conversa que teve com a Saber Viver.

Em direto de Nova Iorque e em exclusivo para Portugal, Valentín Fuster revela às mulheres portuguesas as melhores estratégias para manter o coração em forma. Conselhos de um especialista que se preocupa com a sua saúde e que acredita que nunca é tarde para começar a tratar de si. E que tal iniciar esse processo agora?

Quais são os fatores de risco das doenças cardiovasculares?

Existem seis fatores principais, dois de ordem física (tensão arterial e perímetro do abdómen), outros dois relacionados com químicos, como o perfil lipídico (em especial colesterol e glicemia) e diabetes. E os restantes dependem de dois hábitos, o tabaco e o sedentarismo. Se vigiar bem todos eles o risco é reduzido. Por outro lado, se reunir dois ou três destes fatores de risco, a probabilidade de vir a ter um enfarte é elevada, cerca de mais 20 por cento num período de dez anos.

Como podemos mantê-los sob controle?

No caso da tensão arterial, por exemplo, deve verificá-la pelos menos uma vez por ano. Toda a gente deveria saber o valor da sua tensão arterial no ano anterior. Os níveis de colesterol e diabetes devem também ser vigiados uma vez por ano e controlados caso se registe alguma alteração. Em termos de atividade física, o ideal é praticar quatro vezes por semana, pelo menos durante meia hora. E o tipo de exercício mais interessante do ponto de vista da saúde é o aeróbico.

O que determina o sucesso da prevenção?

O mais importante é estar pronto para compreender que a saúde é uma prioridade. Não adianta ter uma pessoa a dizer-lhe constantemente o que deve fazer se não está mentalmente preparada para mudar.

Num dos seus livros refere que pode ocorrer aquilo a que chama «um intervalo de morte» no processo de alteração de hábitos. De que se trata?

Infelizmente, muitas pessoas começam a mudar os hábitos e, depois, a certa altura sentem que estão a cumprir tudo à risca e esse é o momento de perigo, porque aí tendem a abandonar os bons hábitos. É comum começarem com grande entusiasmo. O problema surge quando ganham confiança e convencem-se que já controlam a situação.

Quanto tempo podemos levar a atingir o peso certo ou deixar de fumar?

Acredito que tanto perder peso como parar de fumar devem ser processos graduais. Para a perda de peso aconselho sempre entre 450 a 900 gramas por mês e não mais do que isso. Se ganhar autoestima conseguirá cumprir o objectivo e o mesmo se aplica com o tabagismo, algumas pessoas podem demorar um ano, outras uma semana.

O desporto é uma boa ferramenta para perder peso?

Em relação ao desporto há um mal-entendido. Muitas pessoas pensam que se praticarem exercício perderão peso, mas não é assim tão linear. O exercício físico ajuda-a mentalmente, torna-a mais saudável através da libertação de hormonas e poderá talvez levá-la a perder algum peso. Mas, para uma perda eficaz, o importante é comer menos.

É errado pensar que hoje pode exagerar no almoço porque amanhã praticará exercício durante meia hora. As coisas não funcionam desta forma, porque as calorias que ingere serão sempre superiores às que irá gastar no exercício.

Qual é a melhor idade para iniciar uma atividade física?

Pode começar em qualquer altura da vida. Nunca é tarde. É sabido que preservar a saúde traz benefícios em termos de longevidade. Por isso, mesmo que tenha 70 anos, vale a pena começar porque poderá viver mais tempo.

É verdade que a motivação para a prática de exercício varia consoante o sexo?

Tradicionalmente as mulheres tinham mais predisposição para cuidar de si, mas agora temos notado que são cada vez mais os homens a praticar exercício. De qualquer forma, gostaria de alertar as mulheres para reservarem mais tempo para si e ficarem em forma, embora seja por vezes difícil pelas responsabilidades familiares que assumem.

Por que é tão difícil perder peso ou mantê-lo a um nível saudável?

Porque as pessoas sempre que pretendem perder peso querem perdê-lo num dia. Mas se decidir perder peso, como referi, na ordem dos 900 gramas ou um quilo por mês aumenta a sua auto-estima e a motivação ao perceber que está a conseguir cumprir o objectivo. Assim é que se deve fazer.

Contar as calorias pode ajudar-nos a controlar a balança?

As pessoas devem comer menos e sobretudo ter uma alimentação variada. Na minha opinião é dado demasiado ênfase às calorias. Além disso, é algo que não é possível contar ou avaliar com precisão.

Como descreveria uma boa dieta?

O que importa, acima de tudo, é a diversidade. Seguir uma dieta que inclua todos os nutrientes e não ficar obcecado por um determinado alimento. Aconselho também a evitar alimentos ricos em gordura (como alguns tipos de carne) e a dar mais ênfase ao peixe e carne branca como o frango. O mais importante é aquilo a que chamamos a comida Picasso, ou seja, uma dieta colorida, que inclua fruta e vegetais de todas as cores...

As pessoas devem dar valor às cores na sua alimentação, pois é aí que se encontram os antioxidantes. No que respeita ao coração, um dos piores receios das pessoas é sofrer um enfarte.

Como podemos saber se uma dor que sentimos no peito é perigosa?

A dor no peito é algo que toda a gente pode ter, por isso, quando sentir uma semelhante a outras que já sentiu não há razão para alarme. O problema surge quando tem outros sintomas que nunca experienciou antes, como náusea, mal-estar ou uma dor no peito persistente, que dure mais de 15 a 30 minutos. Aí deve dirigir-se rapidamente ao hospital. 

Existem diferenças entre os sintomas de enfarte no homem e na mulher?

Na mulher, muitas vezes, os sintomas são mais subtis, pouco claros. Mas, em ambos os casos, o que aconselho é que se sentir desconforto fora do comum no peito ou na zona superior do abdómen, ao mesmo tempo de outros sintomas como suor, náuseas, mal-estar, fraqueza ou palpitações deve procurar um médico.

É verdade que a atividade sexual pode ter um impacto cardiovascular negativo?

Eu diria que é precisamente o contrário. O sexo é um elemento importante para a qualidade de vida e pode até ser benéfico em fases de stress. O que é completamente diferente se sofre de um problema cardíaco e, neste caso, deve seguir o conselho do médico. Mas são situações distintas que não devem ser confundidas.

Que estratégias nos ajudam a lidar com o stresse?

O stresse é inevitável. A questão está no modo como o gerimos. Há duas estratégias fundamentais, nomeadamente reflexão e relaxamento. Primeiro, habitue-se a tirar tempo para si todos os dias, para pensar. Estes momentos ajudam-na a centrar-se nas verdadeiras prioridades. Segundo, aposte no relaxamento, com exercícios como o yoga. O mundo à nossa volta está em constante conflito e é determinante a forma como lidamos com a situação. Praticar meditação durante dez ou 15 minutos por dia é muito útil.

Que impacto pode ter o stress no coração?

Há dois tipos de stress, o crónico e o agudo. O primeiro faz parte do mundo em que vivemos e pode afectar o coração, se nos leva a adquirir maus hábitos como fumar ou comer mais. Aqui o problema não está no stress em si, mas nos comportamentos que indirectamente pode levar-nos a adoptar e que afectam a saúde. O stress que pode atingir directamente o coração é o agudo, motivado por um acontecimento dramático.

Homens e mulheres enfrentam o stresse da mesma maneira?

As mulheres são muito mais estóicas do que os homens. São capazes de lidar melhor com situações de stress e, de um modo geral, são mais maduras do que os homens.

Quem é Valentín Fuster?

Presidente da Federação Mundial do Coração e do comité científico espanhol do Centro Nacional de Investigação Cardiovascular, Valentín Fuster exerce também as funções de diretor do Instituto Cardiovascular do Hospital Mount Sinai em Nova Iorque.

Investigador reconhecido por inúmeras organizações de cardiologia mundiais, este especialista viu os seus estudos sobre a origem dos acidentes cardiovasculares reconhecidos pelo Prémio Príncipe das Astúrias de Investigação em 1996. Autor de diversos livros científicos sobre cardiologia, reuniu recentemente os principais conselhos para uma vida saudável num livro intitulado «A ciência da saúde».

Texto: Manuela Vasconcelos 

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