O outro lado da pílula

Tem desvantagens para a saúde mas também tem benefícios comprovados pela ciência

É o contracetivo preferido das portuguesas. Mas as suas vantagens vão além de prevenir uma gravidez indesejada.

Quando olhamos para
os números, não há
dúvidas que a pílula
é o anticoncecional
de eleição.

Em portugal, 85% das
mulheres em idade fértil usam
um método de contraceção e
cerca de 65% escolhem a pílula.

Falamos de uma contraceção
hormonal combinada, composta
por estrogénios e progestativos,
que, além de evitar uma gravidez
não desejada, pode oferecer
muitos outros benefícios à mulher. Descubra os efeitos positivos que
este pequeno comprimido tem no
seu organismo e de que forma pode
proteger a sua saúde e melhorar
a sua qualidade de vida:

- Regula o ciclo menstrual

Ao tomar a pílula, a mulher tem
um ciclo menstrual controlado
porque toma um número de
comprimidos exato, com uma
semana de pausa sempre agendada,
que bloqueia a ovulação e controla
a produção hormonal. A mulher tem
assim um «ciclo menstrual artificial», pode dizer-se. Sempre que termina uma caixa e faz
a interrupção da pílula durante os
sete dias previstos, dá-se a chamada
hemorragia de privação.

«Em ciclo
natural, a menstruação pode não ser
tão regular porque a ovulação e a
produção hormonal dependem de
vários fatores, entre eles o sistema
nervoso, pelo que as contrariedades
do dia a dia podem ser suficientes
para alterar a regularidade dos
ciclos», refere a ginecologista-obstetra Teresa Bombas.

- Diminui o fluxo menstrual

Está provado que a toma
da pílula reduz o fluxo menstrual
em cerca de 43%, de acordo
com a sociedade Portuguesa da
contracepção (SPDC). «Esta é
uma vantagem, por exemplo, para
as mulheres que têm anemia por
menstruação excessiva», alerta
a especialista. «Como a perda
de sangue não é uma verdadeira
menstruação, é possível controlar
o volume menstrual com a dose
de estrogénios da pílula.

Por
exemplo, com uma pílula com 15
microgramas de estrogénios, o
fluxo menstrual é menor do que
com uma pílula de 30 microgramas»,
explica a ginecologista. Segundo a
SPDC, a pílula foi, aliás, aprovada
para o tratamento das menorragias
disfuncionais (menstruações
abundantes e prolongadas que
derivam do desequilíbrio do
endométrio).

- Controla a síndrome pré-menstrual e as dores menstruais

A pílula pode também atenuar a síndrome pré-menstrual (sintomas que antecedem a menstruação) que
provoca alterações físicas e psicológicas, como dores de
cabeça, dor na região lombar, sensação de inchaço, falta
de energia, irritabilidade, alterações do sono e do desejo
sexual, além de aliviar as dores menstruais.

Um estudo da
Universidade de Gotemburgo (suécia) avaliou cerca de
900 mulheres, entre os 19 e os 24 anos, e concluiu que
as que tomavam a pílula tinham dores menos severas do
que as que não usavam este contracetivo. Todos estes
efeitos positivos devem-se, segunda a ginecologista Teresa
bombas, «a mecanismos bioquímicos induzidos pela pílula».

- Controla a acne e o hirsutismo

A toma da pílula pode
também ser útil para tratar
a acne ou o excesso de pelos
(hirsutismo), confirma a SPDC.
O motivo é só um e, talvez,
mais simples do que imagina. «Com a pílula, há um bloqueio
do funcionamento dos ovários
que os impede de produzir
androgénios, a hormona que,
em excesso, é responsável por
estes problemas que afetam
a imagem da mulher», explica
a especialista. Também aqui a
composição da pílula importa.
de acordo com a SPDC, os
fármacos mais eficazes para
tratar a acne e o hirsutismo
são os que contêm
progestativos com maiores
efeitos antiandrogénicos.


Veja na página seguinte: Os efeitos da pílula na prevenção do cancro

- Protege contra o cancro

São vários os estudos que comprovam
o efeito protetor da pílula em alguns
tipos de cancro, nomeadamente no
cancro do ovário, do endométrio e
eventualmente no cancro coloretal.


Dados da SPDC dizem-nos que o uso
da pílula diminui o risco de desenvolver
cancro do ovário, em cerca de 40%.


A ginecologista Teresa Bombas explica
que, «ao bloquear a ovulação, a pílula
bloqueia também o desenvolvimento
folicular e este parece ser um dos
mecanismos de proteção».

No caso
do cancro do endométrio, a redução
do risco chega a atingir os 50%. Segundo
a especialista «este efeito protetor está
relacionado com o equilíbrio que o
nível de estrogénio e progesterona da
pílula exercem no crescimento celular».
Quanto ao cancro coloretal, a SPDC
aponta para uma redução do risco de
18 por cento. «De facto, existem fatores
hormonais que podem estar também
envolvidos no aparecimento deste tipo
de cancro», afirma a ginecologista.

Descobertas inesperadas

Tomar a pílula aumenta
a probabilidade de
ganhar mais dinheiro, de
acordo com um estudo
da Universidade de
Michigan (EUA).
A investigação mostrou
que as mulheres que
tomavam a pílula desde
os 18 anos, estavam
a ganhar mais, ao fim
de dez anos, do que as
que nunca tinham usado
este contracetivo. como
tiveram a possibilidade
de adiar a maternidade,
investiram mais na
carreira profissional.

As mulheres que tomam
a pílula valorizam mais o
aspeto físico nos homens,
revelou uma investigação
da Universidade de
Stirling, na Escócia. Os
investigadores sugerem
que as mulheres que
tomam a pílula, como não
estão preocupadas com
a reprodução, escolhem
homens mais atraentes e
não aqueles que seriam
bons maridos ou bons
pais. Os resultados
carecem, contudo,
de mais investigação.


Uma investigação
da Universidade de
Aberdeen, na Escócia que
avaliou 46 mil mulheres
durante 40 anos, concluiu
que quem toma a pílula
pode viver mais anos.
Segundo a investigação,
estas mulheres têm
menos propensão para
desenvolver doenças
cardíacas e determinados
tipos de cancro. Os dados
do estudo referem-se
à primeira geração das
pílulas, uma vez que
o estudo começou na
década de 70.

Como escolher a pílula certa?

«A escolha da pílula deve ser individualizada
e feita por um médico que deverá atender
também às recomendações específicas
da contraceção hormonal combinada
nomeadamente, no tratamento do
hiperandrogenismo (responsável pela acne e pelo
hirsutismo), da síndrome pré-menstrual ou de
hemorragias disfuncionais», indica a sociedade
Portuguesa da contracepção.

Efeitos indesejados

Náuseas e vómitos
são os efeitos mais
comuns. Podem
também aparecer
hemorragias entre
os ciclos ou
verificar-se a ausência da
hemorragia de
privação. Em alguns
casos, ocorrem ligeiras
alterações de peso
que podem refletir-se
na perda ou no ganho
de um ou dois quilos.


Contudo, nenhum
destes efeitos deve
ser motivo para
abandonar o método.
Todos eles são de
fraca intensidade e
desaparecem, ao fim
de três ou quatro
meses. Se tal não
acontecer, fale com
o seu médico para
modificar a dose, a
composição e a forma
de administração
da pílula.


Veja na página seguinte: Quando não tomar a pílula

Quando não tomar a pílula?

Em alguns casos específicos,
a toma da pílula combinada pode trazer
alguns riscos para a saúde. Não a tome se:


- Sofre de
hipertensão
arterial e doença
vascular associada

- Tem história
pessoal
de AVC

- Sofre de
enxaquecas

- É obesa (Índice
de Massa Corporal acima de 40 kg/m2)

- É fumadora
e tem mais
de 35 anos

- Tem ou teve
cancro da mama

- Sofre de doenças
cardíacas e
tromboembolismo
venoso

- Padece
de doenças
hepato-biliares

Texto: Sofia Cardoso com Teresa Bombas (ginecologista-obstetra e secretária geral da SPDC - Sociedade Portuguesa da Contracepção)

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