O coração é o maior inimigo das mulheres

As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte do sexo feminino

Qual a principal causa de morte entre o sexo feminino? Não, não é o cancro!

As doenças cardiovasculares, tão associadas ao sexo masculino, são, afinal, a grande ameaça feminina. Em Portugal, anualmente, matam cerca de 22.000 mulheres.

Em Portugal, uma em cada três mulheres morre devido a uma doença do coração.

As doenças cardiovasculares, que afetam o coração e os vasos sanguíneos e incluem problemas como o enfarte do miocárdio e o acidente vascular cerebral (AVC), matam, por ano, nove vezes mais mulheres do que o cancro da mama e mais quatro mil mulheres do que homens. No entanto, continuam a ser encaradas como um problema sobretudo masculino, uma ideia que importa rebater, já que «só deste modo será possível que as mulheres adiram a um estilo de vida saudável e a um controlo adequado dos fatores de risco», sublinha Manuel Carrageta, cardiologista e presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia.

Especificidades femininas

«O calibre das artérias coronárias é proporcional ao tamanho da pessoa. Ora, como as mulheres, em geral, são mais pequenas do que os homens, as coronárias das mulheres são mais pequenas, pelo que são mais difíceis de manipular do ponto de vista técnico», descreve Manuel Carrageta. Este fator pode dificultar duas abordagens terapêuticas fundamentais (a cirurgia coronária e a angioplastia, uma técnica usada para desobstruir as coronárias em que se recorre a stents ou próteses), pelo que, «na mulher, muitas vezes, o tratamento, quer médico quer de intervenção ou cirúrgico, tem menos sucesso e o prognóstico é mais reservado», refere o especialista.

Associada à diferença de calibre das coronárias, o tipo de lesões que sofrem também é afetado pelo género. «Nos homens, a placa aterosclerótica que se acumula assume frequentemente a forma de grandes obstruções (doença coronária obstrutiva), enquanto nas mulheres frequentemente assume uma forma difusa, estendendo-se ao longo da parede das artérias e atingindo, muitas vezes, artérias mais pequenas», realça o especialista.

Diagnóstico mais difícil

As particularidades das lesões das artérias femininas tornam-nas menos visíveis, o que implica que técnicas como a coronariografia têm menor poder de diagnóstico na mulher. Por outro lado, há problemas mais difíceis de reconhecer. É o caso do enfarte silencioso, cujos sintomas são menos específicos que os do tradicional, e que é mais frequente na mulher, alerta Manuel Carrageta. «Os sintomas das mulheres não seguem tanto o modelo que vemos nos filmes, em que o homem, com uma expressão de dor, leva a mão ao peito», alerta.

«Na mulher é mais uma sensação de fadiga, de cansaço intenso, de enjoo. Às vezes passado um mês, por qualquer razão, é feito um eletrocardiograma e vê-se uma cicatriz de enfarte. Ou seja, a pessoa teve um enfarte sem dor e não percebeu, mas ficou com uma cicatriz», acrescenta ainda o especialista.

O fator hormonal

Tabagismo, hipertensão, colesterol e diabetes são os principais fatores de risco para os problemas cardiovasculares, sendo que «na mulher, o tabaco e a diabetes são mais agressivos para as coronárias do que no homem», sublinha Manuel Carrageta. Mas o impacto deste quarteto é mediado por uma quinta variável fulcral. «O perfil hormonal é o terreno onde os fatores de risco exercem a sua atividade e, na mulher, é diferente do homem», explica, referindo-se à redução dos níveis de estrogénio que ocorre após a menopausa.

Segundo a Mayo Clinic, esse é um fator de risco significativo para o desenvolvimento de problemas cardiovasculares nos vasos sanguíneos mais pequenos (doença microvascular). Aliás, «a ideia de que o homem é a maior vítima das doenças cardiovasculares provém do facto de as mulheres terem os enfartes, em média, dez anos mais tarde devido às hormonas protetoras», reitera o cardiologista.

Pílula, gravidez e stresse

Devido à influência hormonal, a pílula e a terapêutica hormonal de substituição têm impacto no grau de risco cardiovascular, pelo que a sua toma deve ser avaliada caso a caso pelo médico. Mulheres que fumam e tomam a pílula têm alto risco de doença coronária, sobretudo se tiverem mais de 35 anos, alerta o National Institutes of Health. Outros fatores a ter em conta são as complicações da gravidez (a pressão arterial alta e a diabetes gestacional aumentam o risco de doença cardiovascular na mãe e no filho), a história familiar (nas mulheres, o risco é especialmente elevado se a mãe teve um AVC), o stresse e a depressão.

Todos estes fatores deverão ser avaliados pelo médico de família que, além de lhe poder receitar medicação para controlar a diabetes, o colesterol e/ou a hipertensão, deverá encaminhá-la para uma consulta de cardiologia sempre que houver um fator de risco não controlado ou difícil de controlar. Mas o primeiro e indispensável passo será, sempre, esse que já adivinhou: adotar um estilo de vida saudável.

Como reduzir o risco adotando hábitos amigos do seu coração:

Na alimentação

- Tome um pequeno-almoço rico em cereais ou pão integral, fruta e laticínios magros.
- Consuma entre cinco a seis porções de fruta e vegetais por dia.
- Ingira alimentos ricos em fibra vegetal, como grãos integrais e leguminosas.
- Coma peixe, especialmente peixes gordos, duas ou mais vezes por semana.
- Privilegie o azeite face a outras gorduras.
- Beba moderamente vinho às refeições. O recomendado é um copo de 2,5 dl por dia.
- Limite a ingestão de gordura saturada, colesterol, álcool, sódio (sal), açúcar e gorduras trans.

Na atividade física

- Pratique 30 a 60 minutos de atividade física na maioria dos dias da semana, aumentando para entre 60 a 90, se precisar de perder peso.

Na gestão do stresse

- Aprenda a relaxar e a desligar dos problemas. Se necessário, recorra ao yoga ou meditação.

Tabaco

- Deixe de fumar ou não (re)comece a fazê-lo.

Vigie a saúde

- Mantenha a tensão arterial inferior a 120/80mm Hg sem recorrer a medicação.
- Mantenha os níveis de colesterol inferiores a 200 mg/ dl sem recorrer a medicação.
- Mantenha os níveis de glicémia de jejum inferiores a 100 mg/dl sem recorrer a medicação.
- Mantenha o seu Índice de Massa Corporal (IMC) inferior a 25 kg/m2.

Sintomas femininos de ataque cardíaco

Os sintomas diferem dos sentidos pelos homens e podem ser desde intensos e súbitos a moderados e progressivos, bem como surgir quando está a descansar ou a fazer um esforço físico. Ligue imediatamente para o 112 se sentir:

- Dor, pressão, aperto ou desconforto no peito (nem sempre ocorre e pode ser subtil)
- Desconforto no pescoço, mandíbula, parte superior das costas ou zona abdominal
- Falta de ar
- Dor no braço direito
- Náusea ou vómitos
- Suor
- Vertigens ou tonturas
- Fadiga fora do comum (às vezes durante dias)

Texto: Rita Miguel com Manuel Carrageta (cardiologista e presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia)

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