O composto químico que pode travar a leucemia explicado pelo português que o descobriu

Por ser mais raro, o subtipo desta doença «tem sido descurado», critica o investigador Bruno Silva-Santos, coordenador de um projeto que abre portas a novas soluções terapêuticas.

Uma equipa liderada por Bruno Silva-Santos, investigador do Instituto de Medicina Molecular (iMM) e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL), demonstrou, no primeiro trimestre de 2017, que um subtipo de leucemia é particularmente viciado numa proteína que estimula a sobrevivência das suas células, existindo um composto químico que pode ser eficaz no combate à doença. O estudo foi financiado pelo European Research Council da Comissão Europeia e pela Fundação para a Ciência e Tecnologia e publicado na revista científica Leukemia.

«A leucemia linfoblástica aguda de linfócitos T (LLA-T) é um cancro particularmente agressivo e frequente em crianças. Perante o sucesso limitado dos atuais tratamentos, procuram-se novas alternativas terapêuticas. Existe um subtipo desta doença, designado por gama-delta (LLA-Tgd), que, por ser mais raro, tem sido descurado», critica o cientista.

«Assim, decidimos investigar os mecanismos moleculares de sobrevivência destas células para tentar encontrar o seu ponto fraco. Ficámos a saber que a leucemia LLA-Tgd é muito dependente da proteína CK2 para a sua sobrevivência. Tal permitiu-nos testar o efeito do CX-4945, um composto químico inibidor da referida proteína sobre a LLA-Tgd», afirma Bruno Silva-Santos.

«Na sequência, observámos uma grande capacidade de induzir a morte das células desta doença, incluindo num modelo animal pré-clínico», esclarece ainda o especialista, que enaltece o potencial deste estudo. «Com o composto químico CX-4945 em ensaios clínicos noutros tipos de cancro, abre-se a perspetiva de ser aplicado num melhor tratamento de doentes com leucemia, mesmo nos casos de LLA-Tgd», afiança Bruno Silva-Santos.

Descodificador

- Leucemia

Cancro das células estaminais da medula óssea, que dão origem às células do sangue.

- Linfócitos T

Glóbulos brancos que defendem o organismo de agentes desconhecidos e de tumores.

- Proteína CK2

Tem um papel relevante no controlo da proliferação celular, sendo fulcral para a sobrevivência dos linfócitos T.

Texto: Carlos Eugénio Augusto

artigo do parceiro:

Comentários