O cancro do pulmão e a imunoterapia

O cancro do pulmão é um dos tumores de maior incidência e a principal causa de morte por doença oncológica. É uma doença de elevada carga sintomatológica e de drástico impacto pessoal, familiar e social. Um artigo do médico pneumologista Fernando Barata, presidente do Grupo de Estudos do Cancro do Pulmão.
créditos: AFP PHOTO / FRED DUFOUR

Em Portugal, mais de 4300 pessoas por ano são diagnosticadas com cancro do pulmão. O número de novos casos aumenta vertiginosamente todos os anos. Ontem, como hoje, insistimos na prevenção e reforçamos as medidas antitabágicas e de proteção face à poluição global. Estamos atentos ao tabagismo passivo e a determinantes genéticas. Damos os primeiros passos num rastreio eficaz.

No tratamento, tanto a cirurgia, como a radioterapia e a quimioterapia, isoladas ou associadas, constituem as principais armas terapêuticas no tratamento do cancro do pulmão. Importantes avanços na compreensão dos fenómenos da biologia celular, das anomalias genéticas associadas ao cancro do pulmão, do advento de novos fármacos citostáticos, das novas modalidades de aplicação da radioterapia e da cirurgia têm tradução num significativo aumento da sobrevivência com melhor qualidade de vida.
Mas novas terapêuticas emergiram isoladas ou associadas às anteriores.

Fernando Barata, médico pneumologista e presidente do Grupo de Estudos do Cancro do Pulmãocréditos: DR

Compreendemos dos mecanismos moleculares e celulares subjacentes ao processo de iniciação, proliferação e progressão do cancro do pulmão. Qualquer atual algoritmo de tratamento recomenda para a doença avançada, que se pesquise mutações do gene EGFR (epidermal growth factor receptor) ou rearranjo no gene ALK (anaplastic lymphoma kinase). A mutação EGFR estará presente em cerca de 12% a 15% dos doentes. A translocação ALK estará presente em 4 a 7% dos casos.

Quando presente, uma terapêutica oral específica (inibidores tirosina cinase) está recomendada. A pesquisa destas características moleculares associada a uma terapêutica específica conduziram-nos, neste subgrupo de doentes, a um duplicar da sobrevivência global.

Nos últimos anos assistimos ao reconhecimento do papel do sistema imunológico no desenvolvimento e progressão da doença oncológica. Sucessivos avanços demonstram que a ausência de uma resposta imunológica eficaz condiciona por parte do tumor mais proliferação. Compreender como evitar esta evasão imunológica traduz-se agora em benefício terapêutico com eficácia clínica.

Esta terapêutica tem como objetivo a destruição das células tumorais via mediação imunológica.

Estimulando os linfócitos T contra locais específicos da célula tumoral que conduzem à sua destruição e promovendo o desenvolvimento de memória imunológica contra essas células ou futuras recidivas, esta terapêutica pode, ultrapassado determinados mecanismos de defesa do tumor, conduzir a resultados eficazes e duradores.

A era da imunoterapia para o cancro do pulmão avançado está a chegar. Mais uma arma terapêutica que promete eficácia com um perfil de toxicidade muito aceitável. Estes fármacos estão a revolucionar e entusiasmar todos para, passo a passo, darmos ao nosso doente mais vida com qualidade.

O médico Fernando Barata é especialista em Pneumologia e presidente do Grupo de Estudos do Cancro do Pulmão.

artigo do parceiro: Nuno Noronha

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